Às vezes sinto falta de fumar.
Principalmente quando tenho que esperar alguma coisa.
Era fim de tarde e a neblina ainda não tinha descido até Colville. Eu estava sentado na minha Yamaha, de costas para o apartamento, olhando para a rua enquanto Maya não descia.
Eu não quis subir dessa vez.
Me arrependi. Mais ou menos-- Devia ter subido, batido na porta e perguntado se ele ia demorar muito pra devolver ela. Mas me contentei com uma olhada para o portão e um fiapo de dignidade.
Um grupo de adolescentes estava parado na entrada de um beco, berrando, rindo ou brigando. Aquela altura era até difícil de dizer. Um deles, uma das três meninas do grupo, estava mais de canto, com aquele sorriso ansioso, metade feliz, metade autoconsciente demais pra aproveitar o momento.
Essa era a Jessy. Sempre foi. E eu, — ou a minha versão adolescente — Não estava lá. Eu era só um pouco mais velho que ela, mas ainda assim... Eu deveria ter estado lá.
Sendo minha irmã mais nova, era claro que ela me fazia passar vergonha. Não por dizer ou fazer algo errado, mas só a presença dela já fazia eu me sentir estranho. A lembrança de cuidar dela quando a nossa mãe brigava com o pai dela ainda me atingia de vez em quando: Eu fazia vozes engraçadas com um boneco velho pra distrair ela... Não sabia bem o que fazer, mas era o que dava pra inventar.
Fiz tudo pra que nós dois déssemos o menor trabalho possível.A gente meio que se escondia junto. Eu inventava regras, ela nem sempre obedecia. Mas tentava. Eu pensava que, se nós fôssemos invisíveis, talvez eles não brigassem o tempo todo.
Eu não me lembrava muito do meu pai. Via ele pouco. A Jessy nasceu antes que a minha mãe e o pai dela morassem juntos. Não foi de todo ruim no começo.
A Ângela era mais velha do que eu, e eu achava o máximo que dessa vez, eu ia ser o irmão mais velho. Mas então o Joel decidiu vir morar com a gente.
Ele ignorava a Ângela. Gostava da Jessy.
Eu? Ele me detestava.
Eu sentia no ar. No jeito que ele falava. Como cada palavra dele pra mim era uma crítica disfarçada. O olhar torto. Era como se ele nem me enxergasse... Quando fiquei mais velho eu entendi: ele olhava pra mim e via o meu pai.
Mas pelo menos ele amava a minha mãe. Tanto que ela achou um bom negócio abandonar a gente com a minha avó, pra recomeçar com ele.
No começo, eles visitavam a cada quinze dias. Depois, uma vez no mês. Depois, uma no ano.
Depois de dois anos com a nossa avó, não os vimos mais.
Acho que foi aí que comecei a ver o Joel na Jessy.
Não era culpa dela, mas até o jeito que ela respirava me irritava às vezes. Como ela tentava se aproximar, daquele jeito pegajoso. Como às vezes eu era proibido de entrar no quarto que a gente dividia, porque ela trazia amigas em casa e ficava lá, horas a fio e minha avó detestava a ideia de um menino rodeado de meninas num quarto.
Justo.
Essas coisas pequenas foram me cansando, de pouco a pouco. Sem eu perceber.
De repente, a nossa avó morreu, e aquele buraco entre nós três — A Ângela também não aparecia quase nunca. — só aumentou.
Que demora. Vou ficar velho esperando essa mulher.
Subi o punho da luva de couro e olhei as horas.
Ela com certeza vai perguntar.
Eu devia ter colocado faixas nas duas mãos, como aquelas que o esquisito usa quando bate punheta demais ou sei lá o quê. Ela estranharia menos do que luvas. Mas não tive tempo de pensar num disfarce melhor, então peguei aquele par de couro velho e surrado, que não usava há anos.
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Noite com Ele - Duskwood
FanfictionEla só queria uma noite. Depois de tudo, a MC finalmente encontra Jake cara-a-cara - e o plano era simples: uma noite tranquila no Aurora. Mas as coisas não ficam simples por muito tempo. Entre conversas atravessadas, silêncios pesados e uma química...
