Eu ainda me sentia como um fantasma.
Não deixaria que Phil e Jake percebessem, claro. Mas voltar daquele buraco na parede foi como morrer de novo e a realidade parecia envolta por um véu, como as poucas memórias que eu tinha de quando era criança. O sol encoberto pela neblina grossa e a fumacinha que saía dos meus pulmões toda vez que eu respirava me afundava ainda mais na sensação de estar perdida em algum lugar no fundo da minha mente, até que a obrigação de descobrir alguma rota para algum lugar desconhecido me empurrava para a superfície.
Passei um tempo tentando entender o quadro informativo no ponto de ônibus, mas quanto mais lia, mais eu me lembrava do quanto minha leitura do alemão não era tão boa assim.
— Licença,bom dia. Qual desses eu pego pra chegar no Intercity? — Perguntei a um senhor sentado no banquinho de metal frio.
— Ah, se você quer pegar o Intercity, a estação é logo ali. Nem precisa de ônibus, dá pra ir a pé em 10 minutos.
Agradeci e me despedi, seguindo o caminho que o moço me indicara, feliz da vida por motivo nenhum.
Quando cheguei na estação, o vento gelado soprava ainda mais forte na plataforma elevada, e o barulho repentino e ensurdecedor da chegada do trem foi como uma pedra atingindo um lago tranquilo: Uma onda de outros sons seguiram; passos apressados, conversas discretas aqui ali, no geral, ao celular.
Pela hora da manhã—umas 7:30, no máximo—eu esperava um trem lotado, mas não foi o caso. Ao invés, pude ir sentada, olhando o centro urbano de Colville de cima, mais familiares do que Duskwood, não pela tempo que fiquei ali — até porque uma semana não é nada — mas pela similaridade ao que eu já conhecia, com seus subúrbios cinzentos e mal planejados, denunciando o crescimento rápido e descompassado.
Mas a visão não durou muito. Devagar, quase despercebida, a fronteira de Colville ficou pra trás, e passamos por uma série de outros cenários: Uns mais bonitos, outros mais naturais. A vegetação agora parecia familiar pelo tempo: Uma árvore ou outra, parenta daquelas da Floresta Negra, com seus tons de verde escuro e azulado, começavam a surgir como um aviso do que estava por vir.
Desci do trem ansiosa pra descobrir o restante do caminho. Preferindo apelar aos mapas da estação invés de simplesmente usar o gps no celular e seguir as instruções, descobri que haviam múltiplas opções para chegar próximo a Duskwood, mas nada que me deixasse sequer dentro da cidade.
Decidi perguntar de novo.
— Bom dia. Tem alguma linha que me deixe no centro de Duskwood?
O guarda da estação me encarou de cima a baixo, com o nariz franzido e o olhar curioso.
— Não tem nenhuma linha até Duskwood. O que você pode fazer é pegar o B450 e chegar até (outra cidade próxima que não entendi a pronúncia) e de lá, pegar um táxi. Até existe uma linha que passa por lá, mas só durante o Pine Glade Festival.
— Ahh, obrigada, entendi.
E de novo, segui as instruções.
O caminho do ônibus foi a minha parte favorita do trajeto, quando consegui ver a floresta ficando cada vez mais densa no horizonte e as montanhas aumentando de tamanho como um filme passando nas janelas.
Foi fácil encontrar um táxi. O difícil foi espantar as perguntas do motorista:
— Você não é daqui, tem sotaque.
— Não, não sou daqui.
— E vai visitar Duskwood? O Pine Glade Festival está longe ainda...
— Poisé. Tenho uma amiga lá. — Comecei a olhar o celular, só pra fingir estar ocupada.
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Noite com Ele - Duskwood
FanfictionEla só queria uma noite. Depois de tudo, a MC finalmente encontra Jake cara-a-cara - e o plano era simples: uma noite tranquila no Aurora. Mas as coisas não ficam simples por muito tempo. Entre conversas atravessadas, silêncios pesados e uma química...
