Sinto uma pressão na barriga e um calor percorrendo meu corpo. Coloco a mão instintivamente no local da dor e olho. Está tudo vermelho.Isso é... fico tonto e começo a perder os sentidos. Minhas pernas bambeiam e eu caio para trás. Tento colocar o braço para me proteger, mas meu corpo não me obedece. Bato a cabeça com força no chão. Meus ouvidos não funcionam direito, é como se eu estivesse mergulhado em uma banheira. A única coisa que consigo escutar é o som do meu coração. Está batendo forte, está acelerado, ainda cheio de adrenalina por tudo o que aconteceu minutos antes. Minha cabeça dói muito.
TÁ! TÁ! TÁ!
Consigo escutar bem ao longe mais barulhos de tiro. Ah não... tudo tinha acabado. Estávamos indo para casa... eu... Henri...– Lágrimas começam a escorrer dos meus olhos. Minha visão começa a ficar turva, não consigo enxergar nada além do céu escuro. Não consigo virar a cabeça, meu corpo não me obedece, estou sentindo minhas forças se esvaindo. Acho que vou desmaiar.
– Henri... não deixa ele matar o Henri... – não sei se consegui falar de verdade ou só em meu pensamento.
Sinto o calor se espalhando por toda a minha barriga, tronco, perna. Estou sangrando, estou sangrando muito. Alguma coisa faz pressão na minha barriga. Minha visão escurece e volta novamente, sinto que vou apagar a qualquer momento. Henri aparece por cima de mim. Não consigo visualizar o seu rosto direito. Está tudo embaçado. Mas se ele está aqui... – uma calmaria repentina começa a tomar conta de mim – ele está vivo. Tento focar a visão nele, mas não consigo, é uma pena, ele é tão bonito. – Sorrio... ou pelo menos tento.
Já não consigo escutar mais nada, só as batidas do meu coração. Estão ficando lentas. Henri aparece mais uma vez na minha visão desfocada e grita alguma coisa comigo. Acho que ele está bravo. tum tum...tum tum... Eu vou morrer.
Eu nunca pensei em como morreria. Aliás, a morte é a única certeza da vida, porém é um assunto que a maioria das pessoas ignora até que ele se aproxima, inevitavelmente. O momento derradeiro. O pânico toma conta de você em questão de segundos. O que vai acontecer com as pessoas que eu amo? O que vai acontecer com tudo o que eu construí até aqui? Será que se lembrarão de mim daqui a cinco, dez, vinte anos? Será que eu vou renascer neste mundo?
Com a escuridão tomando conta de mim, toda a minha vida passa diante dos meus olhos, como em uma retrospectiva. Eu fui uma criança muito feliz, brincava com meu pai enquanto ele ainda era vivo. Lembro de quando ele me jogava para cima e me deixava cair, sempre em seus braços. Eu sempre tive medo de que ele não conseguisse me segurar, mas isso nunca aconteceu. Sempre que eu caía e aquele frio na barriga tomava conta de mim, me fazendo fechar os olhos, seus braços já estavam prontos para me segurar.
E depois meu pai se foi. E a minha vida começou uma nova fase. A escola, os amigos, as matérias, as provas, as gincanas. Depois veio o colégio, a adolescência, os primeiros amores. Ah, os amores... Lembro da Bruna e o amor em segredo que eu nutria por ela. Ela estava sempre nos meus sonhos de adolescente e eu suspirava toda vez que a via na escola, mesmo sabendo que ela nunca olharia para mim. Ela era a menina mais linda que eu conhecia, eu sabia que não teria chance alguma com ela, mas isso não impedia meu coração de bater mais forte quando ela passava por mim.
A época da faculdade passou voando. Fiz poucos mas bons amigos. Era tanta prova e tanta matéria difícil que sobrava pouco tempo para socializar. Depois de formado perdi o contato com a maioria dos meus amigos do curso de engenharia civil. Me tornei um bom engenheiro e consegui rápido um emprego na área, mesmo no período de crise que o país estava passando.
E aí veio ele. Uma presença inesperada e um amor que eu jamais imaginaria que poderia brotar no meu coração, muito mais forte e real do que aquele que eu havia tido por Bruna quando era criança. Ainda me lembro dos seus olhos negros me olhando do espelho, desafiadores e ao mesmo tempo gentis. Quem diria que me apaixonaria assim por outro homem. E que este homem se tornaria o melhor pedaço de mim. Ah Henri, eu faria tudo de novo por você. Eu daria a minha vida por você quantas vezes fossem necessárias. Você fez cada segundo da minha vida valer a pena.
Suspiro o mais fundo que posso, queria ficar mais um pouco com ele. Tum tum... tum tum.. tum tum...tum tum...tum... tum...
– David!!!! O Pedro!!!! – A voz de Carla é a última coisa que escuto antes de apagar de vez.
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Última Chamada (Amor sem limites #3)
RomanceQuando Pedro conheceu o piloto Henri, teve início um caso de amor que mudou a vida dos dois para sempre. Tudo era novidade para ambos, já que nunca haviam se envolvido com pessoas do mesmo sexo. A curiosidade, o desejo e por fim o amor aproximaram o...
