Rebeca estava no quarto, concentrada na tela do laptop. As luzes suaves do abajur refletiam nas paredes, e o som abafado de risadas e conversas vinha do corredor, lembrando-a da presença vibrante dos companheiros de casa. Ela revisava pela última vez um relatório, mas não conseguia evitar que a mente vagasse para o passado. Sentia falta do jornalismo de campo — as ruas movimentadas, as entrevistas rápidas e intensas, o calor do momento. Ali, entre as paredes antigas da mansão, era como se tudo estivesse em uma dimensão própria, suspensa no tempo.
Um grito cortou o silêncio e a tirou de seus devaneios.
— Rebeca! Desça já para o jantar! — gritou Ellie, sua energia vibrante ecoando pelo corredor.
Rebeca riu sozinha, fechando o laptop e se levantando. Aquilo era típico de Ellie, chamá-la com a mesma intensidade de alguém convocando para uma missão urgente. Enquanto atravessava o corredor escuro e descia as escadas, sentiu o aroma reconfortante de ervas, alho e carne assada preenchendo o ar. Ao chegar à sala de jantar, o cenário a impressionou mais uma vez: a longa mesa de madeira polida, ladeada por cadeiras imponentes.
Todos estavam à mesa, como peças de um quebra-cabeça perfeitamente montado. Viktor estava na cabeceira, os dedos entrelaçados em uma postura firme, observando os outros com seu olhar atento. Mei, ao lado dele, estava impassível, mas seus olhos tinham aquele brilho sagaz, sempre atentos a qualquer brecha para uma provocação. Petal, que estava sentada mais à frente, sorriu calorosamente ao vê-la entrar, como se quisesse lembrá-la de que ela tinha aliados. Ellie estava ao lado de Dante, que, com seu jeito calmo e observador, parecia a âncora do grupo. Marcus e Finn ocupavam o outro extremo, e logo trocaram um olhar cúmplice, prontos para iniciar alguma brincadeira.
Assim que Rebeca se sentou, Mei a olhou de canto, o sorriso provocador surgindo lentamente em seus lábios.
— Trabalhando muito, Rebeca? — Mei perguntou, com um tom sutilmente zombeteiro. — Espero que isso não seja um problema… para alguém que mal consegue acompanhar a nossa rotina.
Rebeca revirou os olhos, mas respondeu com um leve sorriso, tentando se manter firme.
— Digamos que manter o ritmo de vocês é um pouco… intenso. Mas estou pegando o jeito — rebateu.
Petal riu, tentando aliviar a tensão no ar.
— Mei, pega leve. Rebeca tem feito um bom trabalho se adaptando. Além disso, todo mundo tem um ritmo próprio, certo?
Ellie também entrou na conversa, apoiando Rebeca.
— É verdade. Não é qualquer um que aguenta ficar por aqui no meio da bagunça — disse, sorrindo. — Inclusive, acho que Rebeca merece reconhecimento por não ter fugido até agora.
Isso foi o suficiente para que Marcus, com o humor sempre irreverente, pegasse a deixa.
— Olha, considerando tudo o que ela já teve que aturar, realmente merece uma medalha. Primeiro, um vampiro doente. Depois, uma bruxa teimosa. E o pior de tudo… — Ele fez uma pausa dramática, lançando um olhar zombeteiro para Mei. — Ter que ver a cara da Mei todo santo dia.
Mei ergueu uma sobrancelha, mantendo o rosto imperturbável, mas com os olhos brilhando em desafio.
— Ah, querido Marcus, você fala como se eu fosse o maior dos problemas aqui. Mas eu diria que ser parte da sua… família já é um grande desafio para qualquer um.
A mesa explodiu em risadas. Petal, tentando disfarçar, cobriu a boca com a mão, enquanto Finn mal conseguia conter o riso. Rebeca também riu, aproveitando aquele momento leve que tornava o ambiente menos formal, quase familiar.
Ellie, observando a reação de todos, se inclinou para frente com um brilho de ideia nos olhos.
— Já que o primeiro mês da Rebeca foi tão movimentado — começou ela —, que tal uma festa de boas-vindas?
Viktor, que havia escutado tudo em silêncio até então, assentiu com um leve sorriso, um traço de satisfação iluminando seus olhos escuros.
— Concordo. Uma festa será uma boa oportunidade para apresentar Rebeca ao restante do clã… e a alguns aliados. Claro, como minha noiva.
Ao ouvir isso, Rebeca sentiu o rosto aquecer. O olhar de Viktor se fixou no dela, intenso, e ela percebeu que não era uma brincadeira, mas uma decisão. Desde que Viktor a havia marcado, ela sabia que o vínculo entre eles era muito mais do que uma mera formalidade. A marca tornava Rebeca uma humana ligada a ele de maneira especial, algo que a colocava sob a proteção direta de Viktor e, inevitavelmente, a envolvia na complexa teia do submundo sobrenatural. Apresentá-la como noiva não era apenas um gesto simbólico, mas uma declaração pública de que ela fazia parte do clã e, principalmente, de que estava sob a tutela dele.
A mesa caiu em um breve silêncio, mas logo as trocas de olhares e sorrisos cúmplices se espalharam.
Petal foi a primeira a se manifestar, o sorriso acolhedor estampado no rosto.
— Essa será uma ótima apresentação, Rebeca. Não se preocupe, você vai impressionar todos.
Mei, sempre pronta para provocar, lançou um olhar calculado para Viktor.
— Uma noiva, hein? Interessante… Vamos ver se Rebeca está à altura do desafio de ser uma dama da alta sociedade do submundo.
Viktor manteve a compostura, mas lançou um olhar firme para Mei, que apenas riu suavemente, satisfeita com a pequena provocação.
— Para que não restem dúvidas, Mei — Viktor disse com calma —, você será responsável por organizar tudo. Os eventos de alta sociedade são seu ponto forte, certo?
— Muito bem, então — Mei sorriu, satisfeita. — Tenho certeza de que a festa estará impecável até sábado.
Viktor olhou para Rebeca, com um toque de seriedade, e avisou:
— Isso significa que você tem poucos dias para aprender sobre etiqueta do submundo. Iremos ajudar você, é claro.
Ellie, inclinando-se para Rebeca, sussurrou:
— Não se preocupe, vai ser divertido.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Marked by Shadow
FantasíaApós ouvir rumores sobre um bar misterioso onde as sombras da sociedade se reúnem, a destemida jornalista Rebeca segue sua curiosidade até o coração do French Quarter, em Nova Orleans. Lá, ela cruza o caminho de Viktor, um vampiro enigmático com uma...
