Ergo a cabeça e analiso o rosto do meu pai, ele está sério. Sério demais para o meu gosto. E minha mãe? Ela nem me olha nos olhos.
Tom está sentado ao meu lado no sofá, a pelo menos um braço de distância, enquanto meus pais estão sentados em duas cadeiras que eles trouxeram da sala de jantar. Acabamos de entregar a bomba para eles, e acho que eles não fazem ideia de como desativá-la.
Viemos para minha casa assim que Tom teve cem por cento de certeza de que eu estava preparada para enfrentar meus pais. Bom, estamos aqui, mas agora eu não sei se tinha certeza de que estava realmente preparada para isso.
—Podem dizer alguma coisa? Por favor. — Suplico sentindo minha voz mais fraca do que normalmente costuma ser.
Não consigo virar meu rosto para olhar para Tom, mas minha visão periférica me diz que ele está olhando para mim... e para os meus pais, e para mim outra vez, respectivamente.
—Eu não sei bem o que dizer. — Minha mãe diz e então ajeita a postura, cruzando as mãos entre as pernas.
Suspiro e fecho os olhos.
Ela está fazendo aquela pose. Uma pose que ela sempre faz quando quer passar um ar de superioridade.
—Vocês devem ter alguma coisa entalada na garganta. — Levanto as sobrancelhas. — Apenas digam qualquer coisa.
Eles se entreolham e posso ver quando a garganta do papai começa a se contrair, demonstrando que está engolindo em seco.
—Nós sempre soubemos que você seria uma menina forte. — Meu pai começa a falar olhando bem no fundo dos meus olhos. — Sempre soube se defender, e sempre foi pé no chão. Nunca se deixou abalar por ninguém.
Ouço uma risadinha vir de Tom, o olho e ele balança os ombros como se dissesse "é verdade".
—Quando você disse que queria aprender a tocar teclado, não parou até que estivesse craque naquilo. — Ele sorri de canto. — Você é empenhada, Matilda. E ficamos muito orgulhosos quando você começou a fazer sucesso junto aos meninos. Mas...
Arqueio uma sobrancelha e me inclino um pouco para frente.
—Mas eu e sua mãe, sempre tivemos medo de como o mundo poderia te influenciar. As drogas, as bebidas, o sexo...
Levanto a mão o interrompendo.
—Pule essa parte. — Peço.
—Nós sabíamos que não seria fácil. Você era uma garotinha quando tudo começou, só queríamos ter certeza de que não fariam nenhum mal a você.
Assinto.
—Mas acabaram me prendendo demais.
Ele suspira e abaixa a cabeça.
—Eu não sabia que você se sentia assim.
Solto um riso nasal.
—Pai, você não tem ideia de quantas noites eu chorei dentro daquele quarto, me sentindo completamente sozinha, eu não tinha nenhum amigo a não ser os meninos. Vocês nunca me deixaram nem ao menos passar da hora de dormir quando eu era mais nova. Meu aniversário de 14 anos foi feito com um tema de "zoológico". EU NUNCA NEM FUI A UM ZOOLÓGICO! — Estouro. — Vocês queriam me proteger até do que não precisava de proteção.
A expressão de surpresa no rosto deles me faz sentir que sou uma idiota, mas respiro fundo e continuo falando.
—Eu viajava o mundo, e quando eu estava de volta... eu voltava a ser a bebezinha de vocês. — Aperto as unhas contra a palma da minha mão. — Eu amo vocês, mas vocês sempre fizeram eu me sentir... um erro.
Olho para minha mãe e me sinto ainda mais culpada ao ver lágrimas em seus olhos.
—Eu nunca me senti livre em dizer nada a vocês, porque eu nunca sabia qual seriam suas reações. — Eu mordo o lábio inferior e posso sentir que estou prestes a desabar. — Droga, eu escondi por dois meses a minha primeira menstruação, por medo de vocês dizerem que aquilo era algo que eu havia feito de errado. Nunca disse que era fã do "queen" porque tinha medo de vocês dizerem que era errado. Sempre quis assistir "psicose" mas sabia que vocês diriam que é errado assistir a filmes de terror. Erro, erro, erro. Eu tinha medo de estar sempre no erro. Vocês diziam que praticamente tudo era errado para que eu não sentisse vontade de fazer essas coisas, e assim eu continuaria sendo "perfeita" para vocês. Se não fosse por Tom, eu nunca teria saído dessa caverna.
Minha mãe soluça e tampa a boca com uma das mãos.
—Nós sempre fizemos de tudo por você... — Ela diz.
—Mãe, eu não disse o contrário... — Esfrego o rosto com as mãos. — Eu só quero que pelo menos uma vez... vocês percebam que me fizeram mal. Eu preciso que vocês entendam o que estou dizendo.
—Eu entendi. — Meu pai me olha. — Sinto muito que tenhamos feito você se sentir assim.
Uma lágrima quente escorre por minha pele fria quando ouço essa frase.
—Entende mesmo? Entende porque eu tive medo de dizer para vocês que eu e Tom...
Ele assente.
—Me desculpe, filha.
O choro me escapa em forma de soluço, e posso sentir quando Tom se arrasta pelo sofá e massageia minhas costas.
—Nós só precisávamos conversar? — Pergunto rindo e chorando ao mesmo tempo.
Ele dá de ombros com um sorriso.
—Acho que sim... — O olhar dele voa até Tom. — Mas se você magoar minha filha, não vai ser na base da conversa que vamos resolver a questão. Se machucar ela, juro que vou parar no inferno só por te matar.
Solto uma risada ao ver o rosto assustado de Tom.
Minha visão vai até minha mãe, que se levanta sem dizer nada e sai da sala. Isso provoca uma onda de tristeza em mim que faz com que a animação se apague.
Ela ainda pensa que o que estou fazendo é errado. Que meu relacionamento com Tom é errado. Que tudo o que eu disse é ingratidão e é... errado.
Ela não entende.
Baixo o olhar e vejo que minhas unhas formaram linhas vermelhas em minhas mãos.
—Você sabe que é mais difícil para ela. — Tom sussurra em meu ouvido.
Assinto.
—Eu queria que ela não fosse tão mente fechada.
Meu pai estica o braço e segura uma de minhas mãos.
—Dê uma chance para ela se acalmar, mais tarde conversamos melhor. — Ele diz e sorri sem mostrar os dentes.
Comprimo os lábios e balanço a cabeça afirmativamente.
—Mas então... quer dar uma volta? — Tom pergunta.
Viro meu rosto para ele e suspiro.
—Quero.
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training wheels - Tom Kaulitz
Romance"𝑵𝒂̃𝒐 𝒒𝒖𝒆𝒓𝒐 𝒎𝒂𝒊𝒔 𝒔𝒆𝒓 𝒂 𝒄𝒓𝒊𝒂𝒏𝒄̧𝒂 𝒒𝒖𝒆 𝒂𝒊𝒏𝒅𝒂 𝒖𝒔𝒂 𝒃𝒊𝒄𝒊𝒄𝒍𝒆𝒕𝒂 𝒄𝒐𝒎 𝒓𝒐𝒅𝒊𝒏𝒉𝒂𝒔." Matilda Müller se tornou uma garota muito famosa, a tecladista da banda mais renomada de seu país. Ela é só uma menina, mas...
