Capítulo vinte e quatro

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Pego uma garrafa de água em uma bacia prateada com gelo e vou para um canto respirar um pouco. Me encosto na parede e fico observando o mini estúdio montado no andar superior da academia. Carla ainda está papeando com os caras que ela chamava de gostosões. Agora ela já chama direto pelos nomes mesmo. Dos seis, fizemos amizade com quatro deles. Carlos, Anderson, Marcos e o cara mais gato de todos, Alex. Mas até que apesar de impressionado com a beleza dos três, não me senti nem um pouco atraído, isso porque ao meu ver o meu Piloto dá de dez a zero nos três juntos. E não consigo olhar para outros homens com desejo. Henri ocupa todo esse espaço na minha cabeça. E por falar nisso, ele me mandou mensagem de bom dia e me chamando para almoçar com ele. Estava todo bem humorado, o que me contagiou. Aceitei logo de cara. Até chamei a Carla para ir, mas ela disse que tinha combinado de almoçarmos com Ralph, e que inclusive, tinha falado que eu iria junto.

– Cansado? – Ralph chega pela lateral e se encosta na parede junto de mim.

– Não, muito. – Sorrio. – Foi bem divertido fazer as fotos com vocês.

– Até que achei você bem à vontade. – Ele sorri. – Achei que seria um desafio fotografar o tão introspectivo P.O.

– A Carla acaba me deixando à vontade com sua irreverência e espontaneidade.

– Ela é ótima mesmo. – Ele faz uma pausa. – Eu queria te contar uma coisa.

– Conte.

Ele sorri e se aproxima.

– Me dá um gole? – Diz, apontando para a garrafa de água na minha mão.

– Claro.

– Então. Tive em São Paulo para passar o natal com minha família. Essa vez, diferente das outras, foi bem tranquilo... e interessante.

– Como assim, interessante? – Fico ansioso.

– Não é comum meus irmãos e eu conversarmos muito. Mas esse natal minha irmã se aproximou mais de mim. – Ele bebe outro gole de água. – Ela está passando por problemas no relacionamento dela e se abriu comigo. Daí a gente conversou muito e acabamos nos aproximando. Até saímos juntos para jantar, só nós dois.

– Que ótimo, Ralph. Fico feliz que esteja se dando melhor com ela. Às vezes as adversidades da vida acaba aproximando as pessoas mesmo. Ainda bem que você estava disposto a conversar e ter a sua irmã como amiga.

– Pois é, sentia falta disso. Como eu te falei, não tenho muitos amigos. E não tenho oportunidade de me abrir com muitas pessoas. E confesso que pra mim também é difícil. Mas estou trabalhando nisso.

– Sei como é.

– Então... – ele faz uma pausa e bebe outro copo de água – aí pela primeira vez contei para alguém da minha família que sou gay.

Fico um pouco chocado com o que ele acaba de me dizer. Não que eu não esperasse que Ralph me contasse qualquer coisa assim, mas pelo fato de termos feito a mesma coisa no final de semana sem que nenhum de nós dois tivéssemos combinado.

– Mas e aí... como foi a reação dela?

– Cara, foi totalmente o oposto do que eu imaginaria. Ela ficou muito feliz de eu ter me aberto com ela e disse que já desconfiava. Aí saímos para jantar e passear juntos enquanto eu contava várias histórias para ela.

– Que ótimo. Adorei a reação dela. – De repente bate um sentimento ruim e uma coisa aperta meu peito.

– O que foi, P.O? Você mudou de repente.

– Você é muito observador, Ralph. – Deixo os ombros caírem. – É até engraçado você me contar isso. – Ele me observa atento. – Este final de semana contei para minha mãe sobre mim e a reação dela não foi nada boa.

– Poxa, P.O. Sinto muito. – Ele se aproxima e me abraça. Seguro para não chorar. – Tem alguma coisa que eu possa fazer? – Ele diz me soltando.

– Ah, acho que não. – Suspiro. – Nem eu mesmo sei o que fazer, acho que agora é dar tempo ao tempo e ver se ela vai me aceitar.

– É muito triste pra gente... digo, nascer assim. Viver se escondendo e com medo de ser quem realmente somos. E no final, quando contamos para quem amamos, a gente ter que pedir perdão por ter nascido diferente ou por não corresponder às expectativas das outras pessoas.

– É verdade, Ralph... é muito triste.

Ficamos ali perto um do outro em silêncio por um minuto inteiro, ambos encostados na parede olhando Carla e os modelos de longe, brincando e morrendo de rir.

– Mas vamos falar de coisa boa. – Ralph dá um pulo para frente, com a voz animada e um brilho nos olhos. – Minha conversa com minha irmã não parou por aí. Contei para ela da academia e do grupo Sol e Lua, de você e de Carla, e ela amou.

– Sério?! – A empolgação de Ralph me contagia e aos poucos tento esquecer sobre o momento triste do natal.

– Eu já te contei que ela é do ramo da moda né?

– Já sim. Seus pais e seus irmãos, não é isso?

– Sim, isso mesmo. Minha irmã agora está lançando uma nova coleção de biquinis e sungas e tudo mais e queria entrar no verão carioca. Daí me ofereci para ajudar.

– Que tudo, Ralph!

– Aí... né... eu queria te fazer uma proposta.

– Proposta? – Fico confuso.

– É... como te disse, ela quer entrar no verão carioca, mas já está bem em cima né? Ela viu suas fotos e gostou de você. Enfim, quer tirar a tarde de hoje, aproveitar e tirar umas fotos para a coleção de verão dela? O cachê é bom! – Ele sorri.

Fico perplexo com o convite.

– Como assim, Ralph?! Nem sou modelo nem nada. Olha a diferença disso daqui – aponto para mim mesmo – com aqueles "gostosões" lá.

– Ai, você tem uma péssima autoestima. – Ele revira os olhos. – Aqueles "gostosões" não servem para ser modelos de sunga. Você não, é magro, definido, bonito... – Ele sorri. – Vai querer ou não? Carla já aceitou. Vai ser uma boa para o grupo de dança.

Fico pensando. Quer vergonha, meu Deus! Aparecer em uma campanha de sungas! Respiro fundo. Preciso de dinheiro, não dá pra ficar dependendo de Henri para tudo. E Carla vai estar lá... ai Deus, seja o que o senhor quiser!

– Tá bom! – Sorrio. – Se a Carla vai, eu também vou.

– Isso aí! – Ele levanta a mão e fazemos um high five. – Então vou lá, adiantar as coisas, daí a gente almoça juntos e fotografamos na parte da tarde.

– Boa! – Digo empolgado.

Ralph sai todo sorridente e vai em direção à Carla. Quando ele diz alguma coisa no ouvido dela, ela dá um pulinho e manda beijos de longe. Certeza de que ela já sabia que você ia aceitar – meu cérebro me cutuca. Ai, meu Deus, o almoço com Henri. Vou ter que cancelar. Ele não vai ficar nada feliz.

Última Chamada (Amor sem limites #3)Onde histórias criam vida. Descubra agora