73 - Como Água

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Pra mim, pareceu que haviam se passado horas de viagem quando ouvi a caminhonete morrendo e o estrondo de William batendo a porta velha e enferrujada. O outro black hat continuava mudo, mas me empurrou de leve com o pé antes de descer.

Só o cheiro de poluição passava pelo tecido grosso do capuz que cobria o meu rosto. De repente, meu braço foi quase arrancado do ombro quando me puxaram pra fora da caminhonete.

Senti nas coxas um pinicar suave misturado com terra. Grama. A luz do dia esquentava o capuz e passava pelas frestas escassas do tecido.

Não é muito escondido na floresta. Uma casa? Cabana? Perto de campo aberto...

Há distância, um chiar contínuo.

O vento nas árvores. Ou não?

Por qualquer motivo, William decidiu me carregar nos ombros. Momentos depois, quando saímos do calor do sol para sombras geladas, ele andou com cuidado, descendo o que eu deduzi ser escadas estreitas e baixas demais pra nós dois.

Estamos sozinhos agora? Só nós dois? Cadê o outro, o mudo??

Comecei a entrar em pânico de novo, mais e mais, conforme íamos mais fundo naquele bunker dentro da terra.

— Já estamos chegando, daí posso tirar esse negócio da sua cabeça. — A voz profunda de William era paciente e tranquila, pausada entre as palavras. — Vamos nos conhecer melhor aqui. Se você aprender a ser mais sincera, não vai precisar ter medo.

Ouvi passos logo acima de nós, também descendo. O mudo.

Meus pés tocaram o chão de concreto frio e William cumpriu o prometido, puxando meu capuz.

Mas não fez tanta diferença.

Estávamos em um cubículo de cimento, áspero e sem janelas. A única luz vinha do celular do mudo e o ar era tão abafado e úmido que nós podíamos muito bem estar dentro da Iron Splinter.

— Primeiro, precisamos tirar um problema do caminho. — William passou pela porta de ferro à minha frente e voltou com um banquinho de madeira. — Quem é o homem que saiu da casa logo depois do perito?

Ele colocou o banco no chão e empurrou os meus ombros para baixo, me forçando a sentar.

— É o Paradox? É verdade que ele está vivo? — Ele perguntou.

Então ele não sabe...!

Rolei os olhos. Minha boca continuava fechada pela fita.

— Se ele estiver vivo... é bom pra você. Podemos negociar. — William continuou, mas o mudo ficou agitado e tocou o ombro dele. William lançou um olhar de reprovação e ele se afastou. — Deixa eu tirar isso pra você.

Ele arrancou a fita da minha pele de uma vez só.

— Ele é namorado do meu namorado. Não tem nada a ver com vocês. — Eu disse, mordendo os lábios para aliviar a ardência da cola.

— Mesmo? E aquele boato que a garçonete inventou? Se tem esse fundo de verdade... Por quê você mentiu e me envolveu na história? Me parece que você queria proteger alguém.

— Eu não menti e você sabe. — Olhei para o mudo.

Eu não sabia que tipo de relação os dois tinham. Eles confiavam um no outro? Eram amigos? Ou só sócios por necessidade? Do meu ponto de vista, William não precisava dele pra me arrastar pra cá.

Talvez ele seja o hacker. E William... talvez William seja outra coisa.

Se eu conseguir separar os dois... pelo tamanho, eu consigo pelo menos tentar ganhar uma briga com o mudo, mas contra William... Não tinha chance nenhuma. E "mentalmente", quem era o mais fraco?

Noite com Ele - DuskwoodHistórias para pegar e não largar. Descubra agora