50 - Finalmente as coisas podem andar...

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Meus olhos encaram os olhos do meu pai como se eu estivesse em transe. Eu mal ousei me mexer, com medo de que, se eu fizesse um movimento em falso, a ilusão se desfaça. Ele continua ali deitado, com os olhos abertos.  

— Pai… — me aproximo.

A única coisa que pensei naquele momento foi em abraçá-lo do jeito que podia em uma cama, mesmo que o seu corpo não reagisse, mas eu posso sentir o seu coração fortemente contra mim. Levanto os olhos novamente e ele ainda está ali, me olhando como se não entendesse nada do que está acontecendo.  

Cheia de emoções violentas dentro do meu peito e com o coração martelando, corri até a porta, chamando o médico com a voz trêmula.  

Não demora muito para ele aparecer com uma expressão de preocupação.  
Eu praticamente o puxo até o meu pai.  

— Aconteceu algo? — pergunta, confuso. Eu engulo o nó na minha garganta, tentando controlar as minhas emoções.

— Ele acordou — aponto onde meu pai se encontrava ainda acordado. Seus olhos seguiram a direção, uma leve expressão de surpresa tomou-o.

O médico então começou a checar os sinais vitais e os monitores. Eu fui para o lado dele, ansiosa. Demorou um tempo, mas eu fiquei ali com medo de que, se eu saísse, fosse uma mentira. O médico disse que ele estava consciente, fez alguns exames e, quando finalmente terminou, eu pude ficar com eles a sós. 

— Oi — sussurrei, encarando-o como se fosse um vidro prestes a quebrar.

Os olhos ávidos em mim mostram que ele me entende, que me escuta, que não é um fantasma. O médico tinha me dito que pacientes em coma há tanto tempo demoram para ter domínio do próprio corpo e da fala, e que eu deveria ser paciente. Mas há tanta coisa que quero dizer para compensar esses tantos anos sem dizer nada, e eu nem sei por onde começar. Tantas dúvidas, tantas perguntas.

— Sou eu, Nicole. Lembra de mim, sua filha? — Eu pego a sua mão, segurando-a entre as minhas. Dá para perceber o quanto ele está exausto, mas ele fez um grande esforço para voltar para mim.  

— Nick… — sua voz saiu rouca e baixa, resultado do esforço. Tanto tempo sem ouvi-lo parece tão estranho, mas ao mesmo tempo é como se nunca tivesse mudado, como se nunca tivesse estado tanto tempo em coma.  

Meus lábios se curvaram em um sorriso enquanto as minhas mãos apertam mais a sua. Não consegui impedir que algumas lágrimas brotassem nos meus olhos.  

— Você voltou.

                                ◇

— Então o seu pai acordou do coma mesmo? — Devon pergunta, parecendo tão surpreso quanto eu.

Suas mãos seguram as minhas fortemente, me dando apoio. Estamos no hospital porque não quero ir embora tão cedo, tenho tanta coisa para perguntar ao meu pai, mas ainda tenho que esperar ele se recuperar. Tem todo o tratamento e a fisioterapia para ele voltar a se movimentar de novo, e isso vai levar um tempo. Ele está muito cansado.  

— Sim, eu tô tão feliz, Devon. Finalmente, depois de anos, ele acordou.  

Devon assente, agora parecendo um pouco distante, pensativo.  

— Tá tudo bem? — pergunto, observando-o.  

Ele faz que sim, mas não acredito muito, algo sobre o meu pai acordar o incomoda.

— Você não parece feliz por ele ter acordado — constato, não como se eu esperasse que ele pulasse de alegria, até porque Devon não o conhece e tudo o que passamos foi por causa do meu pai. Tudo isso começou por causa dele: o contrato de casamento, as mentiras, ele ser preso.

Ele suspira, passando a mão na testa, e então me olha intensamente.  

— Quer que eu diga a verdade? — Faço que sim, um pouco confusa. — Eu tenho medo de que isso possa mudar algo entre nós. Depois de tudo que passamos, eu sei lá… — responde, com a voz insegura.
 
Eu franzo as sobrancelhas.  

— Nada vai mudar entre nós por causa disso, Devon.  

— Eu não sei, Nicole… — parece não acreditar.  

— Nada vai mudar para mim. Eu sei que não foi você que causou o acidente dele, e eu confio em você. Agora que ele está acordado, eu vou saber toda a verdade.

— Mas não é só isso, você sabe que não é…  

— É sobre ele participar de coisas ilegais? — suspiro. — Eu não sei o que vou fazer com isso, eu só que tenho que ajudá-lo a se recuperar.  

Ele passa a mão na minha bochecha com ternura.  

— Você tá certa, eu só não quero que mude nada entre nós dois, nunca.

Eu procuro os seus olhos.  

— Não vai, eu prometo.

Acordo PerigosoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora