A luz pendente da adega desenhava sombras no rosto de Jake, destacando seus olhos fundos e aquecendo a pele pálida com um brilho avermelhado.
Ou talvez aquela cor tivesse outro motivo.
—Então... Você entrou na minha casa? — Perguntei, ainda chocada e confusa com todos os detalhes que tinha acabado de ouvir.
— Isso. — Jake coçou os olhos com força, espremendo a memória e a coragem pra conseguir contar tudo que precisava.
Eu estava sentada na mesa, com o cotovelo sobre o joelho. Ergui as sobrancelhas, apoiando o rosto no pulso, escondendo o sorriso teimoso que tomava conta de mim enquanto eu visualizava Jake pelas sombras da minha casa. Se fosse outra pessoa, eu detestaria. Eu sairia correndo naquele exato momento, talvez eu até voltasse pra casa mesmo sabendo que não tinha nada nem ninguém me esperando lá. Mas ele... A forma como eu conhecia aqueles olhos, a lembrança viva e pulsante da pele dele encostando na minha, e a falta que eu sentia, deixava tudo irreal, confuso
A minha mente estava mergulhada em uma névoa quente e úmida que eu não conseguia dissipar.
Então desviei o olhar. — E depois... acabou?
— Não. — Ele baixou ainda mais a voz. — Piorou tudo. Fiz de novo, de novo... Foi aí que tirei a maioria das fotos que estão no HD.
Levantei o olhar e Jake pareceu mastigar algo, a mandíbula tensa e os lábios apertados, mas eu sabia que ele estava sem gelo ou chiclete.
A música começava a ficar mais alta no Aurora, abafada pelas paredes de tijolos de pedra que nos cercavam. Eu sentia uma friaca irritante e a leve corrente de ar que passava pelo buraco que fizemos na parede parecia querer me empurrar para dentro. Soltei um suspiro.
— Não faz sentido nenhum você não ter nem sequer tentado falar comigo. — Me ajeitei sobre a mesa, passando os olhos pela figura cansada de Jake, apoiado sobre uma pilha de engradados. Ele sacudiu a cabeça, tensionando o queixo.
— Claro que não faz sentido pra você. Mas é a verdade. Depois de um tempo, eu até achei um motivo pra falar com você. Um bom motivo. Você tinha começado a aprender alemão. Aí eu decidi: Vou falar com ela. Mas... não deu tempo.
Levantei a cabeça sem dizer nada, e Jake entendeu a deixa, apesar de torcer o nariz e soltar um suspiro impaciente. — Recebi uma ligação de repente. Me disseram que a minha mãe tinha falecido. Tive que voltar para cuidar de tudo.
Ele endireitou as costas, deu alguns passos para o lado, inquieto.
— Ela não me disse que estava doente. Só... morreu. Foi tudo muito confuso. — Jake desviou o olhar, os dedos batendo em um ritmo constante contra a caixa atrás dele. — Quando voltei, não sabia quem avisar. Não tinha ninguém. Então deixei meu número na porta do apartamento dela. Caso alguém sentisse falta dela e quisesse ir ao enterro-- sei lá. Mas ninguém entrou em contato.
O canto da boca dele se curvou, mas não era um sorriso de verdade. Só uma máscara bonita, algo para esconder o que ele realmente sentia. O polegar continuava batendo na caixa, sem parar. — Aquilo me incomodou. Não sei por quê.
Ele suspirou, quase entediado com a própria memória. — Tentei até chamar o Nathan.
Jake balançou a cabeça, arqueou as sobrancelhas. — Óbvio que ele não podia ir. Quando ele percebeu quem eu era, entrou em pânico. Me disse pra ficar longe. E como ele me disse pra ficar longe da "família dele", eu tinha que fazer justamente o contrário. Dei um jeito de me aproximar da Hanna.
Ele me lançou um olhar como aquele de quando me contou sobre como hackeou a E-Farm. Não existia arrependimento atrás daqueles olhos..
— Mas... — Ele continuou, cruzando os braços. — Não consegui falar sobre o Nathan pra ela. Ela-- — Os olhos deles se apertaram, como se ele procurasse palavras. — A Lili não foi nada receptiva. Ela me bloqueou logo de cara. Eu era um estranho puxando assunto na internet, ela não perdeu tempo comigo. Mas a Hanna foi tão fácil. Nem tanto no começo, mas ainda assim... Foi rápido. Ela era gentil, parecia sempre feliz de falar comigo.
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Noite com Ele - Duskwood
FanfictionEla só queria uma noite. Depois de tudo, a MC finalmente encontra Jake cara-a-cara - e o plano era simples: uma noite tranquila no Aurora. Mas as coisas não ficam simples por muito tempo. Entre conversas atravessadas, silêncios pesados e uma química...
