67 - Dissonância

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A grande questão que restou depois de um ménage à trois acontecido logo após o homicídio e desmembramento de Richy, foi a dissonância que dominava o ar abafado do quarto, onde nenhum de nós três demonstrou a menor disposição pra quebrar o silêncio e encarar a realidade úmida e gelada lá fora.

Eu matei Richy. E esse peso ia me acompanhar por muito tempo. Mas, naquele momento, com a cabeça de Jake no meu peito e a de Phil mais embaixo, na minha barriga, era fácil fingir que tudo aquilo foi só um sonho ruim.

Mas se eu quisesse multiplicar esse momento, teria que cortá-lo ali.

— A chuva parou. Não tenho mais desculpas sobrando pro Alan. — Eu disse, ainda deslizando uma mão no cabelo de Jake e a outra no de Phil.

— Podemos dizer que... — Phil balbuciou de olhos fechados. — Você foi até a casa da Millie, e eu te busquei no caminho de volta. A gente serve de álibi um pro outro.

— Acho que não precisamos de um álibi sobre o Richy ainda. — sussurrei, pensando alto. — Não parece, mas o problema maior é o diário. O Alan vai ficar possesso quando saber que eu tô com uma prova tão importante há todo esse tempo e não entreguei pra ele. Acho que vou dizer que encontrei na adega, mas que você só ficou sabendo hoje.

— Acho que a gente devia mentir o menos possível. — Ele olhou pra mim, franzindo a testa. — Menos confusão, menos chance da gente se contradizer.

— Contanto que você entenda que pode ser um problema pra você...

— Vamos com a Kathe. Ela vai saber o que fazer....

— Quem?

— A advogada.

— Ahh... — Só de imaginar explicar toda essa história do diário pra outra pessoa, eu ficava com dor de cabeça. Pior ainda considerando que essa pessoa entendia de leis.

Eu não queria levar bronca.

— Acho que nós devíamos fugir. — A voz de Jake saiu rouca e reflexiva, como se falasse dormindo.

Phil olhou pra ele e Jake continuou:

— Foi só por isso que consegui ficar livre por tanto tempo. Você não espera que comecem a chegar perto de você. Você some de vista antes.

Eu queria não ter visto a maneira como Phil desviou o olhar.

— Ainda é cedo pra pensar nesse tipo de saída. — Soltei um suspiro. — Você me leva até a delegacia, Phil?

Jake girou o corpo de lado, só o suficiente pra sair de cima de mim. — Eu vou buscar a Yamaha enquanto isso.

— Espera eu ver como as coisas estão na cidade primeiro. Não vai ser bom se alguém chegar enquanto você estiver por lá, perto do carro virado. — Eu disse, conforme Phil se levantou de súbito, tentando espantar o sono. — Espera aqui, mas fica atento. Vamos mandar notícias no caminho--

Meu estômago afundou com o ritmo mecânico da campainha.

Não pode ser... Ninguém-- Ninguém pensaria em procurar o Richy aqui primeiro, mesmo se Alan já tiver notado a falta dele.

Phil e Jake se entreolharam e eu corri para vestir o primeiro par de short e camiseta que vi pela frente.

Atravessei o corredor até a sala com os olhos vidrados na janelinha estreita da porta. O vidro era trabalhado e cheio de detalhes empoeirados, de forma que ninguém conseguia ver dentro, nem eu conseguir ver quem estava lá fora além da leve sombra que se projetava sobre ela.

A sombra se afastou, e eu fiquei ouvindo o farfalhar das folhas ao vento e a passada humana arrastada, indo e voltando pelo jardim da frente acompanhado de um tilintar metálico de ferramentas. Pelo som eu sabia quem era antes mesmo de abrir a porta.

Noite com Ele - DuskwoodHistórias para pegar e não largar. Descubra agora