Henri estica uma toalha na grama verde do parque. Na nossa frente há uma grande lagoa de águas verdes e um chafariz no meio. Está quase na hora do pôr-do-sol. A viagem de vinda para São Paulo foi muito tranquila. Viemos de primeira classe. Nunca havia me imaginado viajar de primeira classe em um avião, foi tudo cortesia de Henri, que ao contrário do que eu havia imaginado, não estava pilotando. Assim como eu, estava do meu lado na primeira classe, brincando com a poltrona reclinável super confortável de couro, enquanto eu ficava admirando a vista azul lá fora. Estava tudo tão calmo. O vôo foi rápido e tranquilo. Henri estava numa espécie de bolha de felicidade. Eu ficava conversando com ele e observando como uma coisa tão simples como viajar por o quê? Uma hora? O fazia tão feliz. Ele não se preocupou com os outros passageiros, e me beijou e me abraçou o naturalmente. Eu também não me preocupei. Se as pessoas se incomodassem com uma coisa tão normal, que viajassem no bagageiro.
– Pronto. – Ele diz sorrindo e apontando para a toalha abaixo de nós. – Pode se sentar. Daqui a pouco o sol vai se por.
– O que tem na cesta? – Pergunto, me sentando e apontando para a cesta que ele trouxe? – Comida?
– Trouxe um drinque para tomarmos e alguns petiscos.
–Hummm...que romântico! – Ele se senta bem ao meu lado, passa um braço pela minha cintura e me dá um beijo no rosto.
– Aqui é lindo, né?
– Sim... – observo os dois grossos filetes de água do chafariz no centro do lago espirrando e caindo em seguida, a forma como caem me lembra um coração e quando o sol bate nas gotas de água, forma um pequeno arco-íris.
– Você viu quantas pessoas passeando de bicicleta e com cachorros?
– Eu vi! Dá vontade de parar e apertar todos.
– Você gostaria de ter um cachorro? – Ele pergunta. Ambos estamos olhando para frente. O sol está quase se pondo.
– Muito. – Suspiro. – Nunca tive por dó de deixá-lo sozinho o dia inteiro, já que trabalho.
– Eu também. Vamos adotar um? – Ele se vira e me olha.
– Sério?
– Sim. Por que não? Agora você vai passar mais tempo em casa.
– Nem me lembre... acho que vou surtar.
– Você vai se sair bem. – Ele me puxa e me dá um beijo rápido. – Você vai estudar para se especializar. Vai tomar um pouco do seu tempo, mas vai sobrar para dar atenção ao nosso filho.
– Nosso filho? – Sorrio, ele me olha com bom humor.
– É... nosso filho. Aliás, um dos nossos filhos. – Observo seus olhos brilhando, agora olhando para a paisagem à nossa frente. – Se você quiser ter mais de um.
Volto o meu olhar para frente e fico imaginando coisas.
– Você gostaria de ter filhos? Digo, filhos humanos? – Pergunto.
– Claro. – Ele para e pensa por um minuto. – Mas com você.
– Eu não consigo de dar filhos, Piloto. – Dou uma cutucada de leve nele. Faço isso como brincadeira, mas no fundo me sinto frustrado por não poder realizar o sonho de Henri de ter um filho de verdade.
– Não tem problema, a gente adota um. – Ele diz com a maior naturalidade do mundo.
O sol está perto de se por. Nós ficamos calados por alguns minutos, as pessoas em volta com seus parceiros e parceiras, filhos, filhas e amigos parecem fazer o mesmo. Estão todos esperando o momento que o sol se põe atrás das árvores e prédios ao fundo. Uma mistura de cores maravilhosa. O azul de um raro céu limpo em São Paulo, nada de nuvens, nada de garoa, apenas o céu azul do verão paulista e o alaranjado do sol se misturando com o verde das árvores e da água do lago. E bem no meio, duas rajadas de água caindo com um arco-íris em toda a sua extensão. Não consigo segurar um suspiro. É um momento mágico, um privilégio, e eu não me canso de assistir à esse espetáculo da natureza.
– Pedro... – sua voz me desperta.
Eu o olho enquanto ele se afasta e se levanta, me dando uma mão para me levantar. Eu a seguro e ele me puxa para cima. Os raios de sol ainda estão quentes, batendo na minha pele. Fecho um pouco os olhos pela claridade. Henri me abraça forte no seu peito. Respiro fundo e sinto o seu perfume cítrico que eu adoro. Seu calor se junta ao calor do sol, como se um fizesse parte do outro. Talvez Henri tenha um pedaço do sol em si. Me permito ser abraçado e deixo toda a sensação invadir o meu corpo. É um momento de tanta paz e tudo o que eu consigo pensar é em quanto eu amo esse homem.
– Eu só queria te dizer que eu te amo. – Ele sussurra no meu ouvido e todos os pelos do meu corpo se arrepiam. Acho que nunca vou me acostumar a isso.
Fico quieto de olhos fechados, sentindo toda a carga elétrica entre nós percorrer o meu corpo. E de repente só estamos ele e eu sozinhos neste mundo inteiro. O sol se pondo do nosso lado, o calor dos raios no meu cabelo e na minha pele. Escuto os pássaros nas árvores, prontos para dormirem, a água caindo no centro do lago e as batidas aceleradas do coração de Henri.
– Mais uma coisa...
Ele se solta do meu abraço de leve e eu abro os olhos devagar, tentando me acostumar com os últimos raios de sol. Assim que a minha visão se foca, eu o olho nos olhos, ele dá um sorriso tímido e tudo acontece em câmera lenta. Henri se abaixa devagar. No começo não consigo entender o que está acontecendo, mas um torpor toma conta de mim quando percebo do que se trata. Meus olhos se enchem de lágrimas e meu coração se acelera. Coloco a mão na boca instintivamente enquanto seus joelhos se dobram e ele abre uma caixinha com um brilho dourado no centro.
– Pedro Otávio, eu sou muito grato por ter te conhecido. Minha vida mudou muito e para melhor. Por causa de você eu sou uma outra pessoa. Eu mudei muito os meus conceitos, a minha ideologia, as minhas opiniões... por causa de você eu pude sentir como é amar e ser amado. Foi por você que meu coração bateu mais forte, e é por você, Pedro, que ele sempre vai bater. Eu quero muito passar o resto da minha vida ao seu lado. Você quer se casar comigo?
Lágrimas começam a descer do meu rosto. Lágrimas de emoção, de alegria, de surpresa. Nem no mais remoto momento da minha vida eu pensei que esse dia chegaria. Nunca imaginei que um outro cara iria me pedir em casamento, ainda mais assim, desse jeito. Meu coração dá pulos no peito e meus pelos estão arrepiados. Demoro um momento a me lembrar de como se faz para falar, respiro fundo e deixo que o meu coração responda por mim:
– Sim, Henri. – Sorrio. – Eu quero muito me casar com você.
Ele estica o braço e eu dou-lhe a minha mão. Ele a segura com firmeza, como se eu fosse mudar de ideia, ou talvez seja porque estou tremendo muito. Sinto o toque frio da aliança enquanto ele a desliza pelo meu dedo anelar. Coube perfeitamente. Depois ele me passa uma outra, e com dificuldade eu a deslizo pelo seu dedo. Ele fecha a caixa, se levanta e me beija.
E só agora eu consigo perceber o mundo à nossa volta. As pessoas aplaudindo por todo o canto em volta do lago. Ele me abraça e por detrás eu vejo as pessoas nos observando, batendo palmas e gritando. É tudo muito surreal.
– Eu te amo. – Ele sussurra no meu ouvido.
– Também te amo, Henri. – Não consigo conter as minhas lágrimas, nem o meu sorriso.
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Última Chamada (Amor sem limites #3)
RomanceQuando Pedro conheceu o piloto Henri, teve início um caso de amor que mudou a vida dos dois para sempre. Tudo era novidade para ambos, já que nunca haviam se envolvido com pessoas do mesmo sexo. A curiosidade, o desejo e por fim o amor aproximaram o...
