POV: ZELDA
Eu nunca admitiria em voz alta, mas a escuridão me paralisava.
Cem anos sendo embalada por uma malícia sufocante, em todos os horários do dia, deixariam qualquer um traumatizado.
Mas eu não poderia me dar ao luxo de desistir.
O que me mantinha firme em meu propósito era a certeza de que o Link retornaria. De que juntos derrotaríamos o mal de uma vez por todas. E assim, retornaríamos triunfantes.
Contudo, cem anos era tempo demais.
Tempo demais para esperar por alguém.
Tempo demais para amar alguém.
Tempo demais para manter uma esperança inabalável.
Meu subconsciente, acostumado à desolação e luta diária, reconheceu o surgimento de sua luz, despertando uma vez mais no Reino de Hyrule, antes mesmo que meu corpo pudesse perceber, ou se importar.
E minha alma, ansiosa por salvação, deu ordens que eu não esperava que fossem cumpridas, principalmente por um herói que não recordava quem realmente era.
Eu estava cansada.
Exausta, nos melhores dias.
Fatigada de tentar agir normalmente, como se uma geração não tivesse se perdido enquanto eu estava presa no Castelo e o Link, quase morto, no Templo da Ressurreição.
Triste por querer conversar com meus amigos e pai, e saber que eles não pertenciam mais a esse mundo.
Cansada de olhar para o Link, que antes representava a minha incompetência como princesa com sangue divino, depois significava um amor que eu não esperava sentir, e agora, um completo desconhecido, que sorria e conversava abertamente com as guerreiras que o protegiam com o mesmo zelo com o qual, um dia, ele me protegeu.
Eu só queria dormir, e esquecer de tudo.
Assim como ele havia esquecido.
— Você me decepciona, princesa.
Tremi quando uma voz gutural penetrou minha mente.
— Quem...? — Sussurrei para o vazio, não ousando me mover quando não tinha conhecimento do que estava a minha frente.
— Temos um conhecido em comum, e agradeceria se Vossa Realeza pudesse me guiar até meu mestre.
A cada palavra, o meu corpo tremia convulsivamente, entendendo quem a voz misteriosa clamava por encontrar, mas relutante em aceitar que Ganon, realmente, ainda fosse uma ameaça.
— As novidades não se espalham tão rapidamente no buraco em que você esteve enfiado. — Falei com selvageria e coragem infundada. — Seu mestre não existe mais. — A risada masculina ecoou pelo ambiente, me fazendo gaguejar. — Ele... Ele morreu nas minhas mãos e nas do herói escolhido pela espada.
— BESTEIRA! — A voz esbravejou. — Meu Mestre é parte desse mundo, seu poder pulsa por essas terras, suas vontades são carregadas pelos ventos, que fazem até a mais resistente das árvores se curvar ao seu comando.
— Isso é que é besteira. — Retruquei, decidindo que uma voz não seria capaz de me machucar, não o suficiente para que eu fosse incapaz de me defender.
— Enquanto esse mundo existir, Ele também existirá. — A voz ignorou minha interrupção. — Enquanto vocês existirem — senti uma sensação asquerosamente gelada deslizar pelo meu queixo, erguendo meu rosto, ao ponto de minha nuca protestar de dor. — Ele existirá.
Sacudi o rosto, desfazendo seu toque, e senti algo fino rasgar minha bochecha e o calor do sangue escorrer dali.
— Zelda, escolhida erroneamente por Hylia, para representá-la em solo mortal. E Link, um garoto excepcional para a idade, que devido ao seu valor, foi reconhecido pela Master Sword. — Ele parou brevemente, o som pesado de sua respiração me dando vontade de inabilitar as vias que possibilitavam que tal ruído asqueroso existisse. — Agora me diga princesa, quem realmente é digno da totalidade do crédito pelos feitos que você alega ter realizado?
Seu falatório me deixava enojada e possessa frente a sua tentativa de me fazer sentir inferior ao Link, por ter dominado o poder, que eu nasci para manejar, com atraso.
Respirei fundo, o ar estava úmido e com um leve toque de mofo, goteiras soavam não muito longe, em um pingar constante sob o chão gelado. Busquei aguçar meus sentidos e percebi que estava realmente sozinha.
Ergui a mão direita para o vazio, o brilho dourado que emanou dela seria o suficiente para cegar, mas não a sua portadora.
— Ainda estou nas ruínas sobre o Castelo. — Murmurei.
Vasculhei as paredes escavadas grosseiramente e encontrei os mesmos desenhos que tinha acompanhado minha comitiva até a sala circular, onde o cadáver de olhos alaranjados tinha se libertado das amarras que o prendia.
— Já terminou de vagar por aí? — A presença invisível inquiriu, mas notei que a arrogância de sua voz havia diminuído consideravelmente.
— Ainda não. — Falei, descontraída. — Existem tantos segredos aqui embaixo esperando para serem descobertos por mim. Não posso simplesmente ignorá-los.
— Sendo assim, torço para que encontre o que procura.
— Ah, jura?
— Vossa Majestade já provou ser incapaz de mudar o destino. — Ele riu. — Então permitirei que seja a responsável pela ruína, uma vez mais, de seu Reino.
Meu coração batia descompassadamente, e o ruído era tão alto que bloqueava o ritmo nauseante da água perfurando, mansa e certamente, a pedra escorregadia em que eu pisava.
— Mas tenha a certeza, princesa. — Ele saboreou o silêncio entre sua sentença. — Não restará uma alma capaz de salvá-los dessa vez.
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Quando joguei BOTW pela primeira vez, fiquei extremamente confusa do porque o Link precisar lutar contra inimigos que ele não recordava, ser um herói apenas porque uma voz sinistra dizia que ele deveria ser.
E a medida que fui ajudando ele a recuperar suas lembranças, esse sentimento foi piorando, pois o ponto de vista das lembranças era da Zelda ou dos heróis, e não do dele. Então ele apenas conhecia a si mesmo pelo ponto de vista de outras pessoas, através da percepção que os outros possuíam dele.
E é por isso que eu implorava que o jogo tivesse uma missão em que nos deparássemos com o diário do Link, mas isso não aconteceu. Alguns dizem que o diário é o próprio Sheikah Slate, por conta do modo como a descrição das missões era transcrita no texto original em japonês. Mas aquilo ali não era o suficiente. Eu preciso saber como ele estava se sentindo a cem anos atrás, antes da calamidade!
Eu tinha vontade de chorar e abraçar o Link a todo momento em que alguma lembrança o invadia, e recentemente derrotei o Ganon, e aquela cena com a Zelda... Em que ela pergunta se ele, realmente, lembrava dela...
Like, Bitch! 12 memórias pelo seu ponto de vista não são nem de perto o suficiente!
E o modo como a Zelda surge, toda serena, depois de ficar naquele casulo nojento do Ganon por 100 anos, é surreal. Essa mulher é muito forte mentalmente. Eu não conseguiria.
Mas, enfim... Vejo você depois. Tchau tchau! 😘😘
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Filha do Sol e do Mar__FANFIC: Link x Leitora (BOTW)
FanfictionO herói, agora aliviado do peso da profecia e da morte das pessoas que amou, enfrenta um novo dilema. A paixão pela guerreira de cabelos perolados pode bagunçar a paz que ele já experimentava nos últimos meses vivendo ao seu lado. Ela estava com o c...
