78 - Cassandra

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Quando eu contar sobre essa noite para Jake e Phil, eu pensei, provavelmente vou querer esconder o meu objetivo mais urgente: queria poder dizer que agora eu quero escapar daqui com a ajuda dela... Implorar por algum pingo de empatia ou até prometer o que ela quiser em trocar de ajuda pra voltar pra casa., porque--ué, e a coisa "certa".

Mas na real, minha linha de raciocínio é outra: tô medindo riscos.

Com ela aqui... Não tem como ser igual. Não é como se livrar de um estranho qualquer que me sequestrou, ou de alguém odiado como Richy era.

Millie é empregada do Phil... Com um círculo de amigos... Uma mãe que eu conheço. Com quem eu já tinha falado e visitado a casa.

Como vou me livrar dela sem consequências pra mim? Não quero investigação nenhuma depois de sair daqui.

William e Millie tinham que desaparecer, como Richy desapareceu.

Com uma investigação, eu chamaria atenção demais para conseguir fugir com o Jake. Se ele não chamou a polícia, como William disse, talvez algum plano que eu não entenda esteja em andamento... Mas eles não sabem sobre a Millie!

Tem que ser limpo... rápido.

Mas ao mesmo tempo, meu corpo grita a cada pontada no estômago, a cada momento que eu apago de repente, sem saber se dormi ou desmaiei no quartinho escuro; não tenho tempo de resolver do jeito certo. Logo vou ficar fraca demais até pra raciocinar, pior ainda me defender.

Já era tão difícil me concentrar e não me perder nos sonhos preenchidos pelo calor do sol morno e dourado, ou pelo desejo de ouvir qualquer barulho que fosse; até o terror da cachoeira parecia melhor que aquele canto escuro absolutamente vazio do mundo, onde só a dor física me lembrava que eu existia no mundo real.

Mas não quis pensar nos dois; nem em Jake, nem em Phil. Eu tinha medo de pensar demais nos dois e ficar mais fraca do que já estava; triste e com medo.

Ao invés,  preferia pensar nesse outro par: Millie e William.

E como quebrar o pouco de confiança que eles tinham entre si.

Um tap-tap-tap leve e rápido soou das escadas. Era a vez de Millie descer no meu mundinho de dois metros quadrados e me jogar um croissant ou outro tipo de pão, fechar a porta de ferro com pressa, quase como se esperasse levar uma mordida.

— Ele vai matar você. — Eu murmurei, sentada bem ao lado da fresta da porta.

Ela pulou de susto e bateu a porta com força, sem jogar o saco de papel com a comida. Mas como não ouvi passos subindo, continuei:

— Ele não sabe porquê o David apareceu no Blindspot... Mas eu sei.

Ela tentou disfarçar, mas a respiração acelerada batia contra a máscara de Guy Fawkes, soando alta nos meus ouvidos acostumados ao silêncio. Millie então engoliu seco, e forçou uma voz grossa e patética.

— Não sei do que você está falando.

— Não tem problema. — Encostei a boca na fresta de ferro. — Ele vai saber. Acho que eu só tô aqui porque estamos chegando perto, sabe? Com o tempo livre, eu fico pensando no HD. Quando conseguirmos o dinheiro... não tem pra quê dividir com alguém que atrapalhou quando assim que teve a chance.

— Queria ajudar o Phil. Você devia me agradecer. Ele tá bem por minha causa. — Ela decidiu parar de forçar a voz.

Senti meus dentes rangendo. — Obrigada, de verdade.

Ela amassou o saco de papel, nervosa.

— Como você descobriu que sou eu?

— Eu sinto cheiro de talarica.

Noite com Ele - DuskwoodHistórias para pegar e não largar. Descubra agora