71 - Feral (+18)

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Olhei para ele pela fresta entre meus braços. Jake bloqueava a luz ao mesmo tempo que era emoldurado por ela.

Por que ele?

Ainda lembro daquela noite. Depois de tanto esperar, sem saber se ela mesmo aparecer ou não, a Maya entrou no Aurora com aquela renca de gente, segurando a mão da Jessy, rindo nervosa, perdida com o barulho e a multidão. Ela estava com um vestido pesado, meia-calça grossa preta, jaqueta vermelha e snickers.

Tive que me segurar pra não parecer desesperado e atravessar a mesa do grupo só pra chamar atenção dela. Eu já sabia sobre o Jake, mas não ligava. Não fazia diferença. O namoro deles parecia mais uma ilusão, condenado a morrer aos poucos pela distância. Quando finalmente consegui falar com ela, vi que ainda ficava vermelha quando eu chegava perto. Decidi que ia fazer de tudo pra ela ficar mais tempo em Duskwood-- mais tempo comigo.

Mas então, ela saiu pela porta de vidro, e quando voltou, estava embaixo do braço de um cara emburrado, sonolento, todo de preto. Um cara que veio direto pro bar, me encarou de cima, com aquele olhar frio e entediado, mas apertou minha mão como se quisesse me quebrar. Ali também ele bloqueava a luz... a luz da Maya.

Queria dizer que aquilo me desanimou. Mas na real só me deixou ainda mais focado.

Agora ela não estava aqui, mas meu corpo queria algo... Como se ela estivesse. Talvez fosse o cheiro dela, preso na pele dele-- Não. Porque ainda estou tentando me enganar? É por causa dele. Por causa da lembrança da manhã que nós passamos juntos, os três.

Quero aquele toque gelado nas minhas costas de novo.

Levantei o corpo e me apoiei no cotovelo. A grama reagiu e afundou um pouco. Era tão divertido abusar do espaço pessoal dele; quando ele se afastava era fofo e quando ele ficava e me encarava, mesmo sem saber se era pra me ameaçar ou me xingar, a minha pele ficava ouriçada.

Quando a competição começou a virar outra coisa? Agora, tentando lembrar, não consigo saber qual foi o ponto de virada. Talvez naquele dia no apartamento em Colville.

A Maya tinha saído, eu estava irritado de sono que testei todos os limites da paciência dele, mas senti que o esquisito estava mais desligado do que nunca. Depois entendi: ele estava ocupado demais pensando em como fugir com ela ou ser preso tentando.

Naquele dia eu dormi no colchão que ele dividia com ela. Acordei por um instante com o barulho baixo da porta se fechando. Ele tinha saído... e meu cabelo, que eu podia jurar ter amarrado, estava solto no travesseiro, o elástico jogado do lado, como se estivesse escorregado sozinho até passar das pontas... Mas aquilo nunca tinha acontecido antes. De qualquer jeito, no dia não pensei em nenhuma outra possibilidade e voltei a dormir.

Agora sinto o ar dele batendo no meu rosto. Vejo o jeito que me olha, talvez querendo fazer o mesmo de novo. Não eram as olheiras quase azuis nem a pele pálida que me faziam querer beijar ele. Era aquele olhar pesado, frio... que se acendia quando via algo que gostava.

O criminoso mais transparente que já vi.

— Você tentou roubar isso de mim quando eu tava dormindo no seu apê, não foi? — rolei os dedos pelo cabelo e tirei o elástico. — Quer pra você?

Jake inclinou o rosto e segurou o elástico, mas não soltei. Depois ele se inclinou mais, os dedos se espalharam pela minha palma até fecharem firme na minha mão.

— Eu não entendo o que você quer de mim. — Aquela voz de coruja bem no meu ouvido. — Não precisa ficar nesse vai e vem comigo, se o que você quer é ficar com a Maya.

Cala a boca, vai. — segurei o rosto de Jake e beijei na boca. Ele me beijou de volta devagar, com a mão coberta de bandagens apertando o meu pulso. — Olha... Você acha mesmo tem só a ver com ela? — Forcei tecido da minha cabeça, marcando o contorno. — Tá vendo?

Noite com Ele - DuskwoodHistórias para pegar e não largar. Descubra agora