Capítulo vinte e sete

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Me jogo no chão e encosto na parede. Uma gota de suor escorre na lateral da minha cabeça e eu limpo com uma das mãos. Carla se joga do meu lado, me entregando uma garrafa de água. Ainda estamos ofegantes da última aula. O último aluno deixou o grande salão de vidro há alguns segundos. O dia de hoje foi melhor do que eu esperava. Cheguei meio para baixo por causa da briga com Henri ontem e fiquei pensando se deveria mesmo insistir em trabalhar com Carla. Afinal, isso é o sonho dela, não o meu. Eu só queria voltar a trabalhar como engenheiro e crescer profissionalmente, mas ainda não consegui. Desde o primeiro dia continuo procurando trabalho, mas aqui está quase impossível. Quando tem alguma vaga disponível ela é preenchida rapidinho, a concorrência está gigante. Então, ainda não posso deixar de trabalhar e ganhar o pouco que me pagam. Pelo menos, tenho a oportunidade de me divertir com minha amiga.

– O que está pensando hein, P.O.zinho? – Ela dá uma golada na sua garrafa de água. – Tá dando pra ouvir o tico e teco daqui.

– Só que hoje o dia foi melhor do que imaginava. – Tomo um gole.

– Foi ótimo! – Ela arruma a postura. – Não pensei que fosse dar tanta gente assim depois do natal. – Diz, toda empolgada.

– O povo deve tá querendo emagrecer tudo o que comeu no natal. – Tomo outro gole e tento bloquear o pensamento de que minha mãe não fala comigo há dois dias.

– O que foi? – Ela me cutuca com o ombro. – Ficou sério de repente.

– Minha mãe ainda não me ligou. – Suspiro.

– Poxa, amigo. – Ela faz uma pausa. – Dê um tempo para ela. Ela vai ver que está exagerando.

– Nossa, Carlitcha, ela me manda mensagem de bom dia todos os dias. To sentindo falta.

– Eu sei amigo, mas é difícil mesmo. Já imaginou como foi difícil até para você mesmo se aceitar? Imagina para ela.

– É verdade. É só que... – abaixo a cabeça. – eu queria que ela me apoiasse, que me protegesse desse mundo. Já é tão difícil viver sendo diferente, se escondendo. – Suspiro. – Eu não posso sair pela rua abraçado com meu namorado, ou beijá-lo, ou demonstrar qualquer tipo de afeto que estou exagerando... Ao menos se ela me apoiasse... eu tentaria não ligar tanto para o que as outras pessoas pensam.

– Ai, migo, eu nem sei o que dizer. Eu só queria fazer esse mundo te aceitar na marra! Você e todo mundo! Às vezes fico muito revoltada de como as coisas são.

– Cabe à nossa geração consertar isso...

– É verdade! Vamos trabalhar nisso.

Ela levanta o punho e eu bato, sorrindo.

– O que foi? – Ela pergunta, começando a sorrir.

– Nada. É só que esse era o meu toque e o de Henri quando a gente ainda era parceiros de treino.

– Nossa! É mesmo! Parece que faz uma eternidade desde que você pegou o gato mais cobiçado da academia.

Não consigo segurar uma gargalhada.

– Ei, meus professores de dança favoritos! – Uma voz vem da entrada do salão.

Carla e eu olhamos ao mesmo tempo. É Camila, a recepcionista.

– Oi, Cá! – Carla diz, acenando ao se levantar.

– Oi! – Respondo, também me levantando.

– Ralph pediu para vocês darem uma passadinha na sala dele. Disse que é urgente.

Carla e eu nos olhamos e eu dou de ombros.

– Já estamos à caminho. – Carla diz fazendo um gesto de sentido.

Chegamos na sala de Ralph alguns minutos depois. Ele faz um gesto para que entremos. Está usando uma camisa branca com uma gravata azul, bem formal. Nós entramos e nos sentamos nas duas poltronas que tem em frente à sua mesa.

– Carla, Pedro! – Ele nos cumprimenta.

– Oi! – Dizemos em uníssono. Tanto Carla quanto eu ficamos um pouco nervoso com a incomum formalidade de Ralph.

– Chamei os dois aqui porque acabei de chegar de uma reunião com alguns investidores e tenho uma boa notícia. – Ele sorri. – Acabei de conseguir duzentos mil reais de investimento para alavancar o grupo Sol e Lua!

Carla dá um grito e quase sobe em cima da mesa de Ralph para abraçá-lo.

– Eu não acredito, Ralph. – Ela dá-lhe um beijo. – Você é genial.

Eu aplaudo, sorrindo e me levanto para abraçar Carla quando ela volta do abraço de Ralph.

– Parabéns, amiga! Você merece muito! – Nos abraçamos dando pulinhos.

– Ai, amigo, nem sei o que dizer! – Ela se afasta com os olhos cheios de lágrimas. É surreal!

– Agora sentem-se para eu terminar de falar. – Ralph nos interrompe.

– Com isso, agora o grupo terá um setor de Marketing, também vamos poder alugar um espaço totalmente fora da academia. – Ele vê a nossa reação de tristes. – Ou continuar no segundo andar, por enquanto, vocês que sabem. Eu particularmente, gosto do movimento que dá com vocês aqui. – Ralph se levanta e caminha pela sala. – Também fiz todo um plano de negócios. Se tudo der certo, vamos ter todo o retorno de capital em pouco tempo. – Ele se vira para nós. – Agora só depende de vocês levarem esse povo para dançar.

Nós continuamos ainda perplexos olhando Ralph sorrindo para nós. Carla me abraça mais uma vez e percebo que ela está chorando. Deixo ela me apertar muito e acabo chorando junto. Nem acredito que as coisas estão dando certo para ela. Graças à Ralph! Bendita a hora que dançamos na formatura. Bendita a hora que conhecemos Ralph. Carla se levanta e eu vou atrás, ambos abraçamos Ralph.

– Obrigado, Ralph. – Ela diz. – Não sei o que seria de mim sem você.

– Obrigado também. – Digo. – Eu sei que não tem muito a ver comigo, mas fico muito feliz de que Carla esteja realizando um sonho.

– Ah, que isso meus amigos! – Ralph diz, sorrindo. – Não se esqueçam de que eu sou sócio e que se o grupo ganha, eu também ganho. E logo poderei terminar as academias fora daqui e aumentar ainda mais o grupo Body Move, que já está ganhando visibilidade graças ao grupo S&L.

– Ralph, eu queria te pedir uma coisa. – Ela limpa uma lágrima, se afasta de mim e se volta para ele.

– Diga.

– Eu queria passar uma pedaço da minha parte para o P.O.

Última Chamada (Amor sem limites #3)Onde histórias criam vida. Descubra agora