Um sopro passa por mim. Frio. Está frio aqui.
Onde estou?
Um cheiro estranho enche minhas narinas, algo parecido com grama molhada e lama. Meus ouvidos captam um ruído baixinho, bem no fundo do meu cérebro. Tentando me fazer acordar de alguma coisa.
A brisa fria me atinge outra vez, e então meus olhos se abrem.
Está escuro e é difícil assimilar onde estou. Mas quando olho para cima e vejo as estrelas inundando o céu, me lembro que ainda estamos no lago.
Olho para o lado, Tom está adormecido, um braço está envolto em minha cintura, enquanto o outro está por baixo de sua cabeça, amortecendo a dureza do solo. Caímos no sono depois do sexo, eu nem ao menos percebi. Conversamos por um tempo e então apagamos.
Respiro fundo e tiro o braço pesado de cima de mim com delicadeza. Um murmúrio vindo de Tom faz com que eu vire a cabeça rapidamente, analiso sua expressão facial para ver se está prestes a acordar. Não, dormindo como um bebê. Suspiro e me desvencilho totalmente de seu toque, preciso me vestir antes de acorda-lo para irmos embora. Uma coisa é ficar nua na frente de alguém enquanto os dois estão excitados, outra coisa é estar nua em um momento em que a pessoa tem tempo de procurar defeitos em seu corpo. Não que eu ache que Tom faria isso, mas minha insegurança pede para que eu pense assim do mesmo jeito.
Me levanto calmamente e alcanço minha calcinha jogada de lado. A visto e então visto o sutiã também. Estou em pé abotoando minha calça jeans quando ouço um barulho vindo do rapaz ainda deitado no chão.
—Devia continuar sem roupa. Seu corpo é lindo. — Tom diz em uma voz rouca. Olho para ele e vejo seus olhos semiabertos e um sorriso preguiçoso em seus lábios. E para comprovar o que eu havia pensado, ele nunca acharia defeitos em mim.
Solto um riso nasalado e então agarro a blusa listrada no chão.
—Devíamos ir embora. — Sugiro. — Dormimos por tempo demais. Já deve passar das oito da noite.
Tom se espreguiça e então coloca os braços atrás da cabeça, enquanto me observa.
—Não foi de propósito. Estávamos cansados.
Sorrio e fico de joelhos, me inclino e deposito um selinho em seus lábios.
—Mas agora já estamos descansados, vamos embora.
Um sorriso enorme se instala em seu rosto, e então ele finalmente se levanta e começa a se vestir.
Verifico se não estamos esquecendo de nada e então vou em direção ao carro, abro a porta e me sento no banco do passageiro. Olho para o painel e vejo o horário que esperei que fosse brilhando na tela. "20:13".
Travo o cinto de segurança e então ouço aquele ruído mais uma vez. Olho para o lado da janela e tento entender da onde vem esse som.
—O que foi? — Me assusto com o barulho de Tom entrando no carro. Ele joga o lençol de qualquer jeito no banco de trás e então se vira para mim.
Sacudo a cabeça e forço um sorriso.
—Acho que peguei um resfriado. — Levo uma mão até a orelha e a massageio de leve. — Ficamos muito tempo no sereno.
Ele assente e gira a chave na ignição.
—Eu te preparo um chá quando chegarmos. — Ele diz e então encara o retrovisor para poder tirar o carro de onde estamos estacionados. — Ou você pode me dar um chá.
Arqueio as sobrancelhas confusa mas entendo a piadinha quando vejo o olhar safado brilhando em seu rosto.
Soco seu ombro com força.
—Ai, brincadeira.
Sorrio e volto minha atenção para a janela.
Tento não pensar muito nisso mas... por que ouvi aquele som esquisito? Estávamos em um lago, não é estranho algo assim acontecer? Ai merda, acho que só preciso dormir um pouco mais.
•••
—Oi filha, trouxe um chá para você. — Meu pai aparece na porta do meu quarto com uma xícara em mãos.
Estou sentada na minha cama, com as costas encostadas na cabeceira, de braços cruzados e encarando a janela do meu quarto. Eu não sei o que está havendo, mas estou com um aperto estranho no peito, como se algo ruim tivesse acontecido, ou fosse acontecer.
Viro meu rosto e vejo que meu pai já está parado na beira da cama.
—Obrigada. — Estico a mão e pego a xícara com o líquido quente soltando finas teias de fumaça no ar.
Envolvo ambas as mãos no objeto e sopro a fumaça, observando ela se derreter com o vento.
—Matilda, você está bem? — Meu pai pergunta com uma sobrancelha arqueada.
Forço um sorriso mas não respondo, porque não sei se estou bem. O dia foi ótimo, o melhor de todos, mas essa sensação me faz sentir que tem algo muito errado acontecendo.
—Não está, não é? — A demora em responder faz meu pai parecer preocupado ao se sentar na beira da cama, ao meu lado.
—Já sentiu como se algo estivesse errado? — Devolvo seu questionamento com outra pergunta. — Tudo está certo, mas a sensação que te invade é de que algo ruim está prestes a acontecer.
Ele pensa por longos segundos.
—Já senti isso, sim. — Ele coça o queixo e olha para cima. — Quando sua mãe escorregou no piso molhado enquanto estava grávida de você. Eu fiquei com medo o dia todo, e não sabia do que era. Acabou sendo isso.
Arregalo os olhos.
—Mamãe caiu comigo dentro da barriga?
Ele assente.
—Tivemos que correr para o hospital para ver se nada tinha acontecido. Você parou de chutar naquele dia, deu um baita susto na gente. — Meu pai solta uma risadinha. — Você só estava dormindo, o médico disse que provavelmente nem sentiu o impacto.
Solto um riso nasal e volto a olhar para a janela. Dou um gole no chá quente e respiro fundo.
Um pressentimento ruim. É isso que estou sentindo. Mas não quero que nada aconteça, não pode acontecer, tudo parece perfeito agora.
Recosto a cabeça na cabeceira e fecho os olhos.
Isso vai passar. É só um dia normal.
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training wheels - Tom Kaulitz
Romance"𝑵𝒂̃𝒐 𝒒𝒖𝒆𝒓𝒐 𝒎𝒂𝒊𝒔 𝒔𝒆𝒓 𝒂 𝒄𝒓𝒊𝒂𝒏𝒄̧𝒂 𝒒𝒖𝒆 𝒂𝒊𝒏𝒅𝒂 𝒖𝒔𝒂 𝒃𝒊𝒄𝒊𝒄𝒍𝒆𝒕𝒂 𝒄𝒐𝒎 𝒓𝒐𝒅𝒊𝒏𝒉𝒂𝒔." Matilda Müller se tornou uma garota muito famosa, a tecladista da banda mais renomada de seu país. Ela é só uma menina, mas...
