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—Foram duas horas para chegar até aqui. — Resmungo enquanto me sento em uma das cadeiras envolta da mesa de jantar.

—O trânsito estava ruim assim? — Minha mãe pergunta colocando uma travessa com purê de batatas no meio da mesa e voltando para a cozinha.

Assinto mesmo que ela não possa ver.

Estou exausta. Chegamos na Alemanha ontem à noite, mas só pude chegar em casa há pouco mais de cinco horas. A viagem de volta é sempre mais cansativa, acho que isso se dá à ansiedade de voltar para casa. E nesse caso, estava realmente ansiosa em voltar para cá. Acho que nessa viagem pude viver mais loucamente do que já vivi em toda minha vida.

—Você está com olheiras. — Meu pai diz me fazendo olhar para ele.

Ele está sentado na cadeira do canto esquerdo da mesa, segurando um jornal e beliscando uns pedaços de nabo que estão em seu prato.

—Isso acontece quando se está cansada. — Sorrio de canto e pisco lentamente.

Ele me olha por cima do jornal e corresponde o sorriso.

—Sabe, eu estava pensando em irmos juntos ao cinema amanhã. — Minha mãe reaparece com um bowl cheio de folhas de alface.

Suspiro.

—Cinema? — Pergunto dramatizando.

—O que foi? Você adora ir ao cinema. — Minha mãe contradiz enquanto se senta na cadeira a minha frente.

Eu realmente adoro, mas de uma hora para outra não sinto mais a mesma emoção ao ouvir que iremos a um. Ainda mais com eles. Não sei o motivo disso, mas não estou sentindo mais tanta empolgação ao saber que terei um passeio com os meus pais.

—Eu sei... — Dou de ombros. — Mas acho que prefiro ficar em casa amanhã.

Meus pais se entreolham como se estivessem diante de um monstro.

—Você nunca negou uma ida ao cinema. — Meu pai aponta. — Devemos nos preocupar?

Nego com a cabeça rapidamente enquanto me sirvo com um punhado de batatas e molho inglês.

Não entendo qual é a dos pais, me lembro muito bem de planejar pedir para ir ao cinema uma semana antes para que não houvessem surpresas nos planos deles que pudessem nos atrapalhar, e agora que sou eu quem não está afim de ir... sou alvo de especulações.

—Só não estou afim de sair para lugar nenhum. — Digo dando uma garfada no purê. — Quero dizer, eu acabei de chegar, preciso aproveitar minha cama ao máximo.

Minha mãe forma um beicinho como se estivesse impressionada.

—Que menina independente. — Ela diz com um sorriso no rosto.

—Acho que estamos perdendo nosso bebê. — Meu pai complementa.

Arregalo os olhos.

Tenho esperado vocês dizerem isso há tanto tempo.

Acho que desde que me conheço por gente venho sonhando em ser adulta, vivia dizendo a frase "quando eu crescer...", dizia isso o tempo todo, e em todas as vezes tinha uma opinião diferente sobre essa questão. Crescer. Eu queria muito crescer. Queria ser incluída, não queria continuar sendo a "menininha do papai". Porra, até hoje amigos próximos pensam que eu só entrei na banda por conta de contatos do meu pai. Essas pessoas nem sequer tentam imaginar que fiz isso por mérito. Eu entrei na banda porque mereci isso. E quando me tornei famosa, jurei que assim as pessoas começariam a me enxergar como alguém madura... HÁ! Errada outra vez. Dessa vez começaram a me enxergar como a "menininha do rock". Diziam que aquele não era meu lugar, que deveria voltar para casa e arranjar um namorado. Eu sei, essas frases fazem o feminismo regredir uns cem anos. Mas era o que eu costumava ouvir quando estava junto aos meninos em algum evento ou premiação. Bom, tudo isso foi até eu pedir ajuda a Tom. Ou ele me oferecer ajuda, eu nem lembro mais como tudo aconteceu. Só sei que agora as pessoas finalmente começaram a me enxergar diferente. O problema é que talvez eu e Tom tenhamos errado ao fazer essa merda juntos. Porque agora quem começou a enxergar ele de forma diferente, fui eu. De forma bem diferente. Tanto que estou aqui pensando nele, quando deveria estar preocupada em ingerir os vegetais largados em meu prato.

Ele também podia pensar em mim assim.

Cala a porra da boca, Matilda.

Respiro fundo e tento não surtar com meu próprio subconsciente.

—Eu já terminei. — Digo afastando o prato para a frente e me levantando em um salto.

—Você não comeu nada. — Minha mãe observa.

—Depois eu como. — Digo já aos pés da escada.

—Depois não vai ter comida, Matilda. — Ela avisa em um grito.

Apenas ignoro e continuo a subir para o meu quarto. Tem mais uma coisa que preciso fazer.

Pego o telefone apoiado na mesa de cabeceira e o ligo.

"Paolla, preciso ver você."

Envio a mensagem e aguardo ansiosamente.

"À caminho."

Sorrio em resposta e largo o telefone.

Ela não vai gostar nadinha do que tenho a dizer.

•••

—APAIXONADA? — Ela grita histérica.

—Shh... — Levanto as mãos como se isso fosse a calar de algum jeito. — Não disse que estou apaixonada.

Ela põe as mãos na cintura e tomba a cabeça de lado.

—Mas disse que pode estar.

É, eu disse mesmo.

—Mas não faço ideia de qual é a sensação de se estar apaixonada. Pode ser que isso não seja nada.

Paolla estreita os olhos e sorri de lado.

—O que faz você achar que está apaixonada por ele?

Solto um riso nasal de desdém.

—Nem te conto...

Ignoro a suspeita nos olhos da minha amiga e começo a pensar comigo mesma. Eu não sei o que pode ser paixão ou não, bem, agora eu sei o que é desejo e atração, isso eu sei muito bem, mas... nunca me apaixonei ou gostei de alguém. Mas é exatamente por esse motivo que desconfio do que comecei a sentir por Tom. Ele me atrai, muito, mas dessa sensação eu já estou acostumada, o que estou sentindo agora é diferente, sinto falta de estar com ele quando não estamos juntos, sinto falta do toque dele, da risada dele, da boca suja e de todos os insultos idiotas dirigidos à mim. E quando ele me beija... ah merda, sinto como se estivesse nas nuvens, nunca saberei o que é se estar entre as nuvens, mas quando a boca dele encontra a minha, eu tenho uma leve impressão de que seria daquela forma.

Ai, droga. Estou mesmo apaixonada, não estou?

—Matilda? — Não percebi quando Paolla se sentou à minha frente, mas aqui está ela. — Você está apaixonada, não está?

Olho bem fundo em seus olhos e vejo uma compreensão imensa. Sorrio porque sei que ela me entende.

—Sim, eu estou.

Ela retribui o sorriso e me puxa para um abraço apertado. Uma escolha muito bem feita foi ter me tornado amiga dessa garota. Acho que se estivesse passando por esse mar de pensamentos confusos e incompreendidos sem ela, já estaria no fundo do poço há muito tempo.

Nosso momento "amigas para sempre" é interrompido por um toque esganiçado vindo do telefone dela.

Nos afastamos e ela agarra o aparelho com curiosidade.

Seus olhos se arregalam e ela me olha instantaneamente.

O que foi agora?

—O que aconteceu? — Pergunto tentando enxergar algo em seu telefone.

Ela morde o lábio inferior apreensiva e vira a tela para mim.

Meus olhos também saltam para fora.

"1 de setembro. Hoje é aniversário dos gêmeos. Onde vocês estão?"

Ai. Minha. Nossa. Senhora.

training wheels - Tom KaulitzOnde histórias criam vida. Descubra agora