O silêncio na mansão parecia mais denso à noite, como se as paredes antigas carregassem ecos das histórias que abrigaram. O som distante do vento assobiava por entre as árvores lá fora, enquanto Rebeca descia os degraus com passos cautelosos. A madeira sob seus pés rangia levemente, um contraste ao mármore frio do hall principal. O ar era levemente perfumado, com notas de madeira e algo doce que não conseguia identificar, talvez o aroma do vinho que Viktor sempre preferia.
Ao entrar na sala de jantar, foi recebida por um cenário que parecia saído de outra época. A luz do candelabro de ferro fundido pendia sobre a mesa, suas chamas tremeluzindo e projetando sombras que dançavam nas paredes de pedra. A mesa era mais longa do que deveria ser para apenas dois, mas Viktor estava ali, já sentado à cabeceira, em uma postura que parecia tão casual quanto calculada.
Ele ergueu os olhos ao vê-la e sorriu, aquele sorriso discreto que sempre a fazia sentir que estava sendo lida como um livro aberto.
— Parece que esta noite será apenas nós — disse ele, a voz baixa e envolvente, como uma melodia sutil.
Rebeca aproximou-se, sentindo os músculos tensos começarem a relaxar diante da atmosfera acolhedora, mas ainda sentia um leve nervosismo. Sentou-se à sua direita, os olhos captando os detalhes da mesa: o brilho do metal dos talheres, o cristal impecável das taças, o vapor delicado que subia do prato preparado para ela.
— E os outros?
— Exaustos — Viktor respondeu, com um gesto leve de mão. — Não tiveram energia para sair de seus quartos.
Rebeca sorriu levemente, mas não perdeu a oportunidade de provocar.
— E Mei? Achei que ela fosse mais resistente.
Ele riu suavemente, o som ecoando pelo espaço vazio como um toque reconfortante.
— Mei decidiu fazer companhia a Petal esta noite. Parece que algo na conversa delas era mais importante do que meu jantar.
Ela riu junto com ele, mas o som morreu rápido. Sentia-se estranhamente consciente de quão raro era esse momento. Segurou a taça de vinho que Viktor havia servido, girando-a levemente entre os dedos antes de falar, a voz saindo hesitante:
— Acho que nunca ficamos realmente sozinhos assim antes.
Os olhos de Viktor encontraram os dela, brilhando à luz das velas, uma expressão indecifrável se formando.
— Verdade. Não sei se você teria gostado de estar sozinha comigo antes.
Ela arqueou uma sobrancelha, a curiosidade tingindo o tom de sua voz.
— Por quê?
Ele inclinou-se levemente para frente, os cotovelos apoiados na mesa, os dedos cruzados embaixo do queixo.
— Achei que você tivesse ressentimento por tudo o que aconteceu. Por ter arrancado você de sua vida, por te trazer para o meio desse caos.
Rebeca piscou, surpreendida pela franqueza. O peso das palavras dele reverberou nela
— Eu... — ela começou, procurando as palavras certas. — É claro que foi um choque. Minha vida era bem diferente antes, mais... simples. Mas não tenho ressentimento
Ele a estudou em silêncio, como se estivesse esperando que ela continuasse.
— Acho que ainda estou tentando entender tudo isso, mas, não te culpo
Um sorriso suave puxou os lábios dele, e Viktor se recostou na cadeira novamente.
— Isso é bom de ouvir. Porque, apesar de tudo, eu não mudaria minha decisão.
Rebeca engoliu em seco, sentindo o impacto daquelas palavras. Havia algo em sua honestidade que a fazia sentir um calor inesperado no peito, uma conexão que ela ainda não sabia nomear
O jantar prosseguiu com o mesmo ritmo tranquilo. Rebeca foi se soltando aos poucos, rindo das histórias que Viktor contou, muitas vezes envolvendo Marcus e suas travessuras. Viktor parecia satisfeito em vê-la relaxar, e, por um breve momento, ela sentiu que estava em um lugar seguro, mesmo no meio de um mundo tão perigoso e desconhecido.
Quando terminaram, Viktor se levantou primeiro, indo até ela e oferecendo sua mão para ajudá-la. O toque de seus dedos era firme, mas não invasivo, como um gesto calculado para demonstrar cuidado sem cruzar limites.
— Obrigado por me fazer companhia esta noite, Rebeca.
Ela sorriu, sentindo o coração ainda mais acelerado do que antes.
— Talvez eu tenha gostado mais do que esperava.
Os olhos dele brilharam novamente, e Viktor inclinou-se levemente para perto.
— Espero que isso aconteça mais vezes.
Rebeca desviou o olhar, tentando disfarçar o rubor que subia em suas bochechas. Mas, enquanto ele a acompanhava até a escadaria, sabia que a noite marcava o início de algo mais profundo entre eles.
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Marked by Shadow
FantasyApós ouvir rumores sobre um bar misterioso onde as sombras da sociedade se reúnem, a destemida jornalista Rebeca segue sua curiosidade até o coração do French Quarter, em Nova Orleans. Lá, ela cruza o caminho de Viktor, um vampiro enigmático com uma...
