29 - Fogo e Água

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O tempo passava em câmera lenta enquanto Alan me guiava pela delegacia, as luzes brancas e fortes machucando os meus olhos. Com as mãos algemadas à frente do corpo, devolvi os olhares acusatórios dos policiais, notando o ressentimento evidente, como se eu tivesse feito algo diretamente contra eles.

Olhei ao redor, percebendo que, mesmo com a delegacia lotada de detidos, eu recebia atenção demais.

Ahh, claro. Eles me conhecem por causa da Hanna.

Eu era -segundo os jornais- a estrangeira que "solucionou" o sequestro de Hanna Donfort e o caso da Jennifer Hansen, apenas com o celular, para o constrangimento de todo o departamento de polícia de Duskwood.

— Cadê seu celular? — Alan perguntou, selando um saquinho com os meus pertences -brincos, anel, chaves...

— Perdi na briga, eu acho.

Ele então apontou para uma marca no chão em frente a uma parede listrada. Fui até lá, segurando a plaquinha que Alan me entregou e ouvi o click! da câmera ao capturar o meu mugshot.

Assinei um termo sem me importar em ler e deixei que ele me conduzisse até a cela minúscula e claustrofóbica.

— Quanto tempo vou ficar aqui? — perguntei enquanto Alan soltava as algemas dos meus pulsos.

— Tem dinheiro para fiança?

— Tenho cara de quem tem dinheiro? Nem emprego eu tenho... — Resmunguei, ouvindo o som do metal quando Alan trancou a cela.

— Então deixa pra pensar nisso quando amanhecer. — ele disse, desaparecendo de vista.

Me virei para o interior da cela. As paredes, de um branco amarronzado pelo pó e pela sujeira, pareciam querer engolir a cama retrátil, fina e leve. Sentei devagar, com medo de que ela despencasse. Estava tentada a usar o vaso sanitário que estava logo ao lado, mas decidi segurar até a delegacia estar mais calma.

Sem privacidade nenhuma. Cadê os direitos humanos?

Roendo as unhas, me deitei com os joelhos dobrados para que pudesse caber inteira na "cama". Fechei os olhos para acalmar a mente, deixando o cansaço se assentar de vez. Aos poucos, o falatório do lado de fora foi ficando cada vez mais claro: pais dando bronca nos filhos por usar identidade falsa para frequentar o Aurora; um ou outro usuário pego com "produto" demais e até um casal acusado de indecência pública.

O Alan anda sem o que fazer... Esse fuzuê todo por nossa causa no Aurora?

Abri os olhos, reparando no teto cheio de traças. Algo escrito bem pequeno acima da minha cabeça chamou minha atenção:

Hawkins esteve aqui.

— Huh. — ajeitei o pescoço, usando o meu braço de travesseiro, e logo me encolhi, de lado, com a testa encostada na parede. Queria que o frio me despertasse da letargia e do vazio.

Está tudo "calmo", então não pegaram o Jake... Eu odiaria se ele fosse pego por minha causa. Não quero mais inimigos como--

Mal concluí o pensamento e um silêncio súbito tomou conta da delegacia. Ao longe, ouvi um oficial dizendo:

— Não tá em horário de visita, rapaz...

— Deixa ele passar. Quero ver isso. — Era a voz de Alan?

Fiz uma conha com a mão ao redor da orelha, sem saber se o som que ouvia era o murmúrio de várias pessoas cochichando ou meu ouvido ficando ruim. Um frio subiu pela minha espinha quando consegui distinguir os passos de aproximando, calmos e arrastados.

Noite com Ele - DuskwoodHistórias para pegar e não largar. Descubra agora