45 - Acordos Silenciosos

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Mc estava deitada de lado, curvada sobre a mesa, dormindo igual um gato de hotel, sem se importar com o som alto que vinha do bar ou com o desconforto óbvio da mesa dura, mesmo com o travesseiro improvisado feito com o moletom dele.

Se eu não tivesse visto o que tinha acabado de acontecer, diria que ela estava serena, aproveitando uma soneca depois do almoço.

ele... Ele era outra história. Apoiado na parede, ele mantinha o rosto meio abaixado, descansando sobre o punho inquieto, como se ele fizesse cálculos enquanto a olhava dormir.

De repente, ele estalou e soltou um suspiro ansioso.

— Que foi? — Perguntei.

O esquisito não olhou pra mim, mas respondeu como se falasse consigo mesmo:

— Ela não costuma dormir assim.

— Como assim?

— Ela tem sono leve. Mas agora parece que está desmaiada. E não larga daquilo-- É um livro? — Ele ajeitou as costas, colocando as mãos na própria nuca como se resistisse à tentação de acordar MC só pra ver se ela estava viva.

— Não entendi. Você acha que ela... desmaiou? Então vê isso logo. — Por um instante, até eu fiquei na dúvida, mas espantei o pensamento. Surtar antes de ter certeza não ia ajudar em nada.

Ele balançou a cabeça. — Você já viu isso acontecendo antes? Ela já falou disso alguma vez com você?

— Isso? Você quer dizer o susto? Não...

— Talvez começou lá. Naquela viagem de vocês.

— Começou o quê? — Eu já estava começando a perder a paciência, sem entender exatamente do quê ele estava falando.

A Maya passou por um susto gigantesco e acabou passando mal. Pra mim, a história terminava aí, mas pra ele, ela era uma bomba a ser desarmada.

— Quantos neurônios você tem?" Ele me lançou um olhar rápido e engoliu seco. — Foi um ataque de pânico. Tem algo errado com ela... Ela nunca foi ao médico por isso. As únicas consultas que eu sei eram para controle de raiva."

A voz dele vacilou por um segundo.

— Foi o afogamento. Eu devia ter percebido...— Ele murmurou, esfregando os olhos, perdido nos próprios pensamentos.

— Hm. — Ergui as sobrancelhas. — De qualquer forma, ela tá melhorando agora, relaxa.

Minha memória voltou rápido praquele dia... durante a viagem, lembrando de como a MC ficava rodeando a Hanna por horas, complicando coisas que podiam ser bem mais simples—tipo perguntar logo sobre esse mentiroso bem na minha frente.

Balancei a cabeça.

— Eu não sei direito o que tá te incomodando, mas olha... — falei, me aproximando da Maya enquanto ele me encarava com aquele olhar de Ted Bundy. — ...Não me mata, você vai me agradecer mais tarde.

Cheguei bem próximo, e cutuquei a bochecha dela com a ponta do indicador. Ela se incomodou e deu um tapa na minha mão, resmungando um pouco antes de voltar a parecer um cadáver na mesa.

— Viu? Dormindo. — Sussurrei para ele. — Agora...

Maya tinha um livro ou caderno enfiado debaixo da blusa manchada de vinho, e um dos braços ainda envolvia aquilo, como naquela cena de um filme que vi anos atrás--um mago dormindo com uma esfera mágica trancada nos braços. E, igual ao mago, quando tentei puxar o caderno, ela segurou ainda mais forte.

— É o Phil. — Falei baixinho, passando os dedos pelo cabelo grudento de vinho. — Deixa eu pegar isso? Vou guardar pra você.

Ela apertou bem os olhos antes de abri-los um pouquinho, e aquilo partiu o meu coração de forma que eu não esperava.

Noite com Ele - DuskwoodHistórias para pegar e não largar. Descubra agora