64 - Calmantes

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Maya parou de falar de repente, como se tivesse chegado numa parte que tinha vergonha de dizer em voz alta.

— É isso. Ele ameaçou a gente. Eu estrangulei ele. Simples assim.

— Ele não disse mais nada? — Esfreguei o olho. Se não podíamos ir à polícia, eu não fazia ideia do que deveríamos fazer. — Sobre o cara fingindo ser o Jake?

— Não. Nada.

— E depois disso, apareceu mais alguém?

— Só vocês dois.

Jake estava ouvindo tudo em silêncio, com o cotovelo apoiado no braço do sofá, puxando levemente a pele sob o olho machucado, parecendo distraído.

— Isso pode até ser bom — ele murmurou. — Se descobrirmos quem ele é.

— Pensei a mesma coisa — disse Maya, se levantando do sofá e se curvando logo em seguida para encarar Jake. — Você tem ideia do quanto você é sortudo?

Nada disso parecia sorte pra mim.

— E o Rogers? — Minha pergunta foi abafada por um estrondo lá fora. Me levantei na hora, passando por Maya, que estendeu a mão na direção do Jake, pedindo silenciosamente pra ele ficar onde estava. O som de algo remexendo se misturava ao assobio suave do vento do lado de fora.

Maya mancou até a lavanderia e passou pela porta, sem medo nem cautela.

— Urubus — ela disse. — Reviraram o lixo.

Algo no banco da varanda chamou sua atenção.

Segui ela de perto, meio desnorteado. O céu estava cinza. A chuva agora era uma garoa fina.

— "Obrigado." — Ela leu um bilhete amassado e úmido que pegou entre as ripas de madeira. — É do William. Você jogou as coisas dele aqui fora, lembra? A mochila, o moletom...

Me forcei a lembrar... Ah, sim. Logo antes do Alan apontar a arma pra minha cabeça.

— A gente estava com pressa.

— Você ainda quer falar com o Alan? Sobre o Richy?

Ela se aproximou, enquanto o rasgar do plástico e o bater de asas das aves tornavam impossível se concentrar.

— Acho que a gente pode... — Inclinei a cabeça. — Resolver entre nós três.

Os olhos dela me analisaram por instante e senti que ela ia dizer alguma coisa, mas deixou pra lá.

— Vamos precisar de um carro — a voz baixa e robótica de Jake soou da lavanderia conforme ele saía da casa. — Colocamos ele no porta-malas, jogamos gasolina e explodimos o tanque. Podemos até colocá-lo dentro do mesmo carro virado na floresta e depois atear fogo. Vai aparecer que ele morreu ali mesmo, sozinho.

— Não. — Maya dobrou o bilhete. — Todo mundo precisa achar que ele fugiu.

— Que diferença faz? — Perguntei.

— Se descobrirem que ele morreu, os Black Hats vão assumir que eu escapei e vão ter certeza de que o Richy me contou sobre o tal Jake... Eles não podem saber disso ainda.

— Por quê? — Jake juntou as sobrancelhas.

— Porque a gente precisa que eles tentem de novo — ela murmurou, encarando os corvos.

Jake não pareceu nem um pouco surpreso com a ideia. Fitei o chão. — E a Jessy?

Maya comprimiu os lábios, inclinou a cabeça.

Noite com Ele - DuskwoodHistórias para pegar e não largar. Descubra agora