67 - Recomeço

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                   2 anos depois

Nova Iorque é uma cidade perfeita. É como falam: as pessoas estão sempre correndo para que os escritórios para trabalharem. É muito agitada e bem movimentada, mas até que eu gosto disso; me faz pensar que o mundo não parou e que eu ainda posso dar um passo adiante. Mudei-me para cá há um ano, depois do que aconteceu com a minha vida, depois que Devon morreu… naquela explosão. Levou muito tempo para eu aceitar que ele realmente tinha partido. Devon já não estava entre nós, e eu queria morrer. Já tinha perdido tudo o que me restava, e o que mais sobrava, se não dor, era esse buraco no peito que tinha ficado maior a cada dia: uma ferida que nunca se cicatrizava. Em meio ao meu estado deprimente, lembrei-me do que ele disse: que não queria que eu morresse.

Estar naquele estado, chorando em uma cama por dias e me afundando, não era algo que ele ia querer. Com quase três meses afundado no abismo, tomei a força necessária para ajeitar a minha vida e buscar um rumo.

Sair para o mundo e, quando o encontrei, surpreendi-me com tantas coisas que tinha perdido. A empresa dos Montenegros faliu, sendo alvo de investigações constantes. Isso fez com que seu capital diminuísse gravemente. A família de Devon foi alvo de investigações da Interpol e não teve como escapar da prisão, com tudo que descobriram. A senhora Montenegro ainda me odeia, e isso nunca vai mudar. Encontraram ela e Greta amarradas na mansão, vivas. Greta sofreu muito com a perda do filho, assim como a senhora Montenegro também, mesmo com todo seu jeito. Todos nós tentamos levar nossas vidas depois da tragédia que aconteceu, cada um do seu jeito.

Comecei a procurar emprego e consegui trabalho em uma ótima empresa. Adotei a Diana finalmente e comecei a estudar para conseguir uma bolsa de estudos em Nova Iorque. Queria mudar de lugar, um novo recomeço. Enfim, depois que todo o processo da adoção terminou, eu pude me mudar com ela, e foi o que fiz. Acho que a Diana me deu toda a força que eu precisava naquele momento tão difícil.

Vim para essa cidade e tem sido um ótimo recomeço. É claro que ainda há uma cicatriz no meu peito que nunca irá sair, e sim, às vezes à noite penso nele e choro. Eu perdi muitas coisas na vida, mas de longe, perder ele foi um baque difícil de superar. Mas a vida segue, querendo ou não. Eu só queria que ele estivesse comigo. Mas agora eu tenho a Diana, e ela é a minha filha. Eu a amo e faria qualquer coisa por essa garotinha.

Estar no orfanato me ajudou a enxergar as coisas de outro modo. Estar com aquelas crianças cheias de traumas e tão pequenas, precisando de amor, me fez querer acolhê-las e entendê-las para entender a mim mesmo. Por isso, agora faço psicopedagogia na universidade de Nova Iorque. Eu gosto de crianças e talvez esse seja o meu jeito de ajudá-las e a mim mesmo. Acho que trabalhar em um escritório me fez perceber que a advocacia não é minha vocação. Nunca é tarde ou cedo para descobrir o que se quer.

Nunca é tarde também para descobrir todos os segredos que rodeavam a minha vida. Alguns meses atrás, tomei coragem de ligar para minha mãe e perguntei por que ela foi embora, se ela sabia sobre meu pai estar envolvido com coisas erradas. Sua resposta me preencheu de desilusão: ela sabia tudo sobre meu pai, disse que os dois nunca tiveram nada sério e que eles não eram apaixonados (coisa que, obviamente, nunca passou pela minha cabeça). Quando ficou grávida dele, ficou com medo de que ele a prendesse a ele, já que era um homem perigoso e o sonho dele era ser pai. Ela nunca teve vontade de ser mãe, e eu fui um acidente (nenhuma novidade), o acidente que a manteve com ele por longos meses.  Então, quando nasci e meu pai não estava por perto, eu ainda era uma recém-nascida, ela foi embora no mesmo dia em que nasci (história pior do que pensei) e nunca mais apareceu até o meu aniversário de 8 anos, porque sentiu vontade de me ver. Disse que só olharia mesmo, mas tomou coragem de falar com meu pai, que ficou com medo dela me tirar dele. No entanto, ela nunca teria essa coragem, visto que ele matava todos os seres que cruzavam o seu caminho. Ele deixou ela me ver, mas depois sumiu e nunca mais voltou. E foi isso a sua grande história.

Acordo PerigosoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora