Capítulo quarenta e oito

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Eu nunca estive em uma parada gay antes. Nem mesmo me lembro de ter procurado saber como era antes de conhecer Henri. Depois que conversei um pouco com o organizador aquele dia na festa fiquei mais interessado, ainda mais porque agora isso diz respeito a mim. Queria poder ter tido a consciência de como esse tipo de movimento é importante para pessoas que não tem o apoio de suas famílias e da sociedade em geral. Sou muito grato por ter a minha família e meus amigos ao meu lado, mesmo sendo do jeito que eu sou.

Não consigo evitar de sorrir. Pela primeira vez estou andando de mãos dadas com meu namorado bonitão no meio da rua e não estou nem um pouco preocupado. Andamos em uma das avenidas fechadas em Copacabana. Está lotado, há pessoas de todos os lugares, devem haver milhares aqui hoje. Vejo muita gente vestida com roupas coloridas e fantasiadas de personagens. Muitas dragscom roupas espalhafatosas e brilhantes em plena luz do dia, balançando seus longos cabelos e fazendo poses para fotos, segurando grandes leques abertos. É muito bonito de se ver.

Henri caminha ao meu lado, conversando com David e Carla. Não sei como ela conseguiu arrastar David da residência, mas aqui está ele. Olho para o lado e os três estão em uma discussão sobre política. Continuo observando tudo ao meu redor. Muitas pessoas passam e nos olham. No geral, eles olham para Henri, que é o maior do grupo, é forte, musculoso, tatuado e bonitão. Mas não tenho ciúmes, afinal de contas eu sou o noivo aqui. Sinto uma pontada de orgulho. Como eu consegui conquistar este homem? Até hoje não sei. E quanto mais tempo eu passo ao seu lado, mais quero passar. Henri tem mudado muito e sempre para melhor. Espero que ele pense o mesmo de mim.

Há dois trios elétricos rodando na Orla, tocando música brasileira, pop internacional, eletrônica, de tudo um pouco. Ficamos um pouco atrás do último trio, pois está mais vazio e menos barulho, assim podemos conversar um pouco mais. David contou como está sendo sua residência e aparentemente as coisas estão ficando melhores e mais fáceis para ele. Carla também não consegue esconder o sorriso do rosto e não larga da mão de David um só minuto. Sinto muito orgulho dos meus dois melhores amigos terem se apaixonado. Você é um cupido maravilhoso, Pedro.

– Amor, quer mais uma cerveja? – Henri aperta minha mão para chamar minha atenção dispersa.

– Não, vou ficar na água agora. – Respondo. Já estou meio alto. Foi ideia da Carla bebermos um pouco antes da apresentação para nos soltar mais. E realmente, estou bem soltinho, bem relaxado, já não estão tão nervoso como antes.

– Ainda tá nervoso? – Ele pergunta.

Balanço a cabeça.

– Bem mais tranquilo. – Sorrio.

Quando chegamos em Copacabana eu fiquei aterrorizado vendo a quantidade de gente. Depois que o medo passou, fiquei apreensivo. Não sabia que alguma dessas pessoas participariam da nossa dança. E se eles odiassem a gente? Carla deu um jeito de desconversar e nós começamos a beber cerveja. Agora, duas horas desde que chegamos, já estou bem mais relaxado e aproveitando mais o evento.

Paramos perto de alguns ambulantes vendendo cerveja e outras bebidas. Henri e David continuam conversando enquanto Carla se junta a mim.

– Nem acredito que o David veio. – Ela diz sorrindo. – Vi um monte de gatinho olhando pra ele.

– Até parece. Ele só tem olhos para você.

– Ai, P.O.zinho, eu to achando isso tão lindo! Nós quatro aqui, caminhando sem preocupações, ouvindo esse axézão tocando no trio, nos preparando para fazer a apresentação das nossas vidas. – Ela aponta para o palco gigantesco montado na praia. – Olha que coisa maravilhosa! Que lugar maravilhoso!

Observo o lugar para onde estamos indo. Está quase na hora. Sinto um frio na barriga. O palco é bem grande e apesar de não sermos a principal atração do evento, vamos estar lá em alguns instantes. Em volta há grandes balões com a marca do grupo Sol e Lua. Eu nunca perguntei de onde saiu o nome do grupo, gosto de ficar imaginando que Sol e Lua representa Carla e eu. Não quero saber o real significado, só o meu próprio. Ela parece ler os meus pensamentos, se aproxima e passa um braço em volta do meu ombro enquanto ambos observamos o palco na praia.

– O que eu não faço por você né?– Digo em tom de brincadeira.

– Você é um amigo de ouro, P.O.zinho. Sou muito grata ao universo por ter me dado você. Tenho muito orgulho de poder dizer que você também é a minha família.

Olho para o lado e ela continua olhando o lugar para onde estamos indo. Me sinto um pouco emocionado pelas palavras de Carla. Sempre conversamos muitas coisas banais, e eu amo isso. Mas o que me conquistou foram as nossas conversas sérias.

– Também te amo, Carlitcha. – Respondo por fim. E abrimos um sorriso ao mesmo tempo.

– Olha esses dois, Henri. – David para na nossa frente e nos olha. – Que lindinhos.

– A gente deixa eles sozinhos por um minuto e um monte de gente passa olhando. – Henri faz cara de bravo. – Reparou isso?

– Eu percebi isso também. – David e Henri brindam. – Pena que eles já tem donos.

– Pena mesmo! – Eles riem. Carla e eu nos soltamos e nos viramos.

– Seus bobos. – Ela diz. – A gente só estava aqui refletindo. Sabe com é... reflexão pré-show.

Henri me entrega uma garrafa de água. Eu abro e bebo um longo gole. Está tão refrescante. Henri passa seus braços em volta de mim e me puxa para ele. Em uma situação normal, eu estaria apavorado por estar fazendo isso em público, mas hoje, neste lugar, me sinto protegido por pessoas iguais a mim. Ele se abaixa e me beija com carinho. Me permito ser levado pela sensação do beijo mais gostoso que eu já dei na vida, em público. Nossas bocas se encaixam. O calor de Henri esquenta o meu corpo. Seu hálito fresco invade a minha boca. Começo a sentir um tesão incontrolável e uma vontade de tirar sua roupa, mas felizmente sou interrompido por alguém pigarreando ao nosso lado.

– Eu sei que o beijo está bom. – Olho para o lado e Carla está se abanando, com a boca vermelha. Aparentemente David a estava beijando também. – Mas é hora do show.

Última Chamada (Amor sem limites #3)Onde histórias criam vida. Descubra agora