19 - Inevitável

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Ciúmes? Isso é novo. Não estou acreditando que fiquei com ciúmes de Devon, como se fôssemos um casal de verdade. Tudo bem se o cara que tivesse ciúmes não fosse o que tentou matar o meu pai.

Meus dedos deslizam sobre a tela do celular, a foto de Devon e sua ex-noiva, uma mulher bonita. A foto consiste nos lábios dela grudados na bochecha dele, os dois estão olhando para frente. Devon está com os braços ao redor dela e, pelo jeito, foi ela que tirou a foto e não outra pessoa.

Ele está com a cara séria, embora fique bonito assim, e por isso choveu comentários sobre a sua beleza. Quase reviro os olhos. Adelina está sorrindo, feliz.

Tento não pensar nos comentários odiosos dirigidos a mim. Eu nem ligo pra isso de verdade, mas sim à minha privacidade, que agora foi invadida.

Desligo o celular. Já chega! Tenho que colocar algum juízo na minha cabeça.

— Esse olhar parece de uma mulher enciumada — diz Álvaro com a voz áspera.

Nos encontramos em um depósito abandonado porque ele disse que é mais seguro aqui para nós nos vermos.

— Nada a ver — murmuro, guardando o celular no bolso da calça. Me encosto contra a parede de concreto e dou um olhar de relance para Álvaro, sua cara não está muito boa.

— Eu só espero que você não tenha desenvolvido uma queda pelo homem que tentou matar o seu pai — me lembra.

Abaixo a cabeça por um instante, enfiando a mão nos cabelos em um suspiro de cansaço, frustração e tantas outras coisas.

— Eu quero tanto Devon na cadeia quanto você, e adoraria sair logo daquela casa o quanto antes. Eu tenho que dividir o quarto com ele, então não ache que eu goste disso, muito menos que eu tenha uma queda por ele — retruco, seu rosto se contorce enquanto nossos olhares se cruzam.

— Vocês dividem o quarto?

Faço uma cara como se fosse óbvio.

— Sim, pra família dele, somos casados.

Ele assente, mas seu rosto ainda está fechado.

Tento não pensar muito no seu estado de humor.

— A ex-noiva de Devon é filha de um promotor de justiça que virou senador, e dá pra ver que eles não estão pra brincadeira, né?

Não há como discordar, eles literalmente têm o país em suas mãos, mas não importa como eu vou conseguir as provas que preciso pra que Devon e a família dele paguem, não importa o preço pra isso.

— Mas, enfim, você descobriu alguma coisa com a escuta e a câmera?

Isso ameniza sua expressão.

— Sinceramente, isso está sendo mais difícil do que imaginei. Eles só falam em códigos, parecem até que sabem que estão sendo observados, mas escutei muito eles falarem de irem para um galpão. Talvez seja o lugar onde está escondido o mundo criminoso deles. Consegui ver algumas imagens de pessoas que entraram no escritório de Devon. Eu vou juntar informações com isso, de qualquer forma, temos uma pista agora, que é descobrir onde fica esse lugar.

Não é suficiente, mas é alguma coisa.

— Vamos ter que segui-lo, então — digo.

— É, esse é o plano, mas me diga: conseguiu entrar no quarto do avô? — pergunta.

Faço que não.

— Eu tentei entrar no escritório, onde acho que pode ter provas, mas estava trancado. Meu plano é tentar hoje de novo, pegando a chave de uma das funcionárias.

Ele suspira e parece que o que vai sair da sua boca o incomoda muito.

— Eu queria muito mesmo que você não se envolvesse com um cara como esse. Tome cuidado para ele não te seduzir e acabar machucando você. Ele é perigoso.

Vejo sua preocupação, que parece bem mais do que a de um policial preocupado.

Mas, apesar de tudo, não sinto medo de Devon, dele não.

— Eu não vou fazer nada disso — digo, mas para mim, do que para ele.
Seus olhos me encaram intensamente, parecendo querer dizer algo a mais.

— E tome cuidado com essa Adelina.

Assinto.

Álvaro me deixa em um trecho perto do parque, embora eu tenha dito que podia ir embora sozinha, mas ele é teimoso. Saio do carro e me despeço.

— Te mando mensagem depois pra combinarmos o nosso dia de perseguição — diz ele com um pouco de humor. Sorrio, ainda segurando a porta do carro.

— Vou estar esperando — digo.

Sinto algo bater no pé, olho pra baixo e vejo que é uma bola. Eu a pego e me volto para Álvaro.

— Tchau — me despeço, fechando a porta.

Viro-me para encontrar a dona da bola e devolvê-la. Vejo uma garotinha que não deve ter mais que 10 anos. Na sua cabeça, tem um turbante. Parece uma garota fragilizada enquanto caminha até mim com um sorriso discreto.

— Desculpa — diz.

Eu abro um sorriso, dando um passo a mais e estendendo a bola pra ela.

— Não devia deixar uma bola tão bonita como essa por aí, eu poderia ter roubado — brinco.

Isso faz seu sorriso se alargar, ela pega a bola das minhas mãos.

— Então você é uma boa pessoa.

— Hanna, já disse para não ir para longe, filha. — Uma mulher se aproxima de nós.

A menina se recua, indo para perto da mulher. Meus olhos se erguem e juro que posso estar tendo uma alucinação, mas a mulher ali é a minha mãe.

Acordo PerigosoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora