Prólogo | 1.

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Prólogo

Nunca odiei tanto alguém quanto odiava Sebastian. Então a gente ultrapassou a barreira que dividia a verdade da nossa gigantesca mentira e todo aquele ódio perdeu o sentido, porque não conseguia pensar em mais nada. A não ser nele. E em como alguém como ele conseguia reivindicar com facilidade qualquer coisa, inclusive a mim.

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1.

3 anos, 286 dias, 22 horas e 55 minutos. Esse é o tempo exato que ainda tenho que aturar Sebastian Carter. E recentemente cheguei à conclusão que, ironicamente, é o mesmo tempo que me resta para perder a cabeça.

— Ai! — o grito totalmente forçado da garota, que está deitada na cama de Sebastian me faz revirar os olhos atrás do livro.

Desde que as aulas começaram e tive o azar de cair no mesmo quarto que um egocêntrico, com atitudes idiotas, um pouco de infantilidade e sem capacidade lógica; nunca mais soube o que é um simples minuto de silêncio, porque toda hora ele está fazendo algo. Todo maldito minuto tem alguém aqui, no nosso quarto.

— Não se mexa, docinho — sua voz como das outras vezes soa extremamente concentrada, como se ele tivesse mesmo a capacidade de focar em algo e por algum motivo a garota ri.

— É difícil com você me provocando.

— Só estou fazendo o meu trabalho docinho, não estou provocando ninguém... Mas se você quiser posso provocar.

Outra risada vindo da garota e logo em seguida um barulho que só consigo ligá-lo a...um miado? Céus. Limpo minha garganta e tento me concentrar no parágrafo qual já li 3 vezes e mesmo assim não consigo absorver nada do que está escrito ali. Como esperava; os dois fingem não terem me escutado e continuam rindo e conversando, enquanto o barulhinho irritante da máquina continua a todo vapor. Assim que cheguei em Uepplen, não esperava ter como colega de quarto; justo alguém que é altamente convivente, ao ponto de todo mundo beijar seus pés e mesmo assim conseguir ser perfeitamente irritante. E não estou falando isso só porque Sebastian atende seus "clientes" no mesmo quarto que dividimos, porque ele por um todo é extremamente irritante. O fato dos seus desenhos serem tão surreais, quanto seu sorriso não ajuda em nada a minha missão de afastar sua clientela. Afinal, a maioria das vezes que alguém que não conheço puxa assunto comigo é por saber que sou a colega de quarto "incrível" de Sebastian Carter e eles acham mesmo que puxar o meu saco vai fazer com que consigam descontos ou algo do tipo. Se ao menos mais pessoas soubessem que só não caímos no soco ainda por conta das diretrizes da política de bom comportamento da universidade; metade da minha dor de cabeça passaria. A outra metade continuaria intacta, andando de mãos dadas com Sebastian e sua maquininha barulhenta. Outra risada, dessa vez conseguindo soar ainda mais forçada e alta que as anteriores deixa da garota e me faz bufar, fechando o livro sem delicadeza alguma, apenas e somente para me inclinar na cama velha que range, pegando meus fones de ouvido. Sequer me dou o trabalho de olhar na direção deles, coloco os fones e aciono a música, mas não antes de escutá-lo pronunciando um; "Não ligue para ela", como se eu fosse a errada nessa história e não ele. Uma vontade louca e enorme de esfregar esse simples detalhe na sua cara me energiza, mas o meu lado racional me faz fechar a boca com força, tentando garantir que não vou falar nada, porque toda vez que algo assim acontece acabamos entrando em uma discussão extensa e eu preciso mesmo terminar de estudar esse capítulo para a prova de amanhã.

*

Mesmo com a música alta, escuto quando a porta do quarto é fechada e meus olhos acabam se desviando para o relógio digital sobre a mini cômoda ao lado da minha cama. 6:20pm. Dessa vez ele levou 4 longas horas... O que significa que talvez o grandioso Sebastian Carter esteja cansado de tatuar pessoas. Interessante. Chego a pausar a música, ainda presa nesse sonho, sorrindo com o cenário tranquilo qual esse quarto seria, sem suas atividades questionáveis e serviços ilegais, quando os barulhos dele acobertando suas tralhas surge e me faz suspirar.

— Número 32 — o resmungo deixa meus lábios, enquanto tento convencer a mim mesma que meus olhos estão mesmo conseguindo ler esse novo parágrafo.  

— Não sei do que você está falando.

— Aquela foi a garota número 32 que você chamou de docinho — curiosamente também foi a número 5 que o chamou de "mãos de anjo", mas não comento esse detalhe.

— Por que caralhos você fica contando isso? — mesmo com a atenção "presa" no livro, o percebo parar de ajeitar suas coisas e olhar na minha direção.

— Por que você não aluga um studio? — mesmo sabendo aonde isso vai acabar; viro meu rosto para si e ergo uma das minhas sobrancelhas, dando ênfase na pergunta chave da equação.

— Por que você é tão insuportável? — apesar de ser bom em fingir não ter se importado com minha pergunta anterior; Sebastian aperta o pano que estava segurando com força o suficiente para que os nós nos seus dedos fiquem brancos, desconstruindo por completo sua faixada de "tanto faz".

— Você sabe que o que faz é ilegal? — meus olhos correm rapidamente por entre todos os itens espalhados na sua cama, fortalecendo meu ponto e isso o faz produzir aquela risada rouca e breve que me incomoda ainda mais que suas sessões.

— Se é tão ilegal, por que a exemplo ainda não me denunciou? — Sebastian consegue atrair minha atenção para si novamente e assim que encontro com seus olhos sinto o mesmo arrepio que senti na primeira vez que discutimos, aquele arrepio de não saber exatamente qual emoção está presente na voz dele, se é raiva ou... Prazer.

— Será que ainda não denunciei? — pronuncio qualquer coisa só para ele não pensar que conseguiu me deixar sem palavras, porque eu nunca ficaria sem palavras para pessoas como ele.

— Vamos ser honestos, exemplo — sinto minha garganta secar no segundo que ele começa a cruzar o quarto na minha direção e automaticamente meu corpo decide que é um bom momento para prender o ar — Se você tivesse falado qualquer coisa a respeito do que faço aqui para alguém da administração; nós dois sabemos que eu já teria sido advertido, se não expulso — Sebastian para frente a frente da minha cama e apoia um dos seus braços na cabeceira, se inclinando até nossos rostos estarem próximos o suficiente para que eu consiga ver o meu reflexo nos seus olhos — E para a sua informação — ignoro a minha vontade de querer acerta-lo com o livro assim que o percebo percorrer meu rosto como se estivesse me avaliando e tento continuar fingindo que não estou me sentindo incomodada com sua proximidade e o seu perfume — Essa foi a garota número 33, não 32 — Sebastian adota o seu sorriso diabólico e solta a madeira da cabeceira se afastando.

Com os olhos fixos nos músculos das suas costas; solto o ar que sequer percebi ainda estar prendendo, forçando minha atenção a voltar para o livro no meu colo.

— Eu não erro, babaca — resmungo para não deixar que ele tenha dito a última palavra e toco a música, tentando novamente em vão ler, enquanto minha cabeça começa a repassar cada uma das vezes que ele pronunciou o apelido enjoativo, totalizando exatas 32 garotas. Não 33.  

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