Capítulo trinta e oito

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Lavo um prato aqui e ali, cantarolando. Hoje é um dia especial. Depois do final de semana dançante, só me restou esperar pelas próximas aventuras com Carla. Hoje – sexta-feira –, saí mais cedo da academia para receber a minha mãe e minha prima. – Fecho a torneira, dou uma girada, uma sapateada e vou organizando tudo no escorredor. – O jantar que minha mãe fez estava ótimo! Nem adiantou insistir que ela não fizesse nada e só descansasse. Eu mal havia aberto a boca para protestar e ela já tinha tirado sacolas e mais sacolas de legumes e frutas de dentro da pequena mala. Também fiquei muito feliz por receber a minha companheira de leituras, Lalá. Sei que foi muito mais tranquilo para minha mãe vir ao Rio de Janeiro com uma companhia, e como Lalá já havia vindo aqui algumas vezes para fazer provas, ela conhece um pouco da cidade.

Termino de empilhar o último prato e estico um pouco o corpo. Estou super cheio, a comida estava excelente. Agora minha mãe e minha prima foram para o quarto de hóspedes para tomar um banho e descansar um pouco, afinal, este final de semana vamos fazer alguma coisa legal. Para completar todo esse clima familiar só faltou o Henri. Ele viajou para Curitiba e só deve voltar amanhã de manhã. Me sinto um pouco sozinho quando ele viaja assim, gosto de dormir na companhia gostosa e quente dele. Me assusto com o barulho da campainha. Ué, não lembro de estar esperando alguém...De repente uma empolgação toma conta de mim. Deve ser o Henri! Ele deve ter conseguido um jeito de chegar mais cedo, afinal estava empolgado com a chegada da minha família. Abro um sorriso e vou atender a porta, girando a chave e abrindo bem devagar.

O meu sorriso se esvai e um frio na barriga toma conta de mim ao perceber quem está do outro lado. – Engulo em seco. – Não é possível! Não lembro que dia foi, mas tinha certeza de que o meu prazo ainda não havia acabado.

– Senhor Giuseppe? – Minhas pernas bambeiam.

– Boa noite. – Ele responde seco. – Podemos conversar?

– Claro, entra. – Abro a porta com a mão tremendo e ele entra de uma só vez.

Fecho a porta, me viro e o sigo pela sala. Ele para de repente e se vira para mim.

– Então? – Seu olhar me atinge como uma flecha. – Qual é a sua resposta?

– Desculpe, senhor Giuseppe. – Engulo em seco e tento não gaguejar. – O senhor me deu duas semanas... e o prazo ainda não acabou.

Ele faz uma expressão de impaciência.

– Não importa. Quero a resposta agora! – Ele fica parado feito uma estátua de bronze na minha frente, impassível, sequer piscas os olhos. A sua roupa social demais, com terno e gravata, o deixa ainda mais tenebroso, como se fosse um agente do FBI.

A gente fica se encarando e depois de quase duas semanas eu me deixo pensar no assunto da proposta. Ele quer que eu suma da vida de Henri sem deixar rastros e em troca vai me dar uma vida em um lugar longe da minha família e um emprego fixo. Em troca vai deixar todos os seus bens para o único parente vivo que tem, Henri. Ou seja, ele deixou nas minhas mãos a escolha de deixar o próprio sobrinho sem nada, sem sequer que ele soubesse. Carla tem razão, eu não tenho que negociar com esse sujeito.

– Desculpa, não posso te dar essa resposta. – Digo por fim e solto todo o ar que havia prendido.

Ele pisca duas vezes como se esperasse que eu dissesse outra coisa.

– Por que não? – Seu tom é neutro, não transmite nenhum sentimento, o que me faz pensar que este homem não é capaz de sentir nada por nenhum ser humano.

Respiro fundo e tento ser o mais racional que posso. Da última vez que ele me fez uma proposta eu agi com o coração, mas agora sinto que é hora de ser racional. Preciso ser o mais maduro que posso neste momento. No fundo ainda tenho esperança que ele seja razoável. Henri vive me dizendo que ele é um homem bom. Ele tem que ter alguma coisa de bom aí dentro, nem que seja consideração pelo próprio filho-sobrinho.

Ouço a voz da minha mãe de longe e ambos viramos os nossos olhares por um momento na direção do quarto de hóspedes, cuja luz está acesa. Ele me olha de volta confirmando que tem mais alguém na casa, mas logo ignora. Sua atenção é totalmente minha, então respiro fundo e continuo:

– Uma vez o senhor me mandou escolher entre ficar com Henri ou ficar com o meu emprego. – Minhas mãos começam a tremer e eu fecho os punhos. Não vou vacilar. – Aquilo tudo dizia respeito a mim e eu fiz a escolha que eu tinha certeza de que deveria fazer, não hesitei nem por um segundo em escolher Henri. Eu tenho que confessar que jamais esperaria uma proposta como o senhor me fez aquela vez. Eu não conheço o senhor, mas Henri vive falando que você é uma boa pessoa – ele pisca duas vezes, engole em seco e volta a ficar com um olhar impenetrável – e uma boa pessoa não faz o que o senhor fez.

Ele fica calado. Consigo ver de longe um vislumbre de alguma coisa processando na sua cabeça. Espero um pouco para que ele absorva o que eu disse e continuo:

– Mas desta vez o senhor me mandou escolher entre o futuro do seusobrinho e sinceramente, eu não posso fazer isso. – Meu coração está terrivelmente acelerado. – Henri. – Minha voz sai um pouco mais alta do que pretendia. – É ele quem deve decidir se abre mão de tudo o que ele poderia herdar do senhor por qualquer que seja o motivo, seja em um relacionamento comigo ou qualquer outra coisa que ele acredite.

– Pedro... – a voz da minha mãe nos interrompe.

Ambos olhamos ao mesmo tempo para a porta do quarto de hóspedes. Ela está vestida de roupas simples e com o cabelo um pouco molhado. Sua expressão muda para preocupação no momento que ela reconhece quem é o senhor que está conversando comigo. Depois que ela me ligou no Réveillon, estamos nos falando muito mais e isso inclui detalhes da minha vida com Henri. E depois de conversar com Carla, liguei para ela e contei tudo sobre o tio de Henri, apenas deixei de fora a proposta que ele tinha me feito. Neste momento, quase me arrependo de ter contato sobre Giuseppe para ela. Tudo o que eu mais queria era deixar a minha família de fora de problemas da minha vida pessoal.

Ela se aproxima de nós, entra no meio e estica a mão para o tio de Henri. Sua expressão de pedra cai por terra e ele fica confuso por um momento, eu diria até que ele ficou envergonhado. Minha mãe espera com mão esticada. Ele pigarreia e em um movimento nervoso segura a mão dela.

– Vera Lúcia! – Ela diz séria.

– Giuseppe. – Ele responde.

Eles ficam segurando a mão um do outro. Meu coração está a mil. Levo um susto quando ela fala novamente.

– Filho, pode nos deixar a sós por um momento?

Uma corrente de gelo percorre minhas veias e por um instante eu hesito em deixar a minha mãe a sós com esse cara, mas resolvo dar um voto de confiança a ambos.

– Claro. – Digo de uma vez, saio a passos largos em direção ao quarto de hóspedes e fecho a porta atrás de mim.

Última Chamada (Amor sem limites #3)Onde histórias criam vida. Descubra agora