Capítulo vinte

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E finalmente chegou a ceia de natal. Bom, chegou em termos, porque estou desde à tarde sem comer, esperando a ceia e nada dela sair. Chegaram alguns tios e primos meus que eu não via há algum tempo, então minha mãe deu um jeito de convidar todo mundo. Além da minha tia, mãe da Lalá e da própria Lalá, também vieram mais dois casais de tios e quatro primos barulhentos. Minha mãe, minha tia, Lalá e eu organizamos tudo para à noite. Colocamos mesas de plástico branco, com toalhas brancas e cadeiras espalhadas pelo quintal de casa. Minha mãe decorou as mesas com uma jarra de flores em cada uma para dar uma colorida em tudo. Lalá chegou a me puxar uma vez para me pergunta se eu iria contar para minha mãe sobre Henri e tudo mais. Ela parecia mais ansiosa do que eu mesmo. Mas não confirmei que falaria nada, especialmente depois que fiquei sabendo que outros membros da família iriam aparecer. Henri passou o dia todo na cozinha com minha mãe e minhas tias. Confesso que até fiquei com um pouco de ciúmes de não ser o centro da atenções dessa vez, mas no fundo achei ótimo que o meu namorado estivesse se dando bem com todo mundo aqui.

Olho para o relógio e só faltam quinze minutos para meia-noite. Fico sentado, com a barriga roncando, esperando que a ceia saia logo, mas pelo visto só vai sair depois da meia-noite. Olho para o lado e vejo Henri todo arrumadinho de camisa social, aberta no peito e com as mangas retraídas, com um copo de cerveja na mão, conversando com meu tio Ronaldo. Sorrio com a controversa cena. Esse meu tio é uma pessoa incrível, só tem um defeito, é homofóbico. Ele fez questão de que seu filho William começasse a namorar desde cedo para seguir os passos machistas do pai. No fundo nós todos sabemos que ele morria de medo de que seu filho fosse gay. E agora está lá, conversando sobre o quê? Carros? Com Henri a festa toda. Mal sabe ele que Henri é o namorado do seu sobrinho. – Sorrio maliciosamente. – Até que toda a tensão que eu estava sentindo nos dias antes da viagem para cá se dissipou rápido com Henri aqui. Ele se integrou muito bem com toda a família. Tinha papo de comida e coisas de casa com minha mãe e minhas tias e sabia muito bem a conversar quando o assunto era carro, fórmula 1, futebol e essas coisas que meus tios ficam falando o tempo todo.

Me sentei perto da minha prima Lalá e trocamos sorrisos e confidências durante todo o jantar. Vez ou outra alguma tia minha se sentava a meu lado para perguntar como estavam as coisas no Rio de Janeiro e se eu já tinha arrumado uma namorada. Tentei ignorar o máximo que podia e não ficar aborrecido nem nada. Mas minha vontade era gritar para todo mundo que eu já estava namorando e que meu namorado era aquele gostosão falando sobre carros. Mas levei na boa.

Um momento tenso no meu dia foi quando chamei minha mãe para conversar e contei sobre eu ter sido demitido. Ela ficou bem preocupada e demorei a convencê-la de que estava bem trabalhando com Ralph e que tudo iria dar certo. Não contei que foi o tio de Henri que me demitiu, porque seria muito difícil explicar o porquê. Henri estava comigo e, para minha surpresa, exaltou todo o trabalho que tenho feito com Ralph e assim, minha mãe ficou mais aliviada. Menos um fardo para carregar agora.

Começa uma movimentação e o pessoal começa a se reunir no meio do pátio.

– Será que é a comida chegando e o povo tá atacando? – Digo, já me levantando.

– Não. – Lalá ri. – Sua mãe tá chamando para fazer uma oração antes da meia-noite.

Ahhhh... – faço um muxoxo enquanto minha barriga se aperta de fome.

Henri para de conversar e vem silenciosamente para perto de mim. Se posicionando ao meu lado.

– Estava se divertindo lá? – Pergunto baixinho no seu ouvido.

– Estávamos falando de carro. – Ele sorri. – Seu tio gosta de falar né?

– Também acho. – Dou uma cutucada nele. – Acho que ele quer te roubar de mim.

– Coitado. – Ele sorri e olha para minha mãe.

Minha mãe convoca todo mundo e pede para que nós demos as mãos e assim ela faz uma oração de agradecimento. Aproveito o momento e de olhos fechados agradeço por tudo. Este ano foi meio doido. Comecei meu projeto verão, conheci Henri, dancei com Carla, me mudei para outra cidade e hoje tenho um namorado, homem, que eu nunca teria imaginado ter e estou completamente apaixonado. Sou muito grato por tudo.

– Amém. – Todos dizem ao mesmo tempo.

Dá meia-noite e todo mundo começa a se abraçar e desejar um feliz natal. Eu abraço todo mundo. Um abraço demorado pra quem eu gosto mais, e um abraço superficial para as tias chatas que eu nunca vejo e que adoram saber quando vou namorar. E para meu tio homofóbico, um abraço bem gay mesmo. – Meu eu-psicológico puxa minha orelha. – Maneira Sr. Pedro.

E assim a noite se passa, música tocando, muita comida graças à Deus e vinho e cerveja para acompanhar as festividades. No final das contas todo mundo amou Henri, o cara que eu tive que apresentar como amigo para a minha mãe e a minha família ficar bem enquanto eu me sentia mal por não poder aproveitar meu natal do jeito que eu realmente queria, com meu namorado.

Última Chamada (Amor sem limites #3)Onde histórias criam vida. Descubra agora