Capítulo cinquenta e seis

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Estou sentado na minha cama há horas, mas meu pai não me deixa sair do quarto. Já não estou tão animado assim a falar com ele. Acho que estou de castigo, mas não é justo! Eu fiz o meu dever todo da semana. Minha mãe também não quer voltar do supermercado. Meu pai disse que era para eu esperar que ela viria me buscar. Me levanto da cama e me aproximo devagar da porta. Já faz tanto tempo, ele nem deve estar mais olhando. Piso o mais devagar que posso, encostando os dedos no chão gelado e ficando na ponta dos pés. Talvez se ele não me escutar eu consiga sair daqui. Mais um passo, agora só falta um...

– Pedro, não dê mais nem um passo. – Sua voz brava vem lá de fora, do corredor iluminado.

Deixo os ombros caírem. Eu perdi. Ele sabe que eu queria fugir. Me jogo no chão, perto da porta e abraço os joelhos. Estou com vontade de chorar, mas homem não chora.

– Por que você não quer me ver? – Grito com todas as minhas forças, estou com raiva.

Ele demora um pouco, mas responde.

– Eu queria muito te ver meu filho. – Sua voz já não está mais tão brava, talvez ele deixe eu sair agora. – Mas não é a hora de você vir para cá.

– Para o corredor? – Pergunto, confuso.

– Isso não é o corredor, Pedro.

– É sim! Eu estava procurando você por aí e eu vi que é o corredor. – Digo, bravo.

Ele ri. Sua gargalhada é tão gostosa que me faz rir também.

– Eu queria brincar... e te contar do meu novo amigo, o Jefinho.

– Eu sei. – Ele ri mais uma vez. Talvez não esteja mais bravo. – Sabe, eu sempre gostei desse seu lado garoto, nós brincávamos tanto quando você era pequeno.

Não consigo entender o que ele quer dizer com isso. Eu ainda sou pequeno.

– Quando eu era bebê? – Pergunto.

– É. – Ele gargalha. – Eu sempre gostei tanto de te mimar.

– Por que eu não posso te ver? – Insisto.

– Você e essa sua cabeça dura de sempre. – Seu tom é de bravo de novo. Mordo um lábio. – Já disse que a sua mãe vai vir te buscar. – Ele suspira.

– Tá bom. – Espero um pouco. – Agora eu tenho um amigo novo na escola, ele se chama Jeferson, mas eu o chamo de Jefinho.

– Que legal! E vocês se dão bem? – Sua voz ainda vem do corredor iluminado. Queria ver seu rosto.

– Sim. Mas os meninos chamam ele de veadinho e ele chora às vezes.

– O mundo é realmente muito cruel, meu filho. Jefinho poderia ter se tornado uma ótima pessoa. Ele é inteligente e esperto, mas as pessoas acabaram tirando o que ele tinha de mais precioso.

– E o que era?

– A vontade de viver.

Fico calado. Meu pai está dizendo umas coisas tristes. Não gosto de conversar sobre coisas tristes.

– Mas o Jefinho não é assim, ele gosta de viver. – Retruco.

– Sim. Ele gostava. – Sua voz é calma.

– Como você o conhece? – Estou de frente para a porta do quarto.

– Ele veio para cá. – Ele faz uma pausa. – Agora é hora de ir dormir, Pedro.

Deixo os ombros caírem. Já sei que não posso discutir com meu pai sobre a hora de dormir, então me levanto, vou caminhando em direção à cama e me deito. Queria que ele viesse me dar um beijo ou contar uma história.

– Estou sem sono! – Grito para que ele me escute.

– Feche os olhos que seu sono vai chegar. Sua mãe está chegando para te buscar.

Fecho os olhos, mas o sono não vem. Viro para o lado, depois para o outro, aperto bem forte, mas nada.

– Ela vai demorar? – Grito para ele.

– Ela já está aqui. – Ele responde, calmo. – Boa noite, Pedro. Papai te ama.

Última Chamada (Amor sem limites #3)Onde histórias criam vida. Descubra agora