No voo, sonhei com o reformatório de novo. Aquele cheiro de concreto, suor e água sanitária, especialmente forte quando se é jogado de cara no chão. Aquela surra foi a primeira na qual sangrei, a primeira na qual ninguém se deu ao trabalho de enrolar panos sob os meus braços e pernas para não deixar marcas. Foi a primeira vez que notei que, na realidade, ninguém se importava além do superficial.
Depois daquilo, fui parar no hospital. Assistentes sociais foram chamados, tiraram fotos de mim. Mas então a notícia do que eu tinha feito correu— os roubos — , então a surra já não importava mais. Eu estava onde deveria estar.
Quando me devolveram para a minha mãe pela quarta ou quinta vez, ela não disse nada. Abriu a porta para que eu entrasse, apontou para os fundos da casa, e lá eu fiquei até que ela terminasse de falar com os agentes e me dissesse que eu podia sair do lugar. Quando os assistentes sociais foram embora e os motores dos carros pareciam distantes, ela pegou o casaco e saiu. Nenhuma palavra a mais. Olhei para o relógio na parede, ela estava quase uma hora atrasada para o trabalho.
Um aviso sonoro me despertou, arrancando-me daquele sonho inútil – se é que aquilo podia ser chamado de sonho. Por um instante, ao olhar os pássaros voando pela janela, invejei aquelas pessoas que costumam sonhar que flutuam livremente pelo céu ou qualquer outra coisa absurda... Mas, sem pensar duas vezes, afastei aquele sentimento, me forçando a aceitar o jeito como meu cérebro funcionava: totalmente desprovido de encantamento, até mesmo quando inconsciente.
O avião havia pousado, e logo eu conheceria aquele lugar além do oceano, aquela metade do planeta que não me lembrava em nada o que eu chamava de lar.
O calor era insuportável. Arranquei meu moletom do corpo e pensei em todas as camisetas de algodão grosso que eu não usaria por um bom tempo. O sol ardia alto contra a pele, apesar de serem apenas 8 da manhã... a viagem de táxi até a casa térrea pequena e mofada passou como um borrão, apesar da longa viagem de uma hora e meia.
Estar ali era como encarnar em um corpo que não era meu, e essa foi a melhor sensação que eu senti por muito tempo. se eu deixasse meu olhar cruzar com o de qualquer habitante local, estranhos me cumprimentavam na rua como se me conhecessem,; coisa que eu achei estranha no começo, mas aprendi a gostar. Eu não precisava dizer nada... Mesmo quando eles falavam comigo, um sorriso forçado era o suficiente para que eles também sorrissem e fossem embora se despedindo, calorosos. Quando me mudei, ganhei uma jarra cheia de suco de uma vizinha idosa e ela, me achando de alguma forma confiável, me pedia favores variados, coisas que os filhos dela — que agora tinham suas próprias famílias — estavam longe demais para fazer por ela. O pouco que aprendi do idioma foi com essa velhinha folgada.
No terceiro dia, decidi que não voltaria mais.
Depois de me situar no bairro, entender um pouco mais sobre a desgraça que era o transporte público nesse lugar, uma semana havia se passado e era hora de começar no trabalho que eu havia conseguido antes mesmo de pegar o avião.
O trabalho soava como uma fachada. Fácil demais, monótono, previsível. Às vezes sentia que eu só merecia o que ganhava de salário por causa do sofrimento que era chegar até o bairro planejado, artificial e estranhamente limpo, em comparação com o bairro que eu estava morando. Era como um planeta diferente. Lá as pessoas não sorriam tanto, andando apressadas, olhando para o chão, irritadas e impacientes.
Lá, eu devia solucionar falhas sistêmicas ou de segurança. As câmeras falharam? Eu descobria qual era o problema. O sistema integrado de autorizações e serviços travava? Eu resolvia. Nunca tive um problema de verdade ali, sendo a maior dificuldade apenas resistir à vontade de destruir aquilo tudo e recriar o sistema falho, velho e ineficiente do zero. Mas esse não era o meu trabalho e nem podia ser. As pessoas gostavam das coisas como eram: como estavam acostumadas.
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Noite com Ele - Duskwood
FanfictionEla só queria uma noite. Depois de tudo, a MC finalmente encontra Jake cara-a-cara - e o plano era simples: uma noite tranquila no Aurora. Mas as coisas não ficam simples por muito tempo. Entre conversas atravessadas, silêncios pesados e uma química...
