Minha memória guardou só as sensações. O peso nas costelas, a claridade nos olhos, a confusão que senti quando segui Jake e abracei sua cintura enquanto cortávamos Duskwood na moto de Phil, em direção a um lugar que eu não conhecia.
A "casa da temporada" como Jake dizia, ficava a duzentos quilômetros de Duskwood. Uma cidade "grande"; a cidade com a qual Jessy sonhava quando era mais nova.
Mas agora, diante daquela arquitetura cinzenta e estéril, eu pensava em como o canto da "cidade grande" era quase sempre como o canto de uma sereia. A cidade tinha trabalho, tinha movimento, mas os conjuntos habitacionais não passavam de blocos cinzentos empilhados, um atrás do outro— depósitos de gente.
Ainda assim, diferente de Duskwood, onde o silêncio da noite era cortado apenas pelo vento e pelos pássaros noturnos, Colville nunca dormia. Carros e motos rasgavam as ruas estreitas, músicas de todo tipo vazavam pelas paredes finas dos apartamentos, bebês choravam... Crianças gritavam brincando nas ruas ao fim da tarde.
A única trégua vinha nos dias de semana, lá pelas três da manhã. Era quando eu acordava sem querer, mas me sentia ainda presa nos sonhos.
Jake se acostumou rápido a essa rotina e sempre tinha um lanche pronto pra nós dois na madrugada.
Esse foi o meu refúgio enquanto me curava de algo que não fazia sentido pra mim.
Eu não estava confinada ao espaço sufocante da adega, estava longe do oceano, e tudo deveria estar bem. Tranquilo. Certo. Certo demais. Então por que meu corpo ainda pesava tanto? Por que ainda era difícil comer? Por que o ar me faltava o tempo todo?
Em pouco tempo, a minha paciência comigo mesmo tinha ido embora. Jake tentava me convencer a deixar o diário de lado por um tempo, e até então eu tinha obedecido. Até porque eu não conseguia focar o suficiente pra tirar algum proveito daquela pista. Eu abria o diário e Jennifer falava comigo. E isso só me fazia sentir pior.
A morte dela se tornava cada vez mais real. Próxima.
Eu conseguia ver os olhos de esmeralda, imaginá-la na estrada... as buscas na floresta. Dez anos. E Hanna— que tinha as verdadeiras lembranças da Jennifer, as mais viscerais, as mais violentas— Guardou tudo dentro de si por uma década.
Talvez fosse isso me fazia sentir tão próxima de Jennifer.
A pergunta era repetida na minha mente o tempo todo... Até parar de parecer uma pergunta e começar a parecer um fato.
Será que a Hanna olhou para ela, como tinha olhado pra mim enquanto eu me afogava?
E Jake a amava.
"Hoje ele chegou tarde de novo. Vi os dois se abraçando. Um abraço rápido. Mas foi pior que um beijo."
Uma agenda com capa de couro; um ar de material de escritório chique. Muito masculino, mas a letra no interior era redondinha e fofa, e ao invés de endereços e telefones, aquele caderninho foi usado como diário.
Mas os pensamentos dela eram desordenados, soltos.
"Odeio saber coisas que eu não deveria. Não tenho ninguém pra contar... Não posso fazer mais anda além de conviver com a sujeira dessas coisas terríveis que ninguém mais sabe."
Coisas terríveis.
Pensei em algum crime que Jennifer tivesse testemunhado. Eu lia aquela passagem de novo e de novo, comparava com outras partes do diário.
Ela se destacava entre outros relatos banais e até meio infantis pra uma mulher de vinte e seis anos. Às vezes ela falava sobre encontrar os amigos e esquecer dos problemas, outras sobre querer sumir sem deixar rastros. Mas o assunto mais recorrente parecia ser o tal ele e o segredo "terrível" que ela carregava sobre esse homem. Me animei muito nos primeiros dias, achando que aquela frase começaria uma reação em cadeia; que com aquela frase toda a motivação da Hanna ter assassinado a Jennifer se desvendasse...
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Noite com Ele - Duskwood
Fiksi PenggemarEla só queria uma noite. Depois de tudo, a MC finalmente encontra Jake cara-a-cara - e o plano era simples: uma noite tranquila no Aurora. Mas as coisas não ficam simples por muito tempo. Entre conversas atravessadas, silêncios pesados e uma química...
