74 - Interferência

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— A gente pode ter uns dois gatos... ah... e um cachorro. Se adotarmos bem filhotes eles não vão brigar. Você não tem alergia e coisas desse tipo, né?

Phil andava na minha frente, indo e voltando, olhando ao redor, alternando em falar sem parar e depois se perdendo em pensamentos e quase ficando pra trás. Ele deveria ter ido pela estrada, mas quis vir comigo pela floresta.

— Acho que não. — Respondi. Era fascinante vê-lo fazer esse tipo de plano antes mesmo de ter certeza se eu estaria lá pra participar deles.

Não... Ele tem certeza. Ele conta com isso.

— A Maya prefere gato ou cachorro? — Ele perguntou.

— Tanto faz. Já vi ela cogitar criar até uma lagosta. Sabe aquelas que dão socos pra abrir conchas?

— Nunca ouvi falar...

— Pergunte e ela vai ficar falando do assunto por horas. Vamos mais rápido, pode ser? Ela está esperando.

— Beleuza. — Ele apertou o passo. — Mas... e você? Tanto faz pra você?

— Sobre animais? — Juntei as sobrancelhas. Eu não sonho muito longe em termos de cronologia. Antes da Maya, eu nem sequer sonhava. Agora precisava pensar em partes... planejamentos concretos. Primeiro o julgamento da minha ir-- da Hanna. Depois a nossa fuga, depois todo o resto. Mas não queria cortar a esperança com pragmatismo; queria alimentá-la. — Eu nunca tive animais... Não sei.

— Porquê?

Olhei pra ele, me perguntando se aquilo era um hábito que deveria sempre esperar. Porquês, porquês e porquês... como uma criança.

— Eu não tenho endereço, esqueceu?

— Ahh, verdade. Mas e se fosse ter...? E quando você era criança, nunca teve nada, nem um hamster?

— Tinha um gato que eu via de vez em quando, na vizinhança. Um gato branco, bem gordo. Isso conta?

— Conta. Se é o melhor que você consegue. — Ele coçou o queixo com um meio sorriso. Depois de uma pausa amassou os próprios ombros e se virou pra mim. — Você sabe que ninguém vai levar a gente a sério, não é?

Parei o passo. Phil mordeu o lábio, gesticulando nervosamente enquanto falava.

— Nós três; Não é normal. — Ele disse. — Quando estivermos juntos de verdade, vão fazer piada sobre nós dois, vão chamar a Maya de coisas... E se a gente decidir-- ter uma "família" vai ser todo um problema à parte.

— Nunca pensei que alguém com a sua reputação planejasse tão longe.

— Comecei a pensar assim faz um tempo. Mas as vezes queria voltar a ser exatamente quem eu era antes de conhecer a Maya. Era tudo mais fácil. Mas ao mesmo tempo... Era como se eu tivesse dormindo. Nem lá nem cá, sabe?

— À deriva. Eu sei.

— Eu comprei o Aurora tão cedo. Meio que... Sempre tive as respostas de tudo. Muita gente não gosta das minhas tatuagens—- Ooff, quando fiz a primeira a nossa vó quase teve um infarto. Meu cabelo longo, meus piercings... É diferente. Podem falar mal de mim, achar o que eu faço com a minha vida é errado. Eu aguento. Mas a minha família.. Não sei como vou reagir quando acontecer. E vai acontecer, não é?

Então esse sorriso não agrada todo mundo como eu pensei. Me lembrei de algumas conversas de Maya com amigos. As brigas que ela tinha com colegas e como ela era acusada de ser egoísta e autocentrada mas como tudo nela denunciava um sentimento de solidão crônica.

Noite com Ele - DuskwoodHistórias para pegar e não largar. Descubra agora