Capítulo vinte e um

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Dia vinte e cinco de dezembro, natal, café da manhã na casa da minha mãe e um mau humor que não pensava que sentiria passando um feriado perto da minha mãe. Não é culpa dela, é minha culpa por não ter ligado o foda-see contado a verdade desde que cheguei aqui. E assim se foi uma véspera de feriado com uma ceia de natal lindíssima, cheia de comida, bebida boa e a família toda reunida e feliz. E eu tive que ficar o tempo todo assistindo o meu namorado de longe, conversando com a família inteira enquanto eu me sentia a pessoa mais sozinha do mundo. Minha prima logo percebeu durante a ceia que eu não estava feliz e fez de tudo para me animar. Henri vez ou outra se sentava ao meu lado para me fazer companhia, mas logo era levado pela roda de tios chatos conversando sobre coisas de machos.

– O que foi? – Ele me pergunta.

– Nada. – Tomo um gole de café e como um biscoito de água e sal.

– Mas ele sempre gostou de dançar. – Minha mãe continua contando sobre quando eu era criança. – Depois de grande que ele ficou bobo. Podia ter feito dança de salão, Pedro.

– Eu sempre gostei mais de engenharia, mãe. – Retruco.

– Eu sei filho, mas dá pra fazer as duas coisas.

– Isso porque a senhora não viu como é a faculdade. Mal dá pra dormir.

Minha mãe ri, enquanto lava louça.

– Ai, filho, você é demais. E você, Henri, como foi a sua faculdade?

– A minha foi difícil também, mas acho que a do Pedro foi mais. – Ele sorri me olhando, mas não consigo sorrir, estou bem incomodado.

– O que foi filho? – Minha mãe me observa de longe.

– Nada não, mãe. Só estou cansado, dormimos tarde e acordamos cedo.

– Pois é. Vocês dois poderiam ter dormido até mais tarde.

– Estava bem barulhento lá fora. Impossível dormir. – Reclamo.

– Eu já acordo cedo mesmo, dona Vera. Sou acostumado. – Ele sorri, tímido. – E vamos pegar a estrada daqui a pouco. Queremos chegar em casa e descansar um pouco antes de ter que ir trabalhar amanhã, né Pedro?

– É isso mesmo. – Digo seco.

E tudo se repetiu. Henri foi para a cozinha ajudar minha mãe a preparar o almoço de natal e eu fui para o meu quarto ficar um pouco sozinho. A verdade é que eu não estava com sono coisa nenhuma, só estava mau humorado mesmo por conta da minha situação.

– Ainda dá tempo de contar para ela. – Meu eu-psicológico começa um diálogo.

– Sim, dá. Mas não sei se é o momento certo, Dr. Pedro.

– Quanto mais tempo passar será mais difícil contar. Pense em quanta coisa você tem escondido dela.

– Eu sei. E isso está me matando por dentro. E o pior, tenho que ficar na minha para a família ficar feliz por conhecer meu amigo. Porque se for meu namorado vai todo mundo surtar.

– Vai todo mundo surtar e você vai ficar bem. Acho que posso conviver com isso.

– Até parece que é tão fácil assim... Doutor.

– Até parece que é tão difícil... Senhor.

– Ai me deixa sozinho... – balanço a cabeça para acabar com minha consulta mental.

– Até parece que é tão fácil – repito para mim mesmo.

Depois do almoço arrumamos nossa poucas coisas e preparamos para zarpar. Minha mãe está na cozinha acabando de arrumar. Ela se recusou a aceitar minha ajuda ou de Henri. Segundo ela, Henri havia cozinhado a maior parte do almoço enquanto ela observava e não seria justo deixar quem fez o almoço arrumar a bagunça. Então ele vai para a sala e deita em frente ao sofá para tirar uma soneca antes de partirmos. Fico na cozinha fazendo companhia para minha mãe enquanto conversamos sobre amenidades. Queria que Lalá estivesse aqui para me ajudar a decidir o que fazer, mas ela não apareceu desde ontem. Provavelmente ainda está dormindo. Fico pensando na conversa comigo mesmo que tive hoje mais cedo. Não é tão fácil ter que contar uma coisa dessas. Se por um lado, eu não contando fica todo mundo feliz menos eu, por outro, se eu contar, eu fico feliz e toda a minha família vai estranhar Henri e eu, o que vai deixar minha mãe infeliz.

Pego um copo de água na geladeira, paro do lado da minha mãe, ainda contando algum caso que eu não sei mais qual é, enquanto seca a pia com um pano. Bato o pé no chão de nervoso e a ansiedade toma conta de mim. Conto eu não conto? Eu sou o único dessa família que é gay. Isso vai ser um choque. – Meu coração se acelera. –Conto ou não? Por outro lado, não devo nada a ninguém, sempre fui independente, esforçado e pago minhas próprias contas. – Minha respiração aumenta. – Conto ou não? Minha mãe pode me tratar de um jeito diferente se eu contar. Ela pode não aceitar nunca, como o tio de Henri.Conto ou não? Mas esse é o meu eu-verdadeiro, qualquer coisa diferente disso é uma mentira! Conto ou não?!

– Mãe! – Minha voz sai quase como um grito. E ela olha para mim, assustada. – Preciso te contar uma coisa.

Última Chamada (Amor sem limites #3)Onde histórias criam vida. Descubra agora