Aquela menina finalmente adormeceu e eu sorri com aquela sua imagem de anjo.
Aconcheguei mais o lençol ao seu corpo e ouvi-a chamar pelo pai enquanto dormia.
Fiquei ali ao seu lado enquanto lia a sua ficha e a ficha do seu pai. Eles tinham dado entrada no hospital à cerca de três horas atrás, os dois estavam feridos, mas o estado do pai dela estava mais grave.
Ainda não tinha visto o seu pai pessoalmente, mas iria fazer assim que Leonor acordasse para ver o seu estado. Não sei porquê, mas o que lhes acontecera só me motivou a voltar a trabalhar.
Daqui a uma semana faziam seis meses que Alex morrera naquela guerra. Seis meses de puro sofrimento e seis meses que me fechara em casa.
Haviam dias que eu não comia ou dormia em condições e eu já começava a ficar fraca, mas o meu filho Gustavo sempre esteve lá ao meu lado para me ajudar e apoiar.
Gustavo sempre foi um menino determinado, forte e muito teimoso e não costumava mostrar muito os seus sentimentos, mas eu sabia que o pai estava sempre no seu pensamento. Gustavo era demasiado orgulhoso para dizer o que lhe ía no coração e por isso não dava o braço a torcer só para não perceberem que sofria em silêncio.
Gustavo sempre demonstrou a sua postura confiante e altiva, mas eu conheço demasiado bem o meu filho para saber que ele é um poço de sentimentos não mostrados ao mundo.
Terminei de ler a prancheta de pai e filha e levantei-me para a pousar em cima da mesa quando me lembrei de ligar para a recepção do hospital para pedir que fossem buscar as coisas que Leonor e Davi, o seu pai, deixaram para trás no ataque.
Desliguei a chamada e aproximei-me mais uma vez da cama onde Leonor se encontrava quando pisei em algo. Quando olhei para baixo logo tirei o meu pé de cima de uma das facas.
Aquelas facas eram de prata e eu soube disso mal coloquei os meus olhos nelas.
A prata podia ser fatal para nós lobos, poderíamos morrer caso grandes quantidades de prata entrassem em contacto connosco.
Nós lobos sempre vivemos perto dos humanos, mas nunca mostrávamos a nossa verdadeira natureza para não desencadear grandes conflitos, mas desde que os lobos exilados decidiram invadir a nossa alcateia que somos perseguidos pelos humanos. Estes últimos anos têm sido muito arriscados tanto para nós lobos como para os próprios humanos.
Suspirei.
Afastei-me e abri uma gaveta onde continha algumas sacas de plástico e apanhei as facas com a própria saca sem tocar nelas. Dei um nó na saca e pousei na mesa do quarto.
Bateram à porta e eu logo me apressei a abrir e vi um dos seguranças do meu filho com algumas malas ao seu lado.
-Bom dia dona Constança-ele fez uma pequena e breve reverência-aqui está o que pediu.
-Muito obrigada-agradeci.
Peguei nas duas malas e levei para dentro do quarto e quando estava a pousá-las senti um pequeno movimento e logo olhei na direção de Leonor.
Sorri ao ver que ela tinha acordado, mas logo ela fez cara feia e eu sabia o porquê.
-Dói muito?-perguntei.
-Sim-assentiu.
-Olha pedi que fossem buscar algumas coisas para vocês se vestirem quando saíssem do hospital e bem, aqui estão-falei fazendo Leonor olhar para o sítio das malas-vou deixar-te vestir à vontade enquanto eu vou buscar um medicamento para aliviar as tuas dores, sim?
-Obrigada-ela agradeceu.
Eu saí do seu quarto e logo me dirigi à sala que continha alguns analgésicos e peguei no que iria dar para Leonor quando me senti um pouco zonza.
-Nossa...-coloquei a mão na cabeça fazendo cara feia-porque eu não comi hoje?
Respirei fundo e saí dali em direção ao bar do hospital para trazer alguma coisa para Leonor comer e depois voltei para o quarto onde ela já se encontrava vestida e sentada na cama.
-Voltei-falei entrando no quarto-já estás pronta?
-Sim-ela assentiu olhando para mim-estiveste mesmo comigo este tempo todo?
-Claro-assenti-eu prometi não prometi?
-Sim...-assentiu-mas eu pensei que tivesses de cuidar de mais pessoas para além de mim.
-Hoje não-falei.
-Entendi.
-Toma-estendi a comida e os analgésicos-tens de comer alguma coisa antes de tomares algum medicamento.
-Obrigada.
Leonor estava a comer enquanto eu organizava umas papeladas ao seu lado quando aquela dor de cabeça voltou.
Fiz cara feia.
-Toma-olhei para Leonor quando ela me estendeu alguma comida na minha direção.
-Isso é para ti-falei-precisas de te alimentar.
-Pelo que eu percebi não sou a única que ainda não comeu hoje-ela olhou nos meus olhos.
-Como...?
-Estás com uma cara pálida e de certeza que essa cara feia que fizeste é de uma enorme dor de cabeça, estou errada?-ela falou enquanto mordia uma maçã.
Eu estiquei a minha mão e aceitei comendo também.
-Desde quando lês as pessoas?-ri olhando para ela.
-Desde o dia em que deixei de confiar nas pessoas à minha volta-ela falou tão seca que me chegou a incomodar um pouco.
-Compreendo-suspirei terminando de comer-achas que já estás mais capacitada para caminhar?
-Não sei-encolheu os ombros.
Ajudei-a a colocar-se em pé e ambas sorrimos.
-Achas que já estás pronta para ver o teu pai?-perguntei vendo um enorme sorriso aparecer no seu rosto.
-Claro que sim-ela quase pulou de felicidade se não fosse pela sua perna magoada.
Ajudei Leonor a ir até ao quarto do pai e assim que abri a porta ela foi em passos largos até onde o seu pai se encontrava.
-Pai-Leonor atirou-se para os braços do pai mesmo ele estando magoado.
Eu sorri.
Fechei a porta atrás de mim e quando olhei em frente engoli em seco.
Meu Deus.
Na cama de hospital estava um homem moreno, de cabelos castanhos claros e uns olhos azuis que prendem qualquer um.
Baixei os meus olhos até ao seu peito nu por causa da ligadura do seu ombro e sustive a respiração.
Respirei fundo.
Que homem lindo era aquele?
Eu acho que estive demasiado tempo sem me alimentar e agora estou a alucinar.
-Papá esta é a médica que cuidou de mim...-Leonor falou e eu aproximei-me deles em pequenos passos até parar ao lado de Leonor-Constança.
-Constança este é o meu pai, Davi-Leonor falou feliz por ver o pai bem.
Senti os seus olhos sobre mim durante algum tempo o que me fez corar um pouco.
-É um prazer conhecê-la-Davi falou esticando a sua mão na minha direção.
-O prazer é todo meu-falei tocando a sua mão.
As nossas mãos juntas fez-me sentir uma coisa estranha. Não sabia bem o que era, mas era boa.
Olhamos nos olhos um do outro durante mais alguns segundos até Leonor começar a falar sobre como eu a ajudei.
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Our Love
FantasiDois jovens completamente diferentes, mas com uma única coisa em comum: a dor e o sofrimento de terem perdido pessoas importantes das suas vidas. Leonor era uma menina de apenas 17 anos que lutava contra a dor da morte da sua mãe durante seis longos...
