29.

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Está claro. Está muito claro. Meus olhos lutam para conseguirem enfrentar o clarão que invade minha visão. Minhas pálpebras estão pesadas como chumbo, e todo meu corpo parece pesar o mesmo. Quando tento levantar a cabeça é como sentir a lâmina de uma guilhotina passar por meu pescoço, me fazendo voltar diretamente para o travesseiro. Apenas com esse pequeno baque sinto meu cérebro chacoalhar, e as ondas me enjoam, como se estivesse no mar. Nossa, que coisa horrível.

Estreito os olhos e tento entender onde estou.

Em um quarto de hotel. E essa janela enorme está com as persianas abertas, agora sei porque acordei sentindo como se houvesse um holofote em meu rosto.

Conforme minha cabeça volta ao lugar, começo a me lembrar da noite anterior. Me lembro da festa, do beijo, de beber para caralho e desmaiar. Ou pelo menos eu acho que foi um desmaio, não me lembro de mais nada além disso.

—Finalmente acordou? — Uma voz rouca diz.

Sei a quem essa voz pertence.

—Tom? — Digo e sinto minha boca seca. — Por que estamos aqui?

Ele está sentado em uma poltrona no canto do quarto, ele está com os dreads presos em um coque, sem boné e descalço. Ele dormiu aqui?

Espera, eu dormi aqui?

Olho para o lado e vejo que apenas meu lado da cama está desarrumado. Franzo as sobrancelhas.

—Não dormimos na mesma cama. — Ele sorri fraco. — Eu fiquei aqui nessa poltrona... a noite toda.

Ele suspira e alonga o pescoço com uma expressão de sofrimento.

Solto uma risadinha mas me arrependo amargamente no momento em que faço isso. Minha cabeça está rejeitando o mínimo de esforço físico possível.

—Sua cabeça não está boa, não é? — Ele questiona enquanto se levanta e vem em minha direção.

—Nenhum pouco... — Digo com uma voz falha.

Ele sorri de canto e estica o braço para colocar as costas da mão em minha testa como se medisse minha temperatura.

—Isso é só uma ressaca. Daqui algumas horas você vai estar melhor.

Arregalo os olhos.

—Horas? — Indago pasma.

Ele solta uma risada e se senta na cama. Seu olhar baixa até estar preso no tecido do edredom branco embaixo de nossos corpos.

—Se lembra de alguma coisa da noite passada? — Ele pergunta sem me olhar.

Pisco algumas vezes tentando me recordar de mais alguma coisa além do sétimo shot de tequila que tomei com Gustav.

Balanço a cabeça negativamente.

—Não lembro de nada depois que comecei a beber. — Digo baixinho. Ainda está sendo um desafio me comunicar.

Ele assente e continua com o olhar fixo no colchão.

—Você está bem? — Pergunto inclinando a cabeça para o lado para poder enxerga-lo com clareza.

Ele abre um meio sorriso. Mas eu consigo notar a diferença desse sorriso para todos os outros. Esse é forçado.

Ai, droga. Será que...

—Tom? — Hesito por um longo período de tempo. — Fizemos algo que não deveríamos ontem à noite?

Ele finalmente me olha, mas seus olhos não expressam nenhum arrependimento ou culpa. Não, não fizemos nada.

Suspiro aliviada mesmo sem obter uma resposta verbal.

—O que está acontecendo? — Pergunto.

Ele estala a língua e se levanta. Agora ele está de costas para mim. Seus ombros estão tensos, e sua respiração está alta o suficiente para que eu consiga ouvi-la daqui.

Um silêncio constrangedor se instala no quarto enquanto observo sua agitação. Ele está quase da mesma forma que ontem, quando brigamos em seu quarto de hotel. Tenso, bravo, agitado. Eu não sei o que fazer, então permaneço calada.

—Você não me reconheceu ontem. — Ele diz de repente.

Eu engulo seco e tento repassar mais uma vez os acontecimentos do dia anterior. Mas nada me vem à mente.

—É, acho que não. — Digo praticamente em um sussurro.

Ele se vira para mim. E tudo o que vejo é profundo. Uma tempestade se formando por trás de suas pupilas, sua boca se abrindo tentando buscar por ar... ou palavras.

—Eu... — Ele tenta dizer algo, mas não consegue. — Você...

Comprimo os lábios começando a ficar ansiosa. Se ele mal consegue me dizer o que houve, algo muito ruim deve ter acontecido.

—Não se lembra de nada, não é? — Ele passa a mão na nuca agoniado.

Nego com a cabeça.

Ele tenta sorrir, mas os cantos de sua boca não levantam, ele balança os ombros e limpa a garganta com força.

Meu Deus, que estranho. Nunca havia visto como Tom se perde em suas palavras quando fica nervoso. Ele parece vulnerável.

Me ajeito na cama me sentindo muito curiosa para saber o que está o incomodando.

—Tom. — Chamo sua atenção. — Pode me dizer o que houve?

Ele lambe os lábios e respira fundo. Seu comportamento está me deixando aflita, mas preciso me manter firme para que ele se sinta confortável em me dizer o que aconteceu. Mas ele não consegue.

Ele não vai conseguir.

—Bem, nós... você... — Um suspiro longo e dolorido lhe escapa. — Eu... — Seu olhar vai em direção a porta do quarto. — Eu vou embora.

É tudo o que ele diz. Antes de calçar os sapatos com pressa e sair do quarto ainda mais apressado.

Dou um pulo quando ouço o som da porta bater.

Viro a cabeça lentamente em direção a janela enorme.

Minha cabeça está mais confusa agora do que se eu tivesse simplesmente batido com ela em uma parede.

Que porra foi essa?

training wheels - Tom KaulitzOnde histórias criam vida. Descubra agora