76 - Rancor

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— MAYA! VOLTA!

Pensei ter ouvido a voz de Jessy e meu corpo tremeu no escuro completo.

Nunca tive tanto tempo sozinha com os meus próprios pensamentos, presa ali no meu quartinho de concreto e ferro, onde nenhuma luz ou som entravam. Até o ar parecia parado; Às vezes jurava que o estoque de oxigênio da cela tinha acabado e eu estava vivendo de gás carbônico naqueles últimos dois dias.

A rotina deles era estruturada... Uma visita do mudo, onde me trazia croissants e leite, e outra de William, que me trazia comida, fazia perguntas confusas e aparentemente aleatórias numa tentativa de entender a lógica de Jake e me levava até a superfície por alguns minutos. No começo, achei que era até gentil da parte deles, podia ser muito pior-- Mas com o tempo, percebi que os passeios com William só serviam pra me deixar mais deprimida quando eu voltava pro quartinho. O contraste entre a brisa fresca da floresta e o gole da água fria e nova que William trazia só deixava o ar da cela ainda mais parecido com uma caixa de sapatos fechada, e a garrafa de água da cela mais rançosa, quente e empoeirada.

Mas hoje, no terceiro dia, tudo isso parou de fazer diferença. Não conseguia comer mais nada. Sentia náusea constante e um gosto de pus no fundo da garganta. O localizador não tinha saído, nem por cima por baixo, e a dor na boca do estômago pulsava de repente, depois parava, como se tivesse dormido.

O rangido da barra de fecho que fechava a minha porta soou alto e meu coração palpitou. A silhueta de William apareceu contra o brilho fraco do notebook aberto. Ele ficou lá parado por um instante, enquanto me levantei do chão com os pulsos ainda amarrados na frente do corpo..

— Pensei que você tava com pressa. — perguntei. — Porque não fica logo aqui até terminar de desencriptar o hd?

— Prefiro dormir numa cama confortável. — Ele disse. — Até porquê, você não está sendo tão útil quanto achei que seria.

— Talvez eu seria mais útil se eu pudesse dormir numa "cama confortável". Aqui não é exatamente salubre, sabe?

— Seja mais confiável. Só então podemos negociar alguns benefícios pra você. — William entrou na cela , mesmo quase não tendo espaço pra nós dois ali. — Estou começando a pensar que você está enrolando de propósito.

— A troco de quê? — Inclinei a cabeça, meus olhos lacrimejavam, tentando focar no rosto dele naquela luz indireta. — Eu quero ir pra casa.

William me ignorou e puxou o notebook pra dentro da cela.

— Não vamos lá pra cima hoje?

— Estou pensando.

— William... Eu sei o que é condicionamento de Pavlov, tá? Já entendi, já está dando certo. Eu quero ajudar. Toda vez que eu escuto o rangido da porta eu sei que é você e que a gente vai sair um pouco. Por favor? Se a gente ficar aqui eu vou ficar pensando no ar lá fora o tempo inteiro.

— Pensou no que eu disse? — Ele abriu mais o notebook e o brilho me obrigou a fechar bem os olhos. — "Aquela que oculta a natureza dos olhos, mas revela a beleza do mundo."

Precisávamos de um diretório. A sequência certa de palavras indicava o diretório certo. O problema, era que Jake embaralhou tantas pastas, tantas fotos e caminhos diferentes que achar a sequência certa era como acertar na loteria. Aquela frase eu conhecia, é uma referência a uma das origens do meu nome e Jake a usa como dica para desbloquear o notebook.

— Não sei do que ele tava falando. É poético demais pra mim... e pra ele também.

— Tem duas fotos suas com essa legenda.

Noite com Ele - DuskwoodHistórias para pegar e não largar. Descubra agora