Acordei de novo com o rosto colado ao chão empoeirado e áspero, mas dessa vez não era o reformatório... Se eu tivesse me dado um segundo sequer pra raciocinar antes de levantar de repente, desesperado e confuso, teria voltado a realidade mais rápido.
— Quanto tempo?? Onde eu--? — As palavras serviam mais para criar alguma ilusão de controle. O par de Adidas branco ainda guardava a porta, então me toquei que não havia muita coisa que eu pudesse fazer.
— Você não pode sair ainda. — Jessica estava com as mãos para trás do corpo, firmemente apoiada na fresta da porta.
Então não foi um sonho como os que tive nos últimos dias, sempre que não conseguia mais manter as pálpebras abertas; O localizador de Maya realmente deu sinal de vida. Estável, claro, brilhando na tela e nos interrompendo quando David e eu roubávamos a identidade de William e plantamos uma denúncia para que a Interpol interceptasse cada um dos pontos acusando uso anormal de Jammers nos três distritos.
Precisamos de eficiência e precisão, e o governo trabalharia para nós no resgate de Maya enquanto acreditava estar no caminho da minha execução.
Mas tudo pareceu pequeno e sem importância quando aquele brilho voltou. Larguei tudo no mesmo instante. A Cachoeira! Ela está perto da Cachoeira! Sai da casa de Helena — a avó há muito falecida de Phil — com os gritos e puxões de Phil, David e Jessica soando distantes e sem força no fundo da minha mente enquanto tentavam me impedir de agir sem pensar... Nenhum deles conseguiu arranhar a superfície antes que eu alcançasse a Rocket.
Até que Phil surgiu na minha frente, antes que eu pudesse acelerar. Depois disso, não vi mais nada.
— Acabou. Meu irmão já está com ela. Você apagou faz algumas horas.
Aquela frase pareceu um conjunto de palavras mágicas... Algo que tirou toneladas das minhas costas e o substituiu por uma carga insuportável de alívio.
— Como ela está? A Maya vai saber o que dizer para aliviar a pressão da interpol sobre ela, tenho certeza. Já conversamos sobre isso antes... — Meu olho latejava e tudo estava fora de foco, vermelho. Phil havia atacado o mesmo lado machucado de antes.
Estranhei o silêncio dela, e foquei no rosto inchado, vermelho. Séria demais pra quem recebeu uma boa notícia, talvez.
— Jessica... Como-- como ela está?
— O que aconteceu de verdade? Com o Richy?
Não havia me preparado para aquela pergunta. Queria dizer que o mesmo tinha acontecido com Maya?
— Sem rodeios. — Eu disse, mas logo percebi que não tinha paciência para continuar pedindo informações para a irmã de Phil... Irmã essa que não sabia nada sobre mim, mas achava que sabia. Então me virei para a janela de madeira atrás de mim e tentei empurrar o fecho de cobre opaco.
— O Phil travou por fora. O único jeito de sair é pela porta.
— Se você não vai me dizer... —Tateei meus bolsos, olhei sobre a cama e embaixo dela. Meu notebook e celular estavam fora de vista. — ... sai da frente.
Mas fora ter erguido o queixo, ela não se moveu.
— Jessica... — O quarto já era pequeno demais; dois passos e eu já estaria mais perto dela do que gostaria.
— Você sabe que o Phil ama a Maya. De verdade. e ela... Se você não tivesse voltado, ela admitiria que ama ele. Você sabe disso, não é?
— Eu não me importo. — O quarto já era pequeno demais; dois passos e eu já estaria mais perto de Jessica do gostaria. — Isso é sobre você e o seu psicopata, não sobre a Maya. Porque não admite isso?
Ela engoliu seco, os olhos castanhos brilhando enquanto ela tentava reprimir as lágrimas... fossem de tristeza ou raiva...
— Psicopata? O Richy nunca matou ninguém! Pega a sua identidade nova, William... e some de uma vez.
— Eu vou. Mas vou levar a Maya. E o seu irmão também.
— O... Que?
— Ele vai estar seguro com a gente. Eu prometo.
— Do que você tá falando?? — Jessica quase riu, mas de escárnio. — Você não consegue manter ninguém seguro, pelo contrário! Mataram mesmo o cara, entendeu? O William de verdade? Está morto! E foi você!
— Tecnicamente, a ideia foi do Phil.
— Mas-- Não importa!
— Eu não tenho tempo pra isso. Eu matei o Richy, matei o william, e é tudo culpa minha. É isso que voce quer escutar?
— O que você fez com o corpo? — Jessica rosnou com a voz esganiçada, forçada. — O que vocês fizeram?
A máscara agressiva começava a escorregar, e me senti mal com aquilo. Eu sabia como ela era tranquila, dócil e maternal com Maya. Sabia que aquela na minha frente era uma versão fragmentada e acuada dela.
"Vamos dizer que enterramos em um lugar legal... Algum lugar que ela possa visitar e seja bonito." Phil me disse aquele dia.
— Na floresta. Bem fundo na floresta tem uma clareira... — e a parte que pensei, mas não disse: ...onde deixamos pedaços para que os animais comessem. Eu me lembrava pouco daquela noite. Muito pouco. Estávamos exaustos, de ressaca, sob efeito de remédios... eu e Phil estávamos, disso eu lembrava. Embora eu ache que nem ele nem Maya tinham notado em mim. Mas a sensação ainda estava presa no fundo da minha garganta... O cheiro, o choque de lidar tão perto com uma morte terrível. — Nós-- enterramos ele por lá.
— Nem tenta mentir pra mim, Jake. Você mente tão mal que dá vergonha alheia! — Ela franziu o nariz. — Eu conheço a Maya. Já encontraram dois corpos na floresta, ela não deixaria você simplesmente enterrar um terceiro la. E você disse que não sobrou nada pra voltar, lembra? Meus deus... você acha que eu sou burra?
Não à toa elas são amigas...
Pressionei meu ombro e soltei um suspiro.
Deve ter um jeito mais delicado de falar... de contar tudo isso. Ela é irmã do Phil, não quero ser bruto de novo...
— Fizemos um... enterro. Enterro tibetano.
— Na minha língua, Jake!
— Demos ele para aves e... Abutres e outros animais da floresta. Ele faz parte da floresta agora. — tentei gesticular, mas o gesto saiu artificial e forçado.
Jessica piscou, apertou os lábios e desviou o olhar.
— Como você matou ele? — Outra pergunta inesperada.
— Foi rápido.
— COMO?
Seria convincente se eu dissesse que fiz igual a Maya?? Talvez não... melhor...
— Não foi você. — Jessica interrompeu meu raciocínio. — Eu sabia... Foi ela, não é? Você nem aparece nas gravações, como você chegou no lugar bem na hora? E ela simplesmente deixou acontecer? Não... A Maya matou o Richy!
Jessica cobriu a boca, abraçou o próprio estômago e começou a chorar, arrastando as costas pela porta até se sentar no chão, soluçando.
— Eu não entendo... — Dei um passo na direção dela e me agachei para olhá-la nos olhos. — Sinto muito. Não sei o que fazer ou dizer pra você. Perdão por ter dado a noticia da forma que fiz.
— A Maya está em cirurgia. — Jessica quase cuspiu. — Aquela coisa ridícula que você deu pra ela ficou alojada no estômago ninguém sabe como e causou uma infecção. Ela não comeu por dias e ta muito fraca. O Phil disse pra não te contar ainda. Mas é grave. Ela ta péssima.
E o mundo perdeu a cor de novo... Não, desabou. Bem na minha frente.
Jessica continuou:
— Pronto. Estamos quites!
Jessica saiu da frente da porta, mas eu continuei ali, congelado, derrotado.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Noite com Ele - Duskwood
FanfictionEla só queria uma noite. Depois de tudo, a MC finalmente encontra Jake cara-a-cara - e o plano era simples: uma noite tranquila no Aurora. Mas as coisas não ficam simples por muito tempo. Entre conversas atravessadas, silêncios pesados e uma química...
