3- A arte de sobrevivêr com estranhos: dicas de convivência forçada

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Rebeca despertou lentamente, o corpo pesado e a mente envolta em um nevoeiro denso.

Sentiu um travesseiro macio sob a cabeça e um cobertor quente sobre o corpo. Abriu os olhos, piscando algumas vezes, enquanto tentava entender onde estava. A luz suave que filtrava-se por cortinas pesadas tingia o quarto de um tom dourado, mas a decoração era estranha, um tanto antiquada. Mobílias de madeira esculpida, tapeçarias gastas, uma mesa cheia de frascos de vidro e... símbolos? Símbolos que pareciam vibrar com uma energia desconhecida.

Ela ficou ali, olhando ao redor, tentando organizar seus pensamentos, enquanto a memória da noite anterior começava a se recompor em sua mente: o bar, Viktor, o beijo. E aquela sensação... algo que parecia uma onda de calor intenso correndo pelo seu corpo.

"Eu bebi demais?", pensou. Mas logo descartou a ideia. A sensação que sentiu não era comum, era intensa demais, desconcertante demais para ser apenas um efeito de álcool.

De repente, o som suave de passos a tirou de seu devaneio. Uma mulher entrou no quarto, movendo-se como se estivesse deslizando. Era Petal, a mulher que vira na noite anterior, agora com um ar bem mais sério e cauteloso. Os olhos de Petal encontraram os de Rebeca, e ela deu um pequeno sorriso.

- Finalmente acordada, - disse ela, em um tom tranquilizador, como quem lida com alguém frágil. - Não se assuste. Você está em um lugar seguro, embora, eu imagino, não muito familiar.

Rebeca sentou-se lentamente, a mente ainda embaralhada. Tantas perguntas começaram a se atropelar em sua mente, mas as palavras pareciam não sair.

- O que... o que está acontecendo? - balbuciou, sentindo a voz trêmula.

Petal puxou uma cadeira para mais perto da cama e sentou-se, os olhos castanhos brilhando de uma forma quase hipnótica.

- Vamos por partes, - ela respondeu, mantendo um tom suave. - Sei que está confusa, e você tem todo o direito de estar. Ontem à noite, quando você encontrou Viktor, algo... inesperado aconteceu.

Rebeca engoliu em seco, lembrando-se do beijo. Sentiu o rosto corar, mas também uma pontada de angústia.

- O Viktor... ele... - começou, sem saber como terminar a frase.

Petal assentiu, compreendendo o que ela tentava dizer.

- O beijo de Viktor deixou uma marca em você. - disse ela, cuidadosamente escolhendo as palavras. - Essa marca conecta você ao nosso mundo. acredito que você já suspeitava que existia, mas nunca teve certeza.

Rebeca encarou Petal, o coração batendo forte. "Nosso mundo?" Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Será que realmente...?

- E... o que isso significa? - perguntou, hesitante, tentando não parecer apavorada. - Quero dizer, eu... eu só fui naquele bar porque ouvi rumores... era só curiosidade. Eu não sabia que...

Petal sorriu, mas dessa vez seu sorriso era quase triste.

- Curiosidade é uma porta para lugares que às vezes preferimos não conhecer. - respondeu, repetindo com mais intensidade. - Você foi levada ao bar por algo mais profundo, Rebeca. A intuição humana tem um poder raro, e, no seu caso, foi forte o bastante para trazê-la até nós.

Marked by ShadowOnde histórias criam vida. Descubra agora