63 - Precipício

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Respirar dói.  

É como se cada centímetro do meu corpo tivesse sido queimado com ferro, embora o meu corpo esteja bem. Bem?  

Eu não aguento mais chorar. Não sei como ainda existem lágrimas nos meus olhos. Quando não estou chorando, estou dormindo, e quando acordo, é com lágrimas escorrendo dos meus olhos.  

Eu me sinto como se tivesse sido partida ao meio, como se viver doesse muito. Ao mesmo tempo, um vazio enorme atravessa o meu corpo, um abismo do qual eu mesmo me joguei.
 
O mundo parece escuro e sem sentido algum.  

E a culpa me consome tanto que parece que se tornou uma parte de mim. De repente, não há por que sair do quarto ou comer; todas essas coisas parecem tão banais, e encolher-se em uma cama parece ser o melhor jeito de amenizar a dor.

Assim, sinto que não estou viva, apenas existindo.  

A culpa é a pior. Não consigo fechar os meus olhos e, quando os fecho, os últimos dias atravessam a minha mente como uma avalanche de tristeza.

Todos os "ses" dançam na minha cabeça sobre o que eu deveria ter feito naquele maldito dia, quando fugi de Devon e perdi a minha bebê. Tudo piora quando olho para a minha barriga, vejo os pontos que me foram dados e piora ainda mais quando lembro que fui irresponsável. De repente, a dor parece algo aceitável para redimir o meu erro.

Três semanas, exatamente três semanas depois da desgraça acontecer, a única vontade que tenho é de desaparecer. Ela está tão grande que está difícil ignorar.

O meu corpo está emergindo na água, apenas minha cabeça está de fora, inclinada contra o apoio da banheira. Nem sei quanto tempo estou aqui, mas sei que deve ser muito tempo. Ouço uma batida desesperada na porta e sei que é Devon. Não consigo emitir nenhum som além de ficar encarando a água.

Não quero vê-lo, não quero muito menos que me veja nessa situação tão deprimente. Quando olho para ele, tudo o que sinto é culpa. Eu matei a nossa filha. Quando olho para ele, lembro do que aquele homem disse sobre ele, sobre as coisas que ele fez. Lembro que ele tem a ver com a morte do meu pai. Tudo se transforma em uma bola enorme de fogo pronta para nos queimar vivos. Não consigo ficar perto dele.

A porta se abre bruscamente. Não que eu tenha inclinado a cabeça para olhar, escuto somente.  

— Você não está ouvindo eu te chamar? Faz horas que você está nesse banheiro — a voz dele com certeza tem um tom nítido de preocupação e euforia. Talvez ele tenha pensado que eu estava tentando me matar. Escuto o som dos seus passos se aproximando. Logo, a sua sombra toma a minha frente. As mãos grandes de cada um dos meus lados dos ombros me sacudindo, me fazendo olhá-lo. Meus olhos opacos, sem brilho algum, a água do meu cabelo desliza sobre a minha testa. Eu quero gritar para ele ficar longe de mim, mas nem isso eu consigo. — Eu fiquei preocupado, pensando que estava fazendo alguma besteira. — Meus olhos encaram-no. O seu peito está agitado. Subo o olhar para os seus, a expressão de tormento toma o seu rosto e seu olhar. Abaixo dali, tem olheiras visíveis, os lábios curvados para baixo, as sobrancelhas franzidas. Desvio o olhar, abaixando a cabeça novamente. Um suspiro exaustivo sai da sua boca. Só quero que ele saia daqui. Doe demais só de olhá-lo.

— Eu estou tentando, sabia? — diz, abalado. Sua mão puxa o meu queixo com delicadeza, me analisando. Travo o maxilar. — Fala comigo, por favor — implora, desesperado, e isso parece quebrá-lo em mil pedaços. Como não digo nada, ele me puxa da banheira, me fazendo ficar em pé. Isso me faz franzir o rosto, a água caindo do meu corpo como uma cascata. Ele passa a toalha no meu corpo nu. — Já ficou nessa banheira demais — acrescenta, com um tom de repreensão. Seus braços passam por minhas pernas, me tirando de dentro da banheira, passando pela porta e me levando até a cama.  

Acordo PerigosoOnde histórias criam vida. Descubra agora