47 - CONSELHOS E INSTINTO

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POV: Princesa Zelda


Ao caminhar até minha tenda particular, busquei abafar todos os discursos em minha mente, os divinos e os decorrentes da ansiedade do iminente combate. Com a respiração que saía em descompassadas baforadas, sendo aos poucos substituídas por lentas e vertiginosas inspirações e expirações. Minha cabeça girava e as vozes que me chamavam pioravam o zunido em meus ouvidos.

Trombei em algo, mas não alcancei o chão, ao contrário, uma sensação reconfortante se infiltrou no meu corpo do que eu percebia ser a pata de Eros abaixo de mim. O contato com sua pele acalmava meu coração e respiração, além de calar todo o caos que me cegava.

— Sendo cruel consigo mesma? — Eros perguntou, me erguendo do chão. — Como de costume? — Ele acrescentou quando neguei com a cabeça.

Lágrimas que nunca me permiti chorar rolaram convulsivamente, e soluços desoladores abriram espaço pelo nó em minha garganta.

— Posso sugerir um passeio? — Ele sussurrou calmamente. E com a minha confirmação, Eros abaixou a cabeça e me auxiliou até o seu pescoço.

O tempo avançava mais rapidamente do que meu coração gostaria. Tons de roxo e rosa se mesclavam ao dourado do sol, que se despedia.

— Você ainda não aprendeu a ouvir, pequena princesa. — Eros falou em minha mente. E tive a sensação de que ele lia minhas lembranças. — Sim, sim. Muitas vozes estão se sobressaltando.

— Queria que tudo acabasse. Não vou aguentar muito mais. — Choraminguei. Era estranho o efeito que aquele rei dragão tinha sobre mim. Me forçando a colocar em palavras todos os meus temores, que eu teria reprimido, se estivesse na presença de outras pessoas.

— Compreendo. — E ele realmente compreendia.

Continuou em seu voo lento e firme, o vento afrouxou as tranças que havia feito em meu cabelo. E me trouxe uma paz que me pegou de surpresa.

Meu reino era lindo, mesmo em fase de recuperação, mesmo a beira de mais um ataque, era lindo.

— Concordo. — Eros comentou, e virou o pescoço, indicando que eu olhasse na direção que ele queria. — Seu povo era muito sábio, a magia corria por suas veias, a inteligência subjugava os problemas, e a fé os movia.

— As vezes na direção errada. — Ofereci, em tom de desculpa. — Sinto muito pelo que aconteceu com seu povo.

— Foi a muito tempo. — Ele pousou no campo aberto que exibia abundância das minhas flores preferidas, e que meus súditos haviam atribuído sua beleza a filha dele, Kayra, uma verdadeira flor selvagem. — E nem só de infortúnios e tristeza o passado se mostra. Naquela noite conheci a alma que estaria ao meu lado pela eternidade de nossos dias, e em seguida tive o prazer de ser pai.

O orgulho e felicidade eram palpáveis nas lembranças que ele compartilhava comigo mentalmente. Ver a pequena e selvagem Kayra, que ainda não havia conseguido controlar sua mutação, exibir uma estrutura hylian com escamas zoras salpicando seu corpinho com o bronzeado das gerudos, uma única asa de dragão e braços de goron, era assustador.

— Ela se empolgava e não conseguia decidir quem queria ser. — Eros gargalhou. — E me satisfaz que você também tenha tido uma infância feliz.

Vi os cabelos dourados de minha mãe, e seus brilhantes olhos enquanto sorria e me segurava firme em seus braços, com meu pai atrás dela, fazendo caretas na esperança de arrancar risadas de mim.

— Sinto falta deles.

— Eu sei, criança. Mas eles ainda estão aqui, a vigiando em sua jornada, sofrendo com sua tristeza e comemorando os seus sucessos.

Filha do Sol e do Mar__FANFIC: Link x Leitora (BOTW)Onde histórias criam vida. Descubra agora