Depois da loucura que foi a apresentação e de ficarmos horas cumprimentando pessoas, conversando com nossos amigos e curtindo o resto dos shows da parada, estamos sentados debaixo de uma árvore, no final de Copacabana, esperando Carla voltar com o tal drinque que ela foi buscar em um dos ambulantes que ela fez amizade mais cedo. O sol já sumiu e o evento está prestes a terminar. Estou me sentindo tão feliz por ter participado daquilo tudo. Carla estava radiante depois da apresentação e foi impagável. Eu nunca tinha visto nada parecido, ainda mais tão bem organizado assim.
E por falar em organização, Ralph finalmente apareceu atrás do palco para nos cumprimentar e dizer que tudo foi filmado de vários ângulos e que vai dar um material de divulgação incrível. Até aí tudo bem, mas o clima meio que esquentou quando Henri apareceu e nós estávamos nos abraçando. Naquele momento eu tinha insistido para ele não me abraçar porque ele estava suado, mas ele insistiu e saiu me agarrando. Henri ficou com cara de poucos amigos, mas felizmente não falou nada. Depois disso ele não saiu mais do meu lado nem por um segundo, e tudo que Ralph perguntava ele respondia com frases curtas. Reviro os olhos só de lembrar.
– Carla está demorando. – Digo pela terceira vez desde que comecei a contar minhas frases repetidas sobre a demora de Carla.
– Relaxa, David foi atrás dela. – Henri responde, sentado ao meu lado.
Inconscientemente esfrego o meu tornozelo esquerdo. Está um pouco inchado. Eu realmente torci o pé ao correr de volta para o palco. Naquela hora, a adrenalina não me deixou mancar nem sentir nada, mas agora está doendo bastante. Henri até se ofereceu para me carregar no colo na volta pra cá. Confesso que foi tentador o convite de sair por aí no meio de todo mundo sendo carregado nos braços de um gostosão, mas preferi não aceitar.
– E se ele se perder da gente?
– Ele não vai. – Henri aperta meu ombro. – Já estamos bem afastados da multidão... é fácil de achar.
– É... mas em todo caso... – tiro o celular do bolso.
– Olha esse celular no meio da rua hein?! – Ele me repreende.
– Calma, Piloto! – Desbloqueio e procuro meus contatos. – Fica vigiando aí enquanto eu mando a minha localização em tempo real para o David, assim ele vai saber onde estamos.
– Hummmm... manda e guarda isso. Muito perigoso aqui.
– Lembra de quando você me salvou quando me assaltaram voltando para casa? – Digo, guardando o celular.
– Lembro – ele sorri. – Mas que sorriso é esse aí?
– Ai... foi tão romântico. – Fecho os olhos e suspiro. – Foi totalmente irresponsável, mas foi romântico.
– Responsabilidade foi a última coisa que eu pensei.
Esfrego um pouco mais o tornozelo. Quando chegar em casa e depois de tomar um bom banho frio, vou tomar um remédio para dor muscular, senão não vou nem conseguir dormir. Ai... casa... como queria estar em casa agora....Aaaaaah Carla está demorando!Já mandei trocentas mensagens pra ela e nada de responder. Ela deve ser do tipo de Henri que não usa o celular na rua. E você deveria fazer a mesma coisa!– Meu cérebro me alfineta.
– Ainda tá doendo? – Henri aponta pra meu tornozelo.
– Está sim. Acho que está um pouco inchado.
– Mas também... perdi a conta de quantas vezes você pulou, rodou e gritou naquele palco.
– Foi lindo né? – Sorrio.
– Você foi ótimo! – Ele me dá um beijo. – Vocês dois foram perfeitos. Agora... – ele se levanta – vou até aquele ambulante lá – ele aponta para um cara com isopor a uns cem metros – e vou pegar um pouco de gelo para colocar nesse pé torcido.
– Não precisa, Henri. Quando chegar em casa eu coloco.
– Vai colocar agora, para não piorar. – Ele diz, já se afastando.
Suspiro. Às vezes Henri é superprotetor. Mas eu não reclamo, gosto dele assim do jeito que ele é.
Meu celular começa a tocar. Tiro do bolso com um movimento rápido e confiro. É a Carla. Ela deve ter se perdido da gente e provavelmente o David não a encontrou. Atendo e coloco no ouvido.
– Você está demorandoooo! – Faço uma voz de criança pirracenta.
– Escuta com atenção. – A voz grossa do outro lado da linha me faz estremecer. – Eu estou com a sua amiga. Se você contar para alguém ou chamar a polícia eu vou matar ela. Entendeu?
Meu coração quase para no peito ao reconhecer a voz. É o Personal. Não, isso só pode ser uma brincadeira. Um desespero toma conta de mim. Olho para um lado, para o outro, mas não vejo ninguém querendo me pregar uma peça. É ele! Observo Henri de longe quase chegando no ambulante para pegar gelo.
– Entendeu!? – A voz grita do outro lado da linha.
– Sim. – Respondo com a voz embargada. – Por favor...
– Cala a boca! Você vai agora para a rua atrás da estação do metrô. Vai me encontrar sozinho lá. Está entendendo? Se você fizer alguma gracinha a sua amiga morre! Você me ouviu?! – Ele grita de novo.
– Sim. – Respondo.
Me levanto rápido e mancando e saio correndo na medida do possível. Lágrimas de desespero rolam pelo meu rosto e eu começo a soluçar. Meu coração está apertado no peito e sinto dificuldade de respirar. Viro a primeira rua que acho. Sinto uma dor forte no meu tornozelo ao pisar em um buraco raso na calçada.
– Meu Deus! – Choro desesperadamente. – Ele pegou a Carla! Ai meu Deus! Por favor, proteja a Carla.
Respiro fundo. Preciso me afastar rápido. Henri não pode me ver indo para lá. Não quero que ele se machuque. Talvez eu consiga convencer este cara a não fazer nada. Sei lá, tenho uma reserva de dinheiro guardada, posso dar meu celular. Qualquer coisa. Fecho os olhos com força e desejo com todas as minhas forças que tudo seja um sonho.
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Última Chamada (Amor sem limites #3)
Roman d'amourQuando Pedro conheceu o piloto Henri, teve início um caso de amor que mudou a vida dos dois para sempre. Tudo era novidade para ambos, já que nunca haviam se envolvido com pessoas do mesmo sexo. A curiosidade, o desejo e por fim o amor aproximaram o...
