08 - COMPANHIA EM MEIO AO TÉDIO

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POV: (S/N)


Notei a escultura de cavalo que coroava os estábulos com alívio.

O Black, minha montaria, trotava debilmente depois de ter passado o dia inteiro me carregando em suas costas por trechos infinitos de terra.

Até alcançarmos o Outskirt Stable, tarde da noite, já tínhamos nos metido em diversas enrascadas.

Quando chegamos ao final do cânion, demos de cara com bokoblins montados em cavalos. A visão me pareceu tão bizarra que puxei as rédeas do Black antes que meu cérebro pudesse absorver aquela informação. O que resultou em uma queda dolorosa assim que ele empinou, rejeitando meu comando abrupto.

Praguejei e corri para o local onde ele havia fugido, mas o caminho foi bloqueado pelas criaturas que giravam suas lanças e arremessavam flechas na minha direção.

Retirei o arco das costas, posicionando duas flechas e retesando a corda ao máximo, acertando a testa dos dois bokoblins, que sumiram instantaneamente em fumaça roxa.

— Não estou com tempo sobrando, sabiam? — Resmunguei para o vazio e montei novamente.

Atravessamos lentamente uma ponte suspensa de madeira com parapeito em corda. Meus ouvidos captaram um ronco ruidoso, e meus olhos se esbugalharam ao encontrar o monstro que o emitia. Seu corpo azul colossal mexia ritmicamente em um sono tranquilo, ao passo que a mão que bloqueava o nosso caminho no trecho circular de terra, se erguia para coçar o peito.

Acariciei o pescoço do Black, para que ele prosseguisse devagar. Não percebi que tinha prendido a respiração até que meus pulmões imploraram por ar, engasguei-me e tossi por um bom tempo depois de atravessar a Ponte Suspensa de Digdogg e parar em uma bifurcação para consultar nossa rota. Puxei as rédeas para a esquerda e continuamos a jornada até o estábulo mais próximo.

Tentei conversar com as pessoas que trabalhavam ali, para passar o tempo enquanto esperava meu jantar cozinhar no caldeirão. Mas a educação passou longe da mulher que me mandou parar de perder tempo falando com estranhos e focar na minha missão.

— Grossa. — Murmurei. Retirando uma concha cheia de sopa de legumes e a depositando violentamente na tigela feita com casca de coco.

Comi em silêncio ao observar os viajantes que cruzavam a estrada a minha frente. 

Não estava acostumada a monotonia daquela jornada. Depois de vinte e três anos convivendo com mulheres escandalosas, e sendo uma eu mesma, o silêncio feria meus ouvidos.

— Se importaria se eu praticasse aqui, jovem? — Uma voz melodiosa e grave me tirou de meus pensamentos. Um Rito já se sentava no banco do outro lado do caldeirão. Ele trazia um acordeão nas mãos e trajava uma armadura de couro que ficava uma graça em contraste com suas penas azuis.

— Não. Fique à vontade. — Girei no banco para observá-lo. Sua canção pintava imagens nítidas em minha mente cansada.

A princesa, incapaz de satisfazer as expectativas de seu reino, apesar dos exaustivos treinamentos. E o herói, escolhido pela espada, que quase morreu para protegê-la. Mas que surpresa, o amor reprimido em seu coração foi o que desencadeou seu potencial divino. Forçando a Calamidade a recuar para o castelo. O herói, agora recuperado, teria de cumprir seu destino. E ao lado da princesa, colocaria um fim às desventuras que assolavam nosso reino.

Pisquei rapidamente reconhecendo a história.

— Com licença. Essa música, narra as aventuras da princesa de Hyrule e do herói caído?

— Exatamente. — O bardo sorriu ao tamborilar os dedos pelo instrumento. — Completei os desejos de meu antigo professor, ao transmitir suas canções para quem se dispusesse a ouvir, na tentativa de que suas lições chegassem aos ouvidos do herói, quando esse retornasse de seu descanso.

— Você o conheceu? — Perguntei, me curvando ainda mais para frente.

— Sim. — Ele transferiu seu olhar para o céu estrelado. — Uma alma bondosa e atormentada. Quanto peso precisou carregar para completar sua própria profecia.

— Que triste... No final ele não pôde receber o amor da princesa.

— Como assim? — Ele achou meu comentário engraçado.

— Bom... Ele é velho, e a princesa não envelheceu graças à sua magia. Eu a conheci.

Sua risada ecoou pelo estábulo e ele apenas concordou com a cabeça. 

Mas não entendi qual informação ele estava confirmando. Se o fato de o herói ser um idoso ou de não ter correspondido ao amor da princesa.

Filha do Sol e do Mar__FANFIC: Link x Leitora (BOTW)Onde histórias criam vida. Descubra agora