50 - Necessidades Obscuras pt1

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Meus olhos doíam com a luz do notebook. Os nervos do braço que quebrei quando era criança gritavam. Arranquei o emplastro de salompas, mas deixei a faixa de compressão.

— Acordada? — Eram 3h16. Eu sabia que ela estava.

— Uhum. — Ela resmungou, virada para a parede, abraçando um travesseiro.

Ela se virou, protegendo os olhos da luz. — Mas tô sem fome.

— Mas vai ficar. É melhor comer alguma coisa. Quero te mostrar um lugar.

— E o legista?

— Nada ainda.

Mentira.

Ele estava morto. Falecido anos atrás. Mas eu não sabia o motivo ainda e ela não lidava bem com informações pela metade.

Ela comeu um sanduíche enquanto eu conferi a minha mochila, coloquei o pacote que Phil tinha trazido alguns dias atrás no bolso da calça.

Phil.

Phil.

Estava começando a me acostumar com o nome.

Mas eles ainda estavam brigados.

E ela estava magoada. Não admitia, mas estava. A culpa que ela sentia, ou o que quer que fosse... Não saía dos fronteiras daquela mente. Nem pra mim, nem pra ele. Talvez nem mesmo pra ela.

— Pra onde a gente vai? — Ela perguntou.

— Você vai ver.

E foi assim que, no meio da madrugada-quando ela geralmente come alguma coisa, conversa e volta a dormir-eu fiz ela subir na garupa da minha moto, encarando o vento gelado.

Eu achava bonito- o jeito como ela fazia tão poucas perguntas pra mim. Especialmente vindo dela-- alguém desconfiada, cheia de teorias sobre todos à sua volta. Nenhuma discussão, nenhum pedido de explicação. Apenas seus braços apertados ao redor da minha cintura enquanto eu a levava a um lugar que eu sabia que ela detestaria.

Me deixava inquieto, claro. Aquele silêncio externo era só o reflexo do caos interno.

Já me senti assim tantas vezes, mesmo sem estar de moto: luzes ofuscantes passando rápido, como faixas coloridas no visor do capacete — o mundo desaparecendo no instante em que eu o deixava para trás, como se nunca tivesse existido. Tudo rápido demais. Sempre mirando em algo distante. Um mundo borrado, girando sem pausa, sem me dar tempo de entender ou absorver tudo o que me acontecia.

Assim como a base da floresta à nossa frente, aparecendo rápido demais.

Nossa hora de descer da moto e andar.

O vento carregava folhas lá no alto, assobiando entre os pinheiros, mas no chão o ar era parado e úmido. Cinzento.

Ela não me soltou de imediato. Ficou ali, grudada em mim por mais um segundo antes de passar a perna pro outro lado e descer da moto. Fiz o mesmo, peguei sua mão e mergulhamos na névoa, deixando a estrada para trás.

O toque dela estava frio como o de um corpo sem vida. Mas, de tempos em tempos, enquanto caminhávamos, ela apertava minha mão com força — sempre que os galhos e folhas das árvores se agitavam —, criando um eco que, para mim, era tranquilo. Mas para ela... não sei.

Tirei os fones de ouvido do bolso e os entreguei a ela.

Eu não gostava de fones. Preferia manter a audição livre. E ela preferia Bluetooth, mas já tinha aceitado que não era seguro para nós. Se acostumou com os fios — enfiando-os dentro da jaqueta sem pensar, já se desligando. A música vazou. Eu não reconheci.

Noite com Ele - DuskwoodHistórias para pegar e não largar. Descubra agora