36.

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Na manhã seguinte, é quase como acordar para o primeiro dia de aula em uma escola nova.

Estou sentindo uma ansiedade bizarra que fez com que eu mal conseguisse pregar os olhos. Ainda posso ouvir o som de meus suspiros derrotados e do cobertor sendo lançado de lado milhares de vezes enquanto eu tentava arranjar uma posição que finalmente me fizesse dormir.

Ainda está cedo, mas já estou na cozinha, preparando um café da manhã ridiculamente calórico para toda minha família. Penso em ligar para Paolla e convida-la para a refeição, mas acho que ela nem ao menos está acordada.

A última mensagem que enviei para alguém, foi para Tom, ontem à noite. Ele me perguntou se a sensação de resfriado havia passado e eu expliquei que era apenas um breve pressentimento ruim. Ele não tocou muito no assunto, mas sinto que ficou preocupado. Desde que conheço Tom, sei que ele não se dá bem com "sensações" e nem mesmo com "coisas do universo". Ele nunca me disse se acredita nisso ou não, talvez ele pense que isso é bobagem demais para que seja verdade, ou tem medo de dizer que é mentira. Só sei que se essa sensação é algum aviso do universo de que algo está a caminho, eu espero que seja alguma coisa boa. Tem que ser.

—Que cheiro bom... — Minha mãe aparece na cozinha com os olhos inchados e um sorriso delicado nos lábios.

—Bom dia, mãe. — Sorrio de volta e aponto para que se sente na banqueta da ilha da cozinha.

Ela inala profundamente o aroma da comida.

—O que você está preparando? — Ela pergunta.

Me viro segurando uma frigideira com ovos mexidos e um prato com panquecas e bacons. Pouso os utensílios na mesa e faço uma careta ao perceber o óleo do bacon escorrendo para baixo da massa das panquecas. Até mesmo cozinhando estou fazendo trapalhadas.

—Você está bem? Seu pai me contou que você estava meio triste ontem. — Minha mãe diz e tira a tampa de um frasco de melado.

—Não estava triste. — Suspiro e me sento no banco à sua frente. — Só estava sentindo uma coisa meio estranha.

—Você está melhor agora?

Suspiro.

—Mal consegui dormir. Só quero esquecer isso, não deve ser nada.

Ela entorta o canto da boca.

—As vezes sentimos coisas ruins quando estamos nos sentindo culpados com alguma coisa. — Ela diz e derrama uma boa quantidade de melado nas panquecas. — Semana passada tenho certeza que atropelei um gato. Estava escuro e senti o carro chacoalhar um pouco. Ai, tenho pensado nisso desde então. E sinto que ainda vou ser castigada se tiver mesmo atropelado aquele felino.

Solto uma risadinha.

—Eu não fiz nada de errado para que eu me sinta culpada.

E não mesmo. Bom, eu acho que não estou me sentindo assim porque perdi a virgindade. Não faz sentido. Me senti culpada quando beijei Bill, por um curto período de tempo, mas agora nem mesmo essa memória me incomoda mais. Não senti culpa por nenhuma das coisas que fiz com Tom.

Mas essa sensação surgiu logo depois que nós transamos.

Ai, porra. Será que minha mãe está certa?

—Mãe, eu vou dar uma saída. — Aviso, de repente.

Ela me observa sair da cozinha enquanto mastiga um pedaço de bacon.

—Onde vai?

Penso um pouquinho.

—Vou me encontrar com o Tom.

•••

Bato pela terceira vez na porta de madeira envernizada. A demora me deixa agoniada, então dou um passo para trás e observo para ver se consigo enxergar algo através das janelas de vidro da casa.

Um clique demonstra que a porta foi destrancada, e esse som me deixa ainda mais ansiosa.

Abra logo essa porta.

—Matilda? — Um sorriso brilhante e feminino aparece quando a porta se abre.

SIMONE.

Sorrio abertamente e corro em sua direção.

—Meu Deus... — A aperto em um abraço e inalo seu perfume adocicado. — Que saudade.

Passava muito tempo na garagem dessa casa ensaiando com os meninos, e sempre que precisava de um tempo da energia masculina eu subia até a sala de estar e passava horas conversando com Simone. Ela é como minha segunda mãe, e adoro isso.

—Você está linda. — Ela se afasta um pouquinho, ainda agarrada aos meus braços, e passa as mãos em meus cabelos, que agora já estão uns 10 centímetros mais longos desde que os cortei.

É ótimo vê-la outra vez.

—Entre, querida. — Ela pede e abre espaço para mim. — O que veio fazer aqui? Está tão cedo.

Olho ao redor. Para a porta da cozinha, para o lavabo, para a porta do porão... como se Tom fosse aparecer de dentro de um desses lugares. Mas não aparece. Então meu olhar se prende no topo da escada.

—Vim ver Tom.

Me viro para trás e Simone abre um sorriso caloroso para mim.

—Ele está lá em cima. — Ela diz.

Como eu imaginei.

—Obrigada... — Digo e me dirijo até estar subindo os degraus de mármore.

Caminho ansiosamente pelo corredor extenso que já atravessei milhares de vezes. Conheço tão bem esse lugar que sei que tem uma mancha de sangue escondida atrás do quadro onde Bill e Tom estão vestidos de super-heróis. Bill tinha sete anos e tinha acabado de sair do chuveiro, saiu correndo pelo corredor e escorregou no piso molhado. Tom foi acudir e acabou tropeçando nas pernas do irmão, bateu a cabeça na parede e o quadro caiu bem encima de seu nariz. Foi um desastre. Sangue para todo lado. Simone contou essa história várias vezes, e sinceramente, consigo imaginar exatamente como deve ter sido.

Nem percebi que estou parada no meio do corredor analisando a foto dos dois com um sorriso brincalhão no rosto. Só me toquei de que estou parecendo uma estátua quando ouço um pigarreio vindo do final do corredor.

Olho para o lado e vejo Tom escorado no batente da porta de seu quarto. Ele está sorrindo, e seus dreads estão presos em um coque. Amo quando ele os deixa assim. Baixo o olhar e vejo que ele está usando apenas uma calça moletom preta. Que pecado.

—O que veio fazer aqui tão cedo, pirralha? — Ele pergunta e cruza os tornozelos.

Mordo o lábio inferior e tento conter um bocado da minha animação em vê-lo.

—Vim te ver.

Ele estreita os olhos.

—São nove da manhã.

Dou de ombros.

—Eu posso ir embora, se quiser. — Aponto por cima do ombro e dou um passo para trás.

Ele arregala os olhos e estende a mão como se fosse parar meu movimento mesmo estando a uma distância moderada de mim.

—Não! Fica. — Ele pede. Ou melhor, ordena. — Vem aqui.

Caminho até ele com um sorriso no rosto.

Ele se inclina até mim e deposita um beijo em minha testa.

—Por que veio me ver?

Pode ser que a teoria de minha mãe esteja completamente errada.

Mas pode ser que esteja totalmente certa.

Preciso ser sincera comigo mesma. E com ele também.

—Porque preciso saber se me sinto culpada de estar com você ou não.

training wheels - Tom KaulitzOnde histórias criam vida. Descubra agora