59 - A forma na Lama

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Cento e vinte, cento e trinta, cento e cinquenta quilômetros por hora. A chuva cortava o visor do capacete e eu precisava dividir a atenção entre a estrada e o celular acoplado ao lado do mostrador de velocidade. Na tela, um mapa, uma rota. 

Esperança

No meio do caos. 

As árvores que cercavam a estrada pareciam se fechar ao meu redor. Meu peito pesava. Algo terrível tinha acontecido, aquela parte era óbvia. O céu estava escuro, cinzento, apesar de ser quase meio-dia. E Maya não respondia o celular, não importava quantas vezes Phil ligasse. 

Ele corria na Yamaha logo atrás de mim. 

Foi ridículo. Na casa, com ele, eu nem sequer havia notado a chuva. E ela... eu devia ter ficado de olho nela. Nunca consegui rastrear a origem das mensagens que Phil tinha recebido... Mas eram eles. Eu sabia. Tinha que ser. 

Uma sequência de buzinas soou atrás de mim. Pelo retrovisor, vi Phil apontando para a floresta. Algo estranho despontando na vegetação.

O metal distorcido, os pneus negros voltados para o céu. Um carro capotado. Algum acidente tão forte que o empurrou para a floresta. Phil me ultrapassou antes de frear, pular da moto e jogar o capacete de lado. 

— Tem alguém? — Eu gritei contra o barulho da chuva e o vento forte batendo nas folhas acima de nós. 

A vegetação cobriu Phil até a cintura. Ele colocou a cabeça e os ombros dentro do carro sem hesitar, enquanto eu peguei o celular da moto e avancei para a floresta. 

— Não tem ninguém! Espera!  — Ele sumiu dentro do carro por um instante. — Jake! É isso que você tá rastreando?

Tirei o capacete  e apertei as pálpebras. Phil tinha um celular na mão. A capa roxa e vermelha... a tela estilhaçada, mas ainda ligado. 

O celular da Maya.

— Não. O colar. Estou rastreando o colar! — Apontei para o pescoço enquanto ele me seguia. — Reconhece o carro?

— Não! Ela tá perto? 

— Sim! 

Ele correu para o fundo da floresta e gritou o nome dela, mas a chuva e o vento gritavam muito mais alto. Eu não conseguia dizer nada além do necessário. 

Eu não queria que ele soubesse o pânico que eu estava sentindo. Talvez, se ninguém mais soubesse, o meu pavor não viraria realidade... O ponto no GPS continuava imóvel. E eu não sabia o que seria pior: vê-lo se mover, indicando que alguém a estava levando cada vez mais longe, ou vê-lo ali, parado.-- como se ela também estivesse imóvel, inerte. Morta. 

A palavra em si parecia amaldiçoada. Só de cogitar eu senti que já tinha acontecido e a sensação de perda se espalhou como uma doença. Então me concentrei no caminho, olhando sempre para a frente enquanto seguia o sinal do GPS, enquanto Phil gritava a todos pulmões. 

Tinha tanta água, que a floresta começava a lembrar um pântano. Estávamos tão perto. Já deveríamos estar vendo ela. Eu pensei, olhando ao redor. 

Não... Por favor... Não... 

Comecei a olhar para o chão, afastando a vegetação e remexendo as poças espessas de lama. 

Procurando o que eu não queria realmente encontrar, me ajoelhei no chão. Minha mão esbarrou entre lama e mato, no cubo achatado e dourado, preso à corrente partida ao meio. 

Me levantei, as mãos esfregando a cabeça, instintivamente. — MAYAA! 

— O quê, o quê foi? — Phil gritou. 

Noite com Ele - DuskwoodHistórias para pegar e não largar. Descubra agora