É errado dizer que eu nunca dormi tão bem?
Depois da noite em claro no Blindspot, de ter sido nocauteado no esconderijo, de arrastar o corpo do Richy até a casa da Maya... depois até a clareira — e voltar. Guiando um Phil lento e desorientado pela floresta escura, com Maya ao lado dele. Exaustão total, somada a uma necessidade desesperada de me dissociar da realidade: as condições perfeitas para um sono profundo e sem sonhos.
E ainda assim, acordei antes dos dois.
O sol por trás das nuvens era tão fraco que a luz entrando pela janela parecia opaca e cinzenta. A chuva tinha voltado, mais forte agora, batendo ritmada contra o vidro.
A respiração dela aquecia o lado do meu pescoço. O cabelo se espalhava pelo meu braço -- o que ela tinha escolhido como travesseiro. Atrás dela, Phil dormia de lado, com o rosto perto demais da nuca dela. Na noite anterior, ele tinha apagado de um jeito que me deixou inquieto. Maya garantiu que ele estaria bem pela manhã. Viramos ele de lado na cama e, quando achei que ela e eu dormiríamos no sofá, ela comentou, com naturalidade, que tinha medo de ele vomitar e se sufocar sem que a gente ouvisse.
Então dormimos os três juntos.
A respiração dela mudou, as pálpebras se moveram levemente. Fiquei imaginando com o que ela estava sonhando. Torci pra que não fosse com a clareira. Nem comigo, sendo sincero, já que ela merecia uma pausa dos pesadelos.
O mundo real voltaria logo. O delegado apareceria, mais cedo ou mais tarde, com perguntas sobre o Rogers.
O que significa que eu preciso ir embora.
Comecei a me mover, mas o braço de Maya se enrolou de repente ao redor das minhas costelas.
— Preciso ir, — sussurrei no ouvido dela.
— Mmmm.— Ela rosnou, sem abrir os olhos.
Difícil argumentar com isso. Afundei a cabeça de volta no travesseiro, pensando que talvez aquele momento valesse a pena ser preso depois.
A cor tinha voltado ao rosto dela. Ainda um pouco inchado, mesmo de olhos fechados. A pele cheirava a sabonete de laranja — exceto pelas mãos, que ainda carregavam o cheiro ácido de água sanitária e vinagre.
Meus dedos correram pelo cabelo úmido e frisado dela — pequenos cachos se formando por causa da umidade. Beijei a bochecha com leveza, como se isso pudesse extrair dela todo o resto da dor.
Maya virou o rosto e me beijou de volta, procurando minha boca às cegas. Os lábios estavam quentes e cheios. A língua se movia devagar, sem pressa, com uma incerteza suave.
Quando ela abriu os olhos, os meus ainda estavam meio fechados de tão relaxado que ela me deixava.
— Como você tá?— ela perguntou.
— Bem. E você?
— Tô ok.
— Com fome?
— Não.
Isso era novidade. Mas quando ela me puxou de novo pra perto, achei que fosse só preguiça de sair da cama quente.
Phil não se mexeu nem disse nada.
— Ele tá respirando?— perguntei.
— Tá. Dá pra sentir,— Maya riu em silêncio. Depois mordeu o lábio, levantando a cabeça pra me encarar. — A gente quebrou ele?
— Ele vai ficar bem.
Os olhos do Phil estavam entreabertos. O peito subia e descia devagar sob uma camiseta do Fontaines D.C., uma das que a Maya usava pra dormir. Eu só tinha sobrado com dois pares de calça, depois que queimamos as roupas cobertas de sangue. A respiração dele ainda era pesada.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Noite com Ele - Duskwood
FanfictionEla só queria uma noite. Depois de tudo, a MC finalmente encontra Jake cara-a-cara - e o plano era simples: uma noite tranquila no Aurora. Mas as coisas não ficam simples por muito tempo. Entre conversas atravessadas, silêncios pesados e uma química...
