49 - papéis, missões e como não surtar

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Rebeca se acomodou na poltrona de couro, sentindo o peso das pilhas de anotações e documentos que Mei havia deixado sobre a mesa. O ar na sala parecia mais espesso do que o habitual, como se o próprio ambiente estivesse esperando que ela tomasse alguma atitude. O sol da tarde fluía suavemente pelas janelas altas, lançando sombras alongadas nas paredes de madeira escura e contrastando com o brilho das prateleiras carregadas de livros e artefatos misteriosos. O cheiro de café fresco ainda se misturava ao aroma suave de flores e madeira, mas havia algo no ambiente que parecia mais carregado.

Mei estava sentada em uma cadeira próxima, seu olhar afiado fixo em Rebeca. Não havia pressa em suas palavras ou movimentos. Ela se permitia observar, apreciar o desconforto crescente da humana enquanto ela tentava se concentrar nas pilhas de papéis espalhados na mesa. O som suave da caneta de Rebeca riscando o papel parecia amplificado, preenchendo a sala com a quietude da tensão.

— Vamos ver se você consegue dar conta de tudo isso — disse Mei, sua voz baixa, quase divertida. Ela inclinou-se para frente, observando com uma atenção quase excessiva os movimentos de Rebeca, como se aguardasse um erro, uma falha. — Quem sabe você não encontra algo interessante no meio dessa bagunça.

Rebeca sentiu o peso das palavras, mas se forçou a manter o foco, ignorando a sensação incômoda de estar sendo observada o tempo todo. Ela tentava se concentrar nos documentos, mas não conseguia evitar o olhar constante de Mei, como uma pressão invisível sobre seus ombros. O ambiente parecia mais denso, e o cheiro de café fresco misturava-se com o sutil perfume floral e amadeirado de Mei, criando uma atmosfera quase sedutora, mas também inquietante.

— Isso aqui não é nada comparado ao que você vai enfrentar no campo, novata — continuou Mei, com um sorriso disfarçado de desafio. O tom desdenhoso de suas palavras estava ali, claro como o dia, e Rebeca sentiu um rubor involuntário subir às suas bochechas. — Mas você vai ver, talvez esse treino sirva para algo mais... prático. Vai ser bom ver até onde você vai conseguir ir.

A voz de Mei, tão calma e controlada, parecia um convite disfarçado de crítica. Rebeca queria responder, queria contestar, mas, em vez disso, se concentrou na caneta, no som suave do papel sendo riscado, tentando ignorar a tensão crescente que parecia envolver tudo ao seu redor.

Foi quando algo inesperado aconteceu. Entre as pilhas de papéis, seus olhos caíram sobre um documento que se destacava, não por ser mais novo, mas pela textura. Ele estava ligeiramente amarelado, as bordas irregulares, e o papel parecia quase frágil ao toque. Rebeca hesitou por um momento, mas a curiosidade a levou a tocá-lo. Seu coração deu um salto ao perceber o que estava ali escrito.

Era um documento de adoção, datado do século 17, e a assinatura que aparecia no final do texto era inconfundível. O nome de Petal estava ali, mas não como uma criança perdida no tempo, como ela imaginava.

Petal tinha sido adotada formalmente pela família Nightborne, com todos os direitos e formalidades que isso implicava. Rebeca engoliu em seco, tentando processar o que estava diante dela.

Ela sempre soube que Petal era próxima de Viktor, mas nunca imaginara que o termo "irmã adotiva" fosse mais do que uma expressão de carinho. Nunca imaginara que fosse tão literal. Viktor e Petal cresceram juntos, sim, mas a verdade era muito mais profunda do que ela poderia compreender até aquele momento. Uma verdadeira filha da família Nightborne. Uma exceção em meio a uma linhagem cheia de normas rígidas e preconceito. O choque percorreu cada fibra de seu corpo, o mundo parecia ter desacelerado por um momento.

O som do papel se movendo ecoou na sala, mas Rebeca não conseguiu desviar os olhos do documento. Ela ficou ali, imóvel, tentando entender o peso da descoberta, quando algo chamou sua atenção. O sobrenome de Viktor estava no documento, e agora, com o contexto da adoção, isso a fez questionar ainda mais tudo o que sabia sobre a família dele.

Marked by ShadowHistórias para pegar e não largar. Descubra agora