39.

580 46 78
                                        

Estou aliviada por ter tirado esse peso do peito. Tom tinha razão, aquela sensação era apenas um medo bobo. Eu estava com medo dos meus pais, estava aflita com a forma que eles poderiam reagir a tudo que estou vivendo. E agora sinto como se tivesse descarregado toneladas de cima dos ombros. Mas também estou triste, porque minha mãe nem ao menos tentou me entender. Ela não está afim de compreender a situação e isso acaba comigo. Mas eu acredito que isso seja apenas uma fase, tem que ser, ela é minha mãe, não quero que viva decepcionada comigo e com meu relacionamento. Quero dizer, "relacionamento". Meu Deus. Tom e eu nem percebemos que não demos um título ao que temos.

Estamos caminhando em um parque. É um lugar próximo a minha casa. O clima está frio, e o sol está fraco, aquele típico clima de começo de inverno. Sempre que respiro sinto o ar gelado queimar minhas narinas, e estou me divertindo enquanto vejo o ar quente de dentro da minha boca se transformar em fumaça sempre que expiro.

Olho para o lado e vejo que Tom também está soprando fumaça, mas essa é por conta do cigarro aceso entre seus lábios.

—O que nós somos? — Pergunto sem vergonha nenhuma.

Tom arregala os olhos e quase deixa o cigarro cair no chão.

—O que? — Ele pergunta se virando para me olhar.

—Nós somos um casal? Amigos que se pegam? O que nós somos?

Tom segura o cigarro com os dedos e olha para cima pensativo.

—Hm... acho que temos sentimentos demais para sermos classificados apenas como amigos. E se considerarmos que estamos agora mesmo andando de mãos dadas. — Ele sorri de canto e levanta nossas mãos grudadas no ar. — Somos namorados.

Tombo a cabeça de lado.

—Você não me pediu em namoro. — Provoco dando um puxão em seu braço.

Ele estreita os olhos e para de andar.

—Quer ser minha namorada?

Sorrio e dou de ombros.

—Claro.

Ele sorri e volta a caminhar.

—Até que foi fácil. — Ele se gaba e coloca o cigarro na boca outra vez.

Observo atentamente enquanto ele puxa o ar e faz com que o fogo na ponta do papel fino se acenda.

—Eu quero provar.

Tom arqueia as sobrancelhas e me olha confuso.

—Provar o que?

Aponto para o cigarro.

—Fumar, quero saber como é. — Explico animada.

Ele engasga com uma risada e pequenos cortes de fumaça começam a sair de seu nariz.

—Ficou maluca? Claro que não. Eu fumo porque aprendi a fazer isso muito cedo, é um vício, não quero que você fique presa a isso, vai te deixar doente.

Franzo o rosto e continuo observando seus movimentos atentamente.

—Se eu não posso fumar, então você também não pode. — Paro de andar e cruzo os braços.
— Você também pode ficar doente.

Ele olha para mim e levanta as sobrancelhas.

—Vamos fazer um acordo, eu não peço mais para fazer isso se você nunca mais fizer. — Proponho com as mãos na cintura.

Ele estreita os olhos e fica sério por um tempo, mas logo um sorriso se abre em seu rosto. Ele joga a bituca de cigarro no chão e o amassa com a sola do pé.

—Trato feito. — Ele estende a mão para que eu a aperte.

—Ótimo. — Digo e solto uma risada quando, pela mão, ele me puxa mais para perto.

—Mas você pode sentir o gosto. — Ele lambe os lábios e aproxima nossos rostos.

—Ah, é? — Mordo o lábio inferior e olho bem para seus olhos, que estão fixos em meus lábios.

Ele assente e acaba com o resto de distância que ainda existia entre nós. Ele me beija, e realmente posso sentir o gosto da nicotina em sua língua. Nossa, sentir esse gosto através de um beijo parece muito melhor. Agarro a nuca de Tom e aprofundo o beijo, virando o rosto de lado.

—Seu gosto é tão bom. — Ele sussurra entre meus lábios.

Não dou brecha para mais palavras, apenas assinto e continuo a beija-lo.

É o momento perfeito.

Até que eu ouço o barulho de pneus, carros freando, e uma buzina. Alta e ensurdecedora. Tenho tempo de afastar o rosto de Tom e prender a respiração em meus pulmões antes de ouvir um baque. De repente um zumbido preenche meus ouvidos, ouço a voz de Tom bem fraca vindo de algum lugar. Mas não o vejo. Tudo o que meus olhos enxergam é uma escuridão sem fim.

Escuro, escuro, escuro.

training wheels - Tom KaulitzOnde histórias criam vida. Descubra agora