53 - Ponto Cego

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— Uau, que buraco. — Eu disse.

— É aqui? — Jessy parou do meu lado, olhando o letreiro, sujo e tremeluzente. — BL spot?

Blindspot. — Mc apontou para as letras apagadas logo acima da porta estreita e baixa. — "Ponto Cego". O Richy não tentou falar com você, Jessy?

— Não, ele não está nem respondendo também. O dia todo, na verdade. Tudo o que eu sei é o que você me contou.

— Então... Ontem vocês combinaram tudo, ele disse que ia passar na sua casa, te buscar, e então nos encontraria no café da Clara. E hoje ele mudou de ideia, e mandou a gente pra cá. Esse lugar. — Maya olhou pra mim. — Quais as chances da gente ver alguém fazendo pole dance aí dentro?

— Quando eu disse que conhecia o lugar, eu quis dizer por nome, não que eu já tive aí dentro. — Conferi meu celular.

Quando Richy mudou o local, mandei uma mensagem para Bob.

"Acha que dá conta do movimento hoje à noite só com a Millie?

Lembra daquele bar estranho que uns clientes comentaram esses dias?

Vou estar lá. Mas se apertar, me liga -- dou um jeito de voltar."

Nenhuma resposta ainda.

— A gente não precisa entrar, se vocês não quiserem. — Enfiei o celular de volta no bolso.

— Você que sabe Jessy. — Maya esfregou a bochecha.

— Se eu soubesse que ia acabar se encontrando num bar, eu teria escolhido o Aurora. Eu queria um lugar normal, tranquilo. Não... Isso.

Ela bateu os braços do lado do corpo, mostrando o estacionamento coberto de papel amassado, bitucas de cigarro e um cheiro misterioso e amargo.

— Talvez ele queria um lugar mais... Sei lá. Isolado? — Maya fez uma careta.

— Vamos entrar. — Jessy falou, andando até a porta com os ombros caídos.

Passamos por um corredor à esquerda, e descemos uma escada em caracol, sentindo o ar ficando cada vez mais quente, com um calor úmido e abafado preenchido de fumaça doce e amarga.

O som foi aumentando e aumentando, até enxergamos a pista: O bar parecia montado com o que sobrou de outros bares — iluminação de boate falida, paredes escuras cobertas de grafite, pôster rasgado e um ou outro adesivo de banda que nem existe mais.

E gente, muita gente. Encostadas nas paredes, ocupando todas as mesas, falando alto, mas parecendo sem volume, com a música alta e grave fazendo a cabeça pulsar.

Cada canto parecia uma cena de alguma coisa que devia estar acontecendo em particular, mas estava ali... exposta. E se o estacionamento tinha um cheiro que não consegui identificar, ali tinha cheiros que eu não queria identificar: Cigarro, vape... O resto eu não queria nem pensar. Um borrão no ar fazia a luz vermelha do fundo do bar parecer ainda mais suada.

Maya puxou o meu braço e me inclinei de leve.

— Que será que tem ali? — Ela apontou para os fundos, enquanto falava no meu ouvido.

— Quer ir ver? Vai te traumatizar pra sempre. — Respondi, e ela riu.

Maya segurava a mão de Jessy, que marchava irritada na nossa frente digitando no celular. Reparei como ela se inclinou para falar no ouvido da minha irmã, mas era impossível escutar o quê. De repente, Jessy se virou e gritou.

— Quando o Richy chegar, vou tacar uma lata de cerveja na cara dele! Não a cerveja, a LATA.

Respirei fundo e encostei o queixo no ombro de Maya.

Noite com Ele - DuskwoodHistórias para pegar e não largar. Descubra agora