62 - Vazio

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                             Devon

O quarto está completamente vazio do jeito que Nicole pediu. Não joguei as coisas fora. Nunca teria coragem de fazer uma coisa dessas. Coloquei no sótão, onde ela não possa ver, não que ultimamente ela tenha visto muita coisa. Está isolada no quarto dela, já tem praticamente uma semana.

Deprimida, é isso que a resume: não sai do quarto, não quer comer e só chora e dorme. Não que eu tenha escutado ela chorar, mas os olhos vermelhos e as olheiras ao redor dos olhos a denunciam. E, para dizer a verdade, não estou tão diferente. A diferença é que eu tenho que ter postura e me erguer para matar aquele desgraçado, nem que seja a última coisa que eu faça na vida.

Minha cabeça está pesada e estou cansado. Não tenho dormido e mal toquei em comida. Mesmo assim, me preocupo com o estado de Nicole. Vê-la assim me faz sentir pior. O ruim é que ela não me quer por perto e me trata com frieza. Eu juro que tento de tudo para tentar, de algum jeito, consolá-la somente para tentar melhorá-la, mas não consigo.

Pelo menos eu estou tentando, mesmo que esteja tão arrasado quanto ela, mas não dá para ajudar uma pessoa que não quer minha ajuda, e isso dói pra caramba. 

Só hoje consegui tirar tudo do quarto de Alicia: os móveis, as roupinhas, o berço dela. Embora eu tenha relutado em tirar aquele urso grande do quarto, me senti mal.

Como alguém que eu nunca conheci pode fazer meu coração doer tanto assim?

Seguro a foto do ultrassom na minha mão, é pequena, e aliso o dedo sobre ela. Isso aqui não vou jogar fora.

Fecho a porta do quarto e dou passos hesitantes até a porta do quarto de Nicole. Está bem quieto. Minha mão se estende para pegar a maçaneta da porta, mas, quando faço isso, me detenho para não abrir. Dou meia volta e vou para o meu escritório, mais um dia me sentindo frustrado e com raiva.

Sento-me na cadeira e deixo a foto sobre a mesa, massageando o vinco que se forma entre as minhas sobrancelhas, respirando fundo. Solto um suspiro e encaro a tela do meu celular que está na mesa. Não sei quantas mil ligações da minha mãe e do meu pai. Eles devem saber o que aconteceu por causa de Ricky. As últimas que quero falar são eles três.

Eu e Ricky brigamos. Eu estava com raiva quando ele apareceu aqui e pensei sobre aquele plano que foi frustrado. Se aquela merda não tivesse sido interrompida e ele tivesse seguido com o plano, ao invés de obedecer ao meu pai, as coisas talvez tivessem dado certo e eu não teria que lidar com o fato de que não vou ter mais uma filha. Então, eu dei um soco nele, ou mais, e é isso. Ele não revidou, o que foi frustrante. Eu queria qualquer coisa, nem que fosse uma porra de uma surra, para aliviar a dor que eu estava sentindo no momento. Não importa quantas vezes eu pense no que poderia ter feito diferente, no fim, isso não vai fazer o tempo voltar e começar tudo de novo.

Pego o meu celular e digito o número de Greta. Hesito em fazer a ligação, mas penso em Nicole e engulo o meu orgulho. Talvez ela possa saber lidar com Nicole, ajuda ela a conversar, não sei, pelo menos fazer comer algo, porque é a única que posso pedir ajuda. Não gosto de ter que pedir isso pra ela, com todo o nosso histórico. Tudo o que queria era ficar longe dela, mas Nicole gosta muito dela. Talvez ela faça isso por mim.

Ligo e, no primeiro toque, ela atende.

— Devon? — sua voz tem um tom de surpresa e preocupação. Nunca ligo pra ela para absolutamente nada, até porque Greta era como uma empregada na casa em que eu morava, então a tratava como tal. Contar com ela era tipo zero, mas tinha o seu número para algum tipo de emergência ou para avisar algo, coisa que nunca acontecia.

Acordo PerigosoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora