61 - Destruído

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                         Devon

— Não conseguimos salvar a bebê, infelizmente ela teve um aborto. Quando chegou aqui, já estava perdendo a bebê... — a médica diz, mas parece que o mundo ao redor se transformou em cinzas. Eu mal consigo respirar e absorver as palavras que essa médica lançou no ar como uma bomba, como se suas palavras não estivessem mutilando a minha carne.

— Não... — o sussurro é tão baixo e quebrado, mas a vontade que eu tenho é de gritar e quebrar a primeira coisa que eu vejo na frente.

Sinto minhas pernas fraquejarem. Eu perdi a minha bebê, eu a perdi, e o peso disso é sufocante. Eu nunca vou saber como ela seria, nunca irei saber como é o seu rostinho, os seus olhos. Eu nunca vou segurá-la nos braços, nunca ouvirei ela dizer "papai" pela primeira vez. Eu nunca vou vê-la dar os primeiros passos. Eu nunca vou conhecê-la... ela se foi... tão rápido, como se não tivéssemos planejado uma vida inteira para ela.

— E Nicole? — consigo perguntar, minha voz fraca, as lágrimas queimam o meu rosto.

— Ela está estável, mas está sedada no momento. Quando ela acordar, você poderá vê-la — diz com gentileza, algo que deve dizer para milhares de pessoas em uma situação como essa. O peso da pena e compaixão só me faz acreditar que isso realmente é verdade e não um pesadelo. Sinto ela apertar o meu ombro antes de sair. Estou paralisado com a dor.

Eu não sei o que devo sentir nesse momento, se não despedaçado, quebrado de todas as maneiras possíveis e, principalmente, culpado por tudo isso.

— Isso foi sua culpa, a bebê morreu por sua causa — Álvaro aparece na minha frente, cheio de raiva. — Você é o responsável por isso — acusa, e eu não estou com cabeça nem disposição para brigar com esse cara. Estou exausto de tudo, acabei de perder a minha filha e ele acha que eu queria mesmo que isso acontecesse? Que eu queria que a minha filha morresse? Preferia mil vezes que eu tivesse morrido no lugar dela. — Vai, fala alguma coisa. — Insisti, avançando para cima de mim, puxando a minha camisa, querendo iniciar uma briga. Eu empurro, cheio de raiva, ódio e dor. Não quero brigar, não quero falar, só quero ficar sozinho.

Saio de lá, indo para a área do jardim do hospital, sentando-me em um banco, com as mãos no rosto, permitindo-me martirizar por ter sido tão incompetente, por não conseguir proteger nenhuma das duas. Nem me importo com as lágrimas que descem no meu rosto. Parece que há um enorme buraco na minha alma, uma ferida aberta que nunca vai cicatrizar. Penso em como Nicole vai ficar quando acordar e perceber que na sua barriga não tem mais a nossa filha e o ódio que vai sentir por mim.

                                  ◇

— Ela já tá acordada? — pergunto à médica assim que a encontro, quando finalmente tomo coragem para entrar de novo no hospital. Álvaro não está mais aqui e mentalmente agradeço por isso.

Tentei me recompor e aparentar ser forte quando encontrar Nicole, embora eu esteja tão destruído por dentro. Não sei se vou conseguir buscar força de onde não tenho, e olhá-la nos olhos parte de mim se sente um pouco ressentido de como ela fugiu de mim antes da tragédia acontecer, e outra parte se preocupa com o quanto vai ser terrivelmente doloroso saber o quanto vai me culpar, e com toda razão do mundo.

— Sim, ela acordou e já sabe o que aconteceu — minha mão passa pela testa e respiro fundo, não sei se estou pronto pra isso. — A sua esposa sofreu danos internos e receio que não poderá ter mais filhos... — diz com um tom hesitante. Engulo o nó na garganta, encarando-a com aflição.

Acordo PerigosoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora